sábado, 10 de novembro de 2007

Gravação do DVD Maratona Independente


Bar do Blues (Zé Garoto, São Gonçalo)

DEAD FISH – DELUXE TRIO – PACTO SOCIAL – A KOMBI QUE PEGA CRIANÇAS – OITAVO PECADO – LARHA – E OUTRAS



Show de hardcore no Bar do Blues? Essa vai render... Enfim, esse ‘e outras’ aí em cima é pra valer. Eram pelo menos dezenove bandas escaladas para a gravação deste DVD no Bar do Blues. Mesmo sabendo que o momento mais aguardado pela galera seria a apresentação da capixaba Dead Fish, hoje com status de grande banda (com todos os méritos, que fique claro) do cenário nacional. Rolou de tudo no Bar do Blues nesse sábado. De tudo mesmo. Até gravação para o canal de TV à cabo Multishow rolou no meio do evento. Antes de mais nada: Tinha, sim, um cara filmando o tal do DVD. Agora, se vamos ver esse material lançado algum dia, aí já é com a Mídia Z Produções... E como tem uma penca de coisas pra falar, vamos começar isso logo.

De cara, vale o registro de que, seja pelo motivo que for, as primeiras bandas a se apresentar não tinham absolutamente nada a ver com o evento em si. Tirando pela atração principal, imaginamos se tratar de um evento de hardcore. Mesmo que o estilo hoje apresente uma série de ramificações (boa parte delas equivocadamente atribuídas ao mesmo, ao meu ver) soou meio estranho ver bandas de New Metal e Rock Alternativo tocando para praticamente público nenhum, apesar de uma parte dos presentes trajando camisetas de Guns’n’Roses e S.O.A.D, entre outras. Dentre a galera nitidamente deslocada estavam bandas como God Diamond, Carlos Spihler e outras que, apesar de apresentações corretas e esforçadas, não conseguiram soar muito além de um pano de fundo para as bandas que, literalmente, abriram o show da Dead Fish. Seja como for, deram seu recado, mesmo que em local e hora errados.

No meio bandas e estilos de todas as procedências, stands de material alternativo (incluindo o nosso!), pessoas nitidamente ‘trêbadas’ e um público que, com o decorrer do evento, se mostrou completamente estranho, deslocado (assim como algumas bandas) e ‘nada haver com nada’ eis que surge a japonesa gostosa da Globo fazendo a tal matéria para o Multishow... Seria trágico se não fosse cômico, literalmente! E não é que escolheram nosso stand pra filmar uma parte da tal matéria? E enquanto tentávamos nos esconder dos holofotes um sujeito todo suado, saído sabe-se lá de onde dava o que aparentavam ser explicações sobre os materiais ali expostos. Foi aí que o caos se instalou em nosso humilde espaço dentro do Bar do Blues. Uma horda formada por integrantes de bandas, tietes, personalidades (?) da cena (???) e toda sorte de criaturas formavam uma fila (tipo de banco mesmo) para tentar dar seu depoimento acerca de qualquer coisa idiota que, certamente, não tinha nada haver com cena underground ou coisa do tipo. Vai entender, né? Resumindo, patético.

Explico: Se a tal Multishow (não tenho TV à cabo, nunca assisti esse treco) foi ao Bar do Blues, deve ter ido atrás de alguma coisa, certo? Então, que eles mesmos encontrem. Sério. Soa desistimulante pra quem trabalha pelo meio underground ver aquela autêntica corrida do ouro a que se dispuseram bandas e as tais ‘personalidades da cena (cena onde cara pálida???)’ tentando uma pontinha no que deve acabar por se tornar um show de horrores pra moderninho tapado metido a alternativo ver. Se é do interesse dessa ou daquela TV documentar o que rola no underground, que eles venham até nós. Afinal, nosso trabalho longe dos holofotes deve (e é capaz de ser) independente de fato. Pra qualquer um que viesse de fora (como muitos no Bar do Blues nesse sábado) a impressão passada era a de que estávamos em meio a uma ‘sub-micareta’ com direito a ‘gente bonita na balada', ‘roupas descoladas’ e ‘candidatos a sub-celebridades instantâneas’. Aviso aos navegantes: A coisa é bem diferente. Independente de a Dead Fish estar na MTV, no rádio, na Multishow ou em qualquer lugar que o valha é legal lembrar que o conteúdo de suas letras continua o mesmo. Que a banda, ao contrário de outras, não abriu as tais concessões, nem tão pouco fez fila pra aparecer no Faustão. Por que (nunca sei se é junto ou separado...) não seguir o exemplo e, mesmo com underground e mainstream tão próximos ultimamente, mostrar a nossos visitantes um mundo à parte? Alheio à mídia de massa, que despreza os valores cultuados pelo mundo lá fora e pode, sobriamente, mostrar suas intenções e suas engrenagens para quem vem nos fazer uma visitinha? Qual o sentido de estar no underground, cultuando conceitos e valores distintos da sociedade que nos cerca e sair abanando o rabo assim que a primeira câmera é ligada? Ao menos quando eu, e outros que conheço, tínhamos dezoito anos a coisa era bem diferente. A ‘coisa’ era levada a sério. Era ferramenta pra interferir na sociedade, era mecanismo de mudança. Sinceramente, não entendi a piada.

Voltando ao que interessa: Quando finalmente as bandas escaldas para, aí sim, abrir o show da Dead Fish se apresentaram o Bar do Blues já concentrava um bom público, mesmo que inferior às expectativas. A carioca Deluxe Trio (candidata a ocupar a lacuna deixada pela finada Noção de Nada... Por que será?) deu seu recado. Pacto Social fez, notadamente, um dos shows mais competentes da noite (aliás, a única banda de Punk Rock no evento; vai entender...). A Kombi que Pega Crianças, sempre com jogo ganho, manteve a galera na mão usando a experiência e competência que tem. Seu Miranda pôs o povo pra cantar com seu Miami Rock, principalmente, no ‘hitEu Sou o Cara Mais Estilo que Eu Conheço, num show correto. A Larha também deu seu recado mostrando que está num bom momento no que diz respeito à resposta de público. E que venha a Dead Fish!

E vieram. Não precisa dizer que Rodrigo, Nô & Cia. são mestres no que diz respeito a ter o público nas mãos. As clássicas mexidas com público e seguranças funcionam tão somente como atrativo a mais, já que musicalmente os caras atingiram um nível altíssimo de competência pouco visto no Rock nacional. São sim, a maior banda de hardcore do Brasil. E isso é incontestável. O mais recente trabalho Um Homen Só não agradou tanto assim os fãs (principalmente os mais antigos) e, talvez por isso, não contribua com muitas canções no set do show. As antigas estavam lá! Molotov, Fragmentos Sobre um Conflito Iminente, a abertura arrasadora com o clássico absoluto Sonho Médio só reforçaram os comentários de que a banda estava impossível (no bom sentido) nos shows! Público cantando, banda afiadíssima, pogo liberado (finalmente, né Bar do Blues???) e um belo show. Definitivamente, a maior banda de hardcore do Brasil.

Não sei se por já estar cansado depois de um dia inteiro no Bar do Blues, se pela idade (a minha) ou se devido ao fato de já ter assistido a uma penca de shows da Dead Fish em todas as fases da banda (sim, sou fã incondicional). O fato é que saí do Bar do Blues convencido que havia presenciado um show fraco. As conclusões acima só vieram depois de umas horas de sono e algumas cervejas. Óbvio que pra alguém que, como disse, acompanha a banda desde seu começo, assistir a micareteiros (esse termo existe???), patricinhas e playboys bombados pulando feito macacos (certamente macacos teriam mais noção das coisas) e tentando cantar letras tão emblemáticas e importantes para a história do underground nacional soa estranho, entristece. É como se a coisa estivesse perdendo o valor, de alguma forma (acho que já falei disso por aqui...); indo pelo ralo mesmo. Enfim, de alguma forma devo estar realmente velho (mesmo ainda não tendo chegado aos trinta). Talvez esteja velho demais para aturar o quão baixo chegou o nível do público underground hoje em dia. Talvez esteja velho demais para aturar certas coisas, tipo a japa gostosa da Globo fingindo interesse por nosso combalido underground ou os candidatos a ‘personalidade da cena (qual?) 2007’ tentando aparecer na frente das lentes do Multishow. Talvez esteja velho, inclusive, para um show de hardcore... Talvez tenha a ver com essa coisa de estar chegando perto dos trinta, assim como o tal do hardcore... E talvez ele também esteja cansado...

por Rafael A. / foto: Rodolfo Caravana

Um comentário:

Gisele disse...

Bobó, vc foi B-R-I-L-H-A-N-T-E! Definiu com uma genialidade ímpar os "candidatos a personalidade da cena"! hahahahahaha. beijão. gika.

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