segunda-feira, 5 de novembro de 2007

A Monumental (Des)Construção do Rock


Não duvidem, um dos passatempos prediletos deste que vos escreve é tecer comentários acerca da capacidade, quase irritante, que algumas bandas tem de dar nós em nossas cabeças. Mesmo que este humilde fanzineiro insista (às vezes em vão) em tentar ouvir música como tão somente música (no sentido de diversão ou como mecanismo na busca por um pouco de paz) e não como um emaranhado de melodias, harmonias, arranjos, notas e combinações que só fazem sentido em sua mente viciada no ofício de músico (que exerce pateticamente, diga-se de passagem), há sempre algo acontecendo na cabeça quando se coloca determinado disquinho pra rodar. Óbvio que este ‘algo’ atormenta apenas os viciados, compulsivos e paranóicos por música. Aqueles loucos que ainda compram CDs, que não se contentam com CD-Rs, muito menos com sites de download e outros mecanismos que, no fim das contas, acabam por afastar o amante de música da mesma. Tentando voltar ao assunto (mesmo não tendo saído dele até aqui): Uma coluna do mestre Arthur Dapieve, em uma edição de um sábado qualquer do jornal O Globo, fazia uma espécie de reflexão acerca dos anos terminados em 7 e seus álbuns clássicos. Tipo, em 1967 os Beatles lançavam o maravilhoso Sgt. Peppers Lonely Heart Club Band. Já em 1977 os Sex Pistols riscavam o fósforo do Punk Rock com Never Mind the Bullocks. Enfim, em 1997 Dapieve citou (e nem poderia ser diferente) o marco maior do Rock de nossa geração (de quem pegou os anos noventa acontecendo ao mesmo tempo que a tal da adolescência, ou o final dela). Pois é, pra fãs de Rock não surpreende ver OK Computer, dos ingleses da Radiohead na lista de maiores discos de Rock de todo o sempre. Não deu pra resistir e, sem pestanejar, este que vos escreve decidiu que sua tarde de sábado seria ao som da obra prima de Tom York e seus asseclas.

Mas não se desespere, você que adora o OK Computer e torce o nariz para os outros trabalhos da banda que conseguiu dar um nó na cabeça de 11 entre 10 críticos musicais ao redor do mundo! Não vou passar perto dos outros trabalhos da banda. Não vou lembrar que os dois primeiros, a saber Pablo Honey e The Bends, são fundamentais para a gestação de OK Computer. Nem que Pablo Honey, com a desesperadora Creep, apresentou a Radiohead com suas três guitarras ao mundo. Inclusive a você, que nesta época possivelmente grudava a fuça na frente da TV e assistia MTV quantas horas seguidas conseguisse (inclusive de madrugada, quando passavam as bandas mais legais) na tentativa de gravar o clipe da música. Também não vou perder tempo lembrando que enquanto as bandas inglesas (pode colocar Oasis e Blur na lista) se esforçavam pra salvar o Rock à base de britpop os caras da Radiohead lançavam, sem cerimônia, The Bends, um marco na historio do Rock Alternativo que, de quebra, brindava o mais boçal ouvinte de rádio FM com Fake Plastic Tree, a bela e angustiada (e angustiante) canção do clipe gravado no supermercado (que você já deve ter visto na mesma MTV, ou ouvido em alguma madrugada, bêbado, numa rádio qualquer). Ok, estou falando dos outros discos. Mas é preciso. Do mesmo jeito que é preciso citar Kid A e Amnesiac, a conseqüência natural de um disco como OK Computer. Afinal de contas, o que se faz depois de lançar um disco que beira a perfeição? Óbvio: Lança-se um disco (ou dois) completamente estranho e faz todo mundo achar que não entendeu a piada! Mas o assunto aqui é OK Computer, certo?

Então, acho que nem precisa citar que a introdução de Airbag, com aquele riff completamente maluco que parece dizer ‘Presta atenção, você está entrando no nosso mundo’ e a bateria com som ‘mecanizado’ fazendo qualquer um parar e se perguntar como alguém burla as fronteiras do Rock convencional e aparece com uma maluquice que beira o experimental. E de onde se tira uma melodia daquelas? E o baixo, nas ‘paradinhas’, que mais parece saído de um disco de dub? Aliás, sabe quando você vai a um show que você quer ver faz muito tempo e a banda toca os clássico logo na primeira metade do show? Tem que ser macho demais pra fazer isso, certo? Tom York e Cia. foram machos o bastante pra, logo na segunda faixa, espancar o ouvinte com a pérola Paranoid Android. Imagina o sujeito que não tem o menor constrangimento em jogar na cara de quem quer que seja um verso do naipe de “When I be king you will be the first agaist the wall”. Tem que ser muito ‘nerd da turma que senta na última carteira e ninguém tem coragem de chamar enquanto estiver com a cara enfiada no caderno’. E nerds são inteligentes, certo? Pois é, os caras da Radiohead devem ter sido muito nerds mesmo. Senão vejamos: A citada Paranoid Android, como se não bastasse, além de letra inspirada e arranjo maluco tem uma penca de partes que, juntas, formam uma espécie de opereta. O trecho que diz “Rain down... Come on rain down on me…” pega qualquer um de surpresa, não faria sentido algum se não estivéssemos falando de uma banda num nível de inspiração que desfia qualquer teoria ou mesmo esse texto idiota. Neste caso, não dá pra não citar as influências de Rock Progressivo que os caras carregam. O ar futurista toma conta do álbum desde o primeiro, e citado, riff na primeira canção. Mas a coisa fica latente mesmo com Subterranean Homesick Alien. Soturna e linda. Pra mim, aqui se encerra a primeira parte de OK Computer.

Poderia ser uma das baladas absurdamente lindas de Roger Waters em seu The Wall com o Pink Floyd, mas não. É Exit Music (for a film), capaz de fazer parar uma micareta. Daí entra a desesperadora Let Down. Embora letra trate do contrário, a melodia parece querer servir de trilha sonora para o despertar de algo, ou alguém. E ainda tem os dedilhados beirando o absurdo e refrão lindo! Sem contar a interpretação magistral de Tom York que te faz entrar, mesmo que à força, no mundo criado por ele para suas canções. Até aqui, todos os caras da banda já mereciam prêmios de melhores instrumentistas do ano, cada um em sua respectiva categoria. Isso sem dúvida alguma! Só que aí os caras resolvem abusar. Com direito a clipe sinistro e tudo, entra Karma Police. Sabe a alternância entre (quase) silêncio e explosão que o Nirvana usava tão bem? Então, os caras da Radiohead conseguem fazer isso só que de um jeito diferente. A riqueza de detalhes em sua música é tamanha que é possível mudar completamente de clima em uma canção arrastada como Karma Police com uma sutileza fora do comum!

Ao menos na visão deste que vos escreve Fitter Happier (quase escondida na contra capa) dá as boas vindas ao ouvinte à última parte do álbum. Ou fecha a segunda parte, como queiram. É inegável o clima de mudança que toma conta de tudo assim que a narrativa começa e se segue com o piano digno de trilha sonora de ‘filme triste’. Electioneering surge não por acaso logo em seguida dando nova vida ao álbum que, parecia ir chegando ao seu final. Aqui é clara demais a vontade dos caras de fazer o tal britpop, ou simplesmente Rock inglês, dependendo da década, não faz diferença. É como se fosse o jeito deles de dizer ‘também somos ingleses e gostamos de Rock inglês, só que preferimos fazer de um jeito diferente’. Aliás, se eles não tiraram aquela passagem de algum disco de progressivo eu não sei de mais nada (tá, não sei de forma alguma, enfim)! Climbing the Walls aparece num tom tão alto que é quase um exercício de paciência conseguir não ficar esperando o cara não desafinar. Sem contar as guitarras dessa música que são tão discretas quanto geniais. Dão o clima sem interferir na interpretação, mais uma vez, magistral de Tom York. O que se falar a respeito de No Surprises? A melodia repetida incessantemente no xilofone (não deve ser assim que se escreve...). E, mais uma vez, a voz inigualável do vocalista faz da que, não fosse o arranjo incrivelmente delicado, poderia ser uma música pra passar batida no álbum (tá, nenhuma delas poderia passar batida). Uma das mais belas e um dos hits, com direito a clipe e tudo! Luck e The Tourist tem cara de despedida. Como se servissem pra tirar o ouvinte do transe sem traumas futuros. Tipo: ‘Vamos deixar essas duas aqui porque acabar com No Suprises poderia soar kafkiano demais pra qualquer um’.

Os climas, e a interpretação (que eu tanto citei aqui) vocal de Tom York talvez não tivessem o mesmo impacto não fossem as belas letras. Fica clara a inadequação do indivíduo perante um mundo que não o entende e o qual ele não suporta, o cercando por todos os lados. E essa sensação de falta de ar, sufocante e angustiante está presente nas letras de York. Muita coisa ele, decerto, vai buscar em George Orwell (não à toa uma das músicas do álbum Hail to the Thief tem o nome de 2 + 2 = 5, máxima usada no clássico do autor, 1984) e Franz Kafka. Ambos exploram muito bem a questão do indivíduo perante a sociedade e suas regras, costumes e tradições. E isso York faz com maestria. Aliás, por falar em letras e essa coisa toda, não seria errado se enxergássemos as músicas de OK Computer como uma série de situações envolvendo um mesmo personagem. Às vezes, dando uma olhada nas letras no encarte tenho essa impressão. E já que o álbum segue a tradição dos discos de progressivo, onde a coisa deve ser ouvida como um todo e não como um amontoado de músicas soltas, não seria nem um pouco errado entender OK Computer como uma história com começo, meio e fim. Como todo bom disco de Rock progressivo, diga-se de passagem.

Se bem que, se o assunto é Radiohead, até prefiro não entrar em determinadas discussões. Por exemplo: minhas teorias e divagações acerca do álbum e do trabalho da banda, com toda certeza, já foram jogadas descarga abaixo por algum fanático pela banda em algum lugar do planeta. Até porque as teorias acerca, não só de OK Computer, mas de todos os discos da banda são muitas. Tem gente que jura de pé junto que usando uma combinação maluca feita entre os números que aparecem soltos ao longo do encarte, chega-se a um número de telefone. Quem conseguiu achar o tal número e, na falta de algo melhor pra fazer, telefonou para o mesmo afirma ter ouvido uma mensagem na voz do próprio Tom York. Enfim. Vai saber, né? Saindo um pouco do OK Computer, tem gente que jura que da mesma forma que The Dark Side of the Moon do Pink Floyd foi composto para ser trilha da filme O Mágico de Oz e se encaixa perfeitamente no mesmo, seu sucessor, Kid A, guarda a mesma relação com o filme A Bruxa de Blair. Mas é claro que os caras da banda curtem essas historinhas. Senão, não recheariam o encarte do OK Computer com números em série, palavras rascunhadas e uma série de símbolos que só aumentam a curiosidade dos fãs e fazem do álbum um trabalho ainda mais saboroso.

E esse ano OK Computer completa dez anos de seu lançamento. Um disco capaz de deixar o mais carrancudo fã de progressivo de queixo caído. O álbum que coroa o final dos anos noventa com uma obra-prima capaz de figurar entre os mais importantes discos de Rock de todos os tempos. A grande sacada da banda que desmontou o quebra-cabeças do Rock, embaralhou as peças e montou de novo do jeito que bem quis. Equivocadamente (ao meu ver) comparado (ou tratado como se tivesse algo a ver) a álbuns de fusion ou qualquer outro gênero que tenha a ver com jazz, o disco traz sim influências de música erudita e dissonâncias capazes de confundir ouvidos não iniciados. Porém, não acredito que essas referências tenham vindo de outro lugar senão dos primórdios do Rock Progressivo e da Psicodelia. E vale deixar claro que os caras jamais conseguiram (e não acho que venham a conseguir) repetir o feito. Como disse no começo, não consigo ver todo esse estardalhaço que se fazem aos discos que vieram em seguida na carreira da banda: O apenas bom Kid A e o repetitivo Amnesiac (que nada mais é do que uma coletânea de sobras das gravações de Kid A) que, sim, são difíceis de se digerir, mas não chegam nem perto do deleite que é ouvir, analisar e estudar esta obra prima chamada OK Computer. No final das contas, tenho um bom motivo pra me orgulhar: Minha adolescência tem um grande álbum de Rock do qual se orgulhar.

por Rafael A.

Um comentário:

Ive Môco disse...

hoje eu estava comentando com um colega meu a respeito do novo In Rainbows. ele me disse que várias pessoas daqui reclamaram do álbum pra ele, eu adorei. aliás, acho que vou contra a corrente ao 'preferir' (entre aspas porque realmente adoro os outros cds também) o lado mais experimental do radiohead. vejo bastante gente reclamar do fato de radiohead ter ultrapassado a fronteira de guitar band apenas. ah, eles podem ser o que quiserem que vai continuar excelente!

xilofone se escreve assim mesmo rs. é, meu deuvontade de ouvir o ok computer agora.

eu me pergunto qual será o 'disco de rock' dessa geração que é adolescente em 2007...

abraço!

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