Não
vou lembrar o ano com exatidão, mas ainda vivíamos os anos 1990.
Por incrível que pareça as cidades de Niterói e São Gonçalo,
vizinhas da capital carioca abrigavam cenários independentes
animadores. Era o final de semana se aproximar pra começar aquela
coisa de “Em qual showzinho vamos beber na sexta?”, “Cara,
no sábado vai rolar um lance com várias banquinhas de zines em tal
lugar...” ou “Domingo é certo! Tu vai pintar lá no show,
né?” As opções eram muitas, e ao menos esse que vos escreve
não pensava em absolutamente nada (ou quase) que não tivesse a ver
com ensaios com bandas pouco promissoras, trocar cartas com
correspondentes Brasil afora e ir atrás de shows por aí. Não
importa onde fossem.

Na
verdade, a coisa começava/terminava (ou não terminava) já no
começo da semana. Era colocar as demos que comprava nos shows do
final de semana no walkman e passar semana curtindo todo
aquele material. Na mochila da escola haviam mais fanzines e k7
que material escolar. Sexta-feira chegava, aula acabava e... partiu
Rock Revenge! A loja no centro de Niterói servia como
parâmetro pra esquematizar por onde passaríamos no final de semana.
Já que todos que organizavam shows deixavam material ou lá, ou na
saudosa loja Fire Rock, esta na Zona Sul da cidade. Nessa
época, a trilha sonora perfeita era um tal de “Caos Mental Geral”
de uma certa banda Cólera. Álbum aliás, que comprei na
citada Rock Revenge! Mal sabia eu o reboliço que a bolachinha
estava causando na minha própria vida... Era tipo o arroz com feijão
de todo dia. Sério, ouvia aquilo todo dia!
É
claro que a coisa extrapolava as barreiras do 'gosto musical'. Fazia
sentido na minha vida, no meu dia a dia. “Porque Estou Aqui?
Porque Não Sou Igual? Ninguém Pode Decidir O Que é Melhor Pra
Mim... Se Eu Vou Libertar, A Grade é Ilusão... Liberdade É A
Missão...” de “Missão Libertar” era praticamente um hino!
“Grito de Ódio” abria a mente para o velho “afinal,
qual o meu papel nesse mundo completamente maluco???” e “Meu
Igual” traduzia, ao menos pra mim, o sentimento de se
acotovelar numa roda de pogo. Daí por diante, foi um pulo até
chegar ao resto da obra de Redson e banda Cólera.
Minha paixão por vinis entrou literalmente em parafusos quando dei
de cara com um exemplar da coletânea SUB, num sebo no Centro
do Rio! Pencas de cartas, quilos de fanzines, livros sobre o assunto
e discos maravilhosos depois e pronto: já sabia ao menos de onde
aqueles caras haviam saído!

Faltava
conferir ao vivo. O que só aconteceu anos depois, por volta do ano
de 2000 (ou teira sido em 98, 99... enfim), se não me engano... A
lendária banda UK Subs tocaria na Fundição Progresso, na
Lapa carioca. Na abertura do show dos gringos, Cólera! É
óbvio que não pensei duas vezes e parti de Niterói rumo ao show.
Nem me importava quem mais se apresentaria. A própria UK Subs,
da qual sabia bem pouco na época, ficara em segundo plano a essa
altura do campeonato! Inesperadamente, eis que Redson & Cia.
tomam conta do palco pra se apresentar antes mesmo que as outras
bandas de abertura! Do nada, e não me esqueço disso, vem do palco:
“Boa noite. Nós somos uma banda inicianete, estamos começando
agora e temos pouco tempo de estrada... Nós somos o Cólera!”
Putz, não lembro de quase nada de nenhuma das outras bandas. Aquilo
bastou pra me tirar desse plano! Catarse! Suor! Barulho, pogo,
raiva, letras aos berros e, o mais legal, toda essa energia vinha de
volta do palco!
Depois
disso foram mais alguns shows (sempre perfeitos, incrível!) e, eis
que o garoto que escrevia cartas tinha seu próprio fanzine! Tipo
“...quero a liberdade pra tentar... quero ser e me expressar
também... faça você mesmo, faça pra entender, crie um mundo
novo...” tem muita culpa no surgimento do FMZ aqui ...Na
época, pouquíssimas cópias xerocadas que iam aumentando à
medida que surgia nossa banquinha de cd`s, troca de materiais,
enfim... um dia escrevo como a tal banquinha surgiu (com seis cd`s
do selo de um camarada de Brasília...). E eis que fico sabendo
de um show do Cólera em Itaboraí, município da Região
Metropolitana Fluminense, do 'lado de cá' da poça. Impossível não
citar a importância que esse dia teve na minha vida. Parti de
Niterói cheio de materiais pra montar minha banquinha no show (o que
não rolou..rsrsrsrs) e disposto a fazer uma entrevista com Redson
pro meu fanzine. Isso sim rolou!

Desde
a receptividade dos caras (Fábio, na época
baixista da banda me viu pogando feito retardado com mochila e tudo e
ofereceu o canto onde estavam as coisas da banda pra eu guardar meu
material), até a paciência de ceder um entrevista pra um
fedelho todo enrolado com um gravador k7 tosquíssimo depois
de um show de mais de duas horas onde, no final, a galera pode montar
o set list como bem quis! Nada disso sai da minha cabeça.
Redson foi de uma generosidade fora do comum com este que vos
escreve. Comentou e 'deu aula' sobre diversos aspectos do cenário
underground. Ao menos pra mim, era incrível estar ali,
trocando uma ideia com o maior ícone do underground nacional.
Responsável por lançar bandas por seu selo, ir pra Europa com sua
banda quando ninguém aqui sonhava ser possível uma coisa dessas! É
sem dúvidas a edição mais emblemática e da qual mais me orgulho
do FMZ até hoje! Depois disso, vieram mais shows do Cólera
no Rio. E a cada vez que encontrava com o cara, sim, ele lembrava de
mim e da entrevista. Nunca deixou de me cumprimentar e perguntar como
andava meu zine! Pra um moleque metido a músico, metido a
produtor e metido a 'agitador cultural' ou coisa que o valha, isso é
importante, sim...
…Pouco
antes de receber a notícia da morte de Redson, estava
assistindo ao Guidable, documentário que conta a história do
Ratos de Porão, do qual Redson participou. Foi aí que
me bateu a seguinte sensação: esse cara tá na ativa a quase tanto
tempo quanto eu estou nesse mundo! Ok, sempre soube disso. Mas dessa
vez soou diferente. Não estou falando de nada sobrenatural nem nada
do tipo. Mas o fato é que fiquei com isso na cabeça e dias depois
recebi, via Deise Santos (Revoluta Produções), poucas
horas depois do acontecido, a notícia de que Redson havia
falecido. Encontrei com Fábio, batera da Kopos Sujus
no Centro do Rio no mesmo dia e a sensação era a mesma: “cara,
isso aconteceu mesmo?”, “é o tipo de coisa que não
parece ser verdade, simplesmente não desce...”

Estive
presente em alguns tributos e homenagens prestadas a Redson e
sua obra. Festival do It Yourself, na Audio Rebel (Zona
Sul carioca), evento Forte e Grande é Você (Centro do Rio).
Fizemos ( Redson sempre lembrava: sozinho ninguém
faz nada) uma singela homenagem ao Cólera na edição
especial de nossa festa Narcose Rock Clube, que rolou dentro
das comemorações dos dez anos do Projeto Praia do Rock,
semana passada. Mas ainda assim a coisa não desce. Ainda soa
estranho. Neste sábado, acontece o Janeiro Infernal - Especial Cólera, evento promovido pela jornalista e produtora cultural
Deise Santos, que trará ao Rio Val e Pierre, os
outros dois integrantes do Cólera para dividir o palco com
integrantes de bandas e gente ativa no cenário underground
carioca. Eu, o personagem dessa história toscamente contada aí em
cima estarei lá, no palco junto com os caras. Alexandre Bolinho
(Kopos Sujus), Felipe Chehuan (Confronto),
Lacrau, Protesto Suburbano, Jason e muitos
outros nomes terão a honra de dividir o palco com o Cólera,
tocar e sentir as canções, gritar as letras, enfim...
Pode
parece estranho, mas só agora consegui me sentir a vontade pra
sentar e escrever sobre isso. Tanto tempo depois da notícia da morte
do Redson. Como disse, a ficha insiste em não cair. Não
porque fui próximo do cara, frequentei sua casa ou coisa que o
valha. Nunca foi assim. Mas sua música fez mais que isso. Frequentou
minha cabeça e foi fundamental nos rumos que dei na minha vida.
Minha ideologia de vida passa por Cólera. Minhas convicções
passam pela obra de Redson, Val e Pierre. Falei
disso com o Bolinho da kopos Sujus no Praia do Rock,
creio eu. Ele dizia: “Cara, acho que a ficha só vai cair mesmo
depois do sábado que vem.” E tudo aponta pra isso mesmo.
Pessoas de diversas origens, histórias de vida diferentes e
convicções das mais variadas juntas pra homenagear alguém que fez
parte de cada uma dessas vidas. Tenho certeza que pra todos os
presentes sábado no Estúdio B, em Nova Iguaçú um
sentimento será idêntico: “Se você estivesse preso pela força
de um Estado que te dezumaniza, se sentiria tal qual um velho, um
homosexual, um morto, um porco, uma prostituta. E se uma banda Punk
fizesse um som da sua história, talvez ajudasse na revitalização
da sua auto-gestão.”
Rafael
A.
ps:
Quando me apresentei ao Serviço Militar, no ano de 2000 (tô
novinho, né?), me mandaram ler me voz alta um juramento, ou coisa
que o valha, numa placa que devia ter a idade da ditadura no Brasil.
Olhei fixamente pra ela e repeti o que estava escrito com a letra de
“Continência” na cabeça. Mais uma vez: Obrigado Redson!