segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Pânico em SP! – O underground é a bola da vez?

Antes de qualquer coisa, este que vos escreve não atende por ne

Antes de qualquer coisa, este que vos escreve não atende por nenhum tipo de classificação. Punk, hardcore, headbanger ou qualquer coisa do tipo, ok? Porém, já está envolvido com o meio underground/independente tempo suficiente para se considerar apto a opinar, ou mesmo tecer comentários acerca dos últimos acontecimentos que tanta discussão vem causando no nosso querido meio underground. Faz um tempinho, estava no bar assistindo um telejornal que, óbvio, não me lembro qual era e dei de cara com uma matéria dando conta da morte de um rapaz que teria sido provocada por jovens ‘punks’. De cara fiquei interessado na tal matéria e, ao mesmo tempo, surpreso, com algo que, dentro do que entendo por ‘punk’, considerei um absurdo sem precisar refletir muito. A reportagem terminava com a imagem dos indivíduos (melhor não chamar de punks, certo?) na delegacia, algemados. Um deles, que na verdade era ela, trajava uma jaqueta de couro com direito a patch anarco e tudo! Em seguida vinha o desfecho com a seguinte informação: “Esse já é o nono (ou algo perto disso) crime em São Paulo envolvendo gangues de punks e skinheads.” Pensei: “Lá vai a tal da imprensa embolar o meio de campo de novo...”

Se não fosse uma outra infelicidade, também em São Paulo, provavelmente teria deixado o assunto passar batido. O lance é que, semanas depois surge outra matéria dando conta de outra morte provocada por gangues de ‘punks’. Puxando pela memória lembrei que meses atrás havia assistido, em outro telejornal que também não lembro qual era, a uma matéria sobre um jovem com ‘vestimentas punks’ que havia sido esfaqueado (ou algo do tipo) por ‘jovens envolvidos com grupos neonazistas’, desta vez em Porto Alegre após um jogo do Grêmio. Em nenhum dos casos tive vontade de entrar em contato com nenhum conhecido ou contato em São Paulo ou Porto Alegre que pudesse me dar informações mais aprofundadas por estar na cidade onde determinado fato havia ocorrido. Apesar de ter me lembrado de uma série de episódios bem parecidos. Deixei pra lá, simplesmente.

Errado ou não em minha decisão só tive vontade de escrever sobre o assunto, vejam só, após assistir ao tal MTV Debate que tratou do assunto. O programa da emissora paulista colocou na mesa de discussão Redson (vocalista da banda Cólera), Clemente (Inocentes e Plebe Rude), Marcão do Hangar 110, o irmão de um dos jovens assassinados (o nome disso é esse mesmo) e mais aquelas pessoas que ninguém conhece e que quase nunca tem muito a dizer sobre nada e que estão em todos os debates (tirando um cara que se apresentava como anarcopunk, e que eu realmente nunca ouvi falar, que parecia estar mais preocupado em defender a classe que debater). Todos, inclusive, capitaneados pelo excelente compositor e profundo desconhecedor de punk Lobão (vai saber o que ele estava fazendo ali...). Por incrível que pareça, o programa da MTV, além de trazer à tona meu desejo de escrever sobre o assunto e me lembrar que, como apresentador, Lobão é um ótimo músico, esclareceu muita coisa. Embora não tenham citado o caso de Porto Alegre, ficou claro que os três acontecimentos não têm absolutamente nada haver um com o outro.

Em primeiro lugar, o rapaz assassinado pela tal gangue de ‘punks’ (denominada Vício Punk, se bem me lembro) segundo o próprio irmão era skinhead. E isso não foi noticiado (ao menos que eu me lembre). Óbvio, não justifica um absurdo dessa natureza. Até aí, já não tem nada a ver com o outro caso ocorrido em São Paulo (o primeiro que citei), onde um rapaz foi morto por não vender um pedaço de pizza que custava R$1 por R$0,60 para os tais ‘punks’.

Já em Porto Alegre a coisa foi, assim como com do irmão do cara na MTV, rixa entre punks e skins pura e simples. Ok, rixa, ideologia, crença ou coisa alguma justifica tamanha boçalidade. Mas vamos, mais uma vez, separar ‘os burro dos iguinorante’. Definitivamente, são situações diferentes. Mas com alguma coisa em comum, certo? Alguém me convença que telejornal algum que seja tem embasamento para tratar de assuntos ligados ao meio underground. Não tem. Pra mídia é simples: Basta falar do crime terrível, da barbaridade, falar do site de relacionamento onde as ‘gangues’ trocavam farpas, chamar um psicólogo pra explicar tudo e pronto! O que a mídia não sabe é que, faz mais de vinte anos que essas rixas existem. E mais: No underground isso acontece freqüentemente. Em qualquer lugar, em qualquer parte do país. É claro que quando a coisa chega a um ponto desses, a coisa extrapola os limites da compreensão.

Não serei eu a apresentar ao mundo a nova definição de ‘punk’ ou ‘skinhead’. Mas, ao meu ver, é burrice querer colocar tanto um quanto outro, cada um num canto, e dizer: Esse é bom e aquele é mau. Acontece que desde que o punk ultrapassou as barreiras dos alfinetes na cara de Sid Vicious e assumiu uma postura de enfrentamento perante a sociedade, mais politizada que o simples prazer de chocar dos Pistols (mais de seu empresário Malcom McLaren, verdade seja dita), que diversas variantes cresceram dentro do meio. Muitas delas, é verdade, pacíficas. Porém nem todas. Tratar o meio punk como uma coisa só a essa altura do campeonato é burrice. Abrir a boca pra dizer: “Punk é assim! Punk é desse jeito!” é uma estupidez quase tão grande quanto tirar a vida de alguém. Tipo, é possível alguém em sã consciência tomar pra si as rédeas de algo tão grande e tão conflitante dentro de si próprio? Obviamente, temos de achar um jeito de nos referirmos ao punk e o jeito mais simplificado é tratá-lo como Movimento Punk. Ok, até aí vai. Só que não dá pra sair por aí exaltando o quão pacífico e bem intencionado é o movimento Punk se dentro dele existem facções que não rezam pela mesma cartilha.

Da mesma forma que é errado atribuir a bandeira do neonazismo a qualquer um de cabeça raspada e suspensórios por aí. Qualquer um que se interesse por estudar esses Movimentos vai ver que existem facções dentro do universo skinhead que não tem absolutamente nada haver com nazismo. Veja bem, não estou defendendo nenhum dos lados. A idéia aqui é, partindo da visão da mídia de massa sobre esses acontecimentos, tentar refletir sobre como isso mexe com o meio underground. Skinhead pode significar uma penca de coisas. Podem lutar por diversas causas, ou nenhuma. E no Movimento punk funciona da mesma forma. Em qualquer meio pode haver pessoas perdidas. Capazes de montar determinado visual pra se sentirem melhor com elas mesmas, ou como parte de algo. O problema é que são essas que quase sempre fazem cagada e atraem a atenção dos holofotes da grande mídia.

De volta ao Debate MTV: Havia, da parte de todos ali, uma insistência em não associar o termo ‘gangue’ ao termo ‘punk’. ‘Gangue’ só era usado quando se referiam ao movimento skinhead. Porém, se olharmos ambas as partes veremos que, historicamente, os dois lados sempre se organizaram como gangues. É fato. Só que, no que diz respeito ao punk, com o passar do tempo (e só com o passar do tempo mesmo) o movimento foi tomando uma postura mais politizada com uma cara de movimento mesmo, como já foi dito aqui. Vai ter gente dando cambalhota de raiva, mas vamos lá: Dentro do que coloquei acerca do Movimento punk, se traçarmos um paralelo com os Skinheads, veremos que, historicamente, eles saem na frente no quesito politização. É verdade, a raiz do movimento skinhead soa mais politizada que a do punk. Independente de quem defenda o quê. A questão da segregação racial, conflitos étnicos, e a presença (ou não) de uma postura nazista já existia desde o surgimento dos primeiros skins. Fruto de questões históricas que vem desde seus antepassados. Assim como os punks, os skins surgiram como filhos da classe operária e vitimas do desemprego que assolava não só Londres, onde surgiram os punks (versão inglesa, ok?), mas diversos países da Europa. Da mesma forma os punks, filhos da mesma classe operária já nasceram vitimados por um mundo capitalista. A diferença é que enquanto os punks se mostravam dispostos a lutar por uma sociedade mais justa por meio do anarquismo e, em alguns casos, flertando com partidos de esquerda e interessados na luta da classe operária (de onde suas famílias saíram), os skinheads apontavam para a extrema direita. De alguma forma, queriam seus países só para eles. Acreditavam que a vinda de imigrantes com sua mão de obra barata acabavam com suas chances de conseguir um emprego.

A partir daí não é difícil imaginar o choque dessas duas vertentes tão distintas: De um lado punks defendendo o internacionalismo, anarquia ou o que o valha e skinheads avessos a tudo isso. Não podia dar em boa coisa, certo? Ok, a explicação aí em cima é bastante porca e, historicamente, deixa muito a desejar. Mas, de volta a nosso assunto, imagina tudo isso que, na década de setenta, em Londres, já causava tumulto, no Brasil. Pior: Num Brasil recém saído de uma ditadura militar. Se analisarmos friamente, ambas as facções aqui tem razões para existir num país como o nosso. E o contrário também! Sério mesmo. Um punk no Brasil tem mais motivos pra ser punk que um punk em muitas partes do mundo. Não custa lembrar que Sid Vicious & Cia. podiam se dar ao luxo de vadiar porque o seguro desemprego no país deles bancava esse tipo de ‘cidadão’. Aqui a coisa funcionava diferente. Só que pra cada ação há uma reação. Se surgiram punks, não tardariam a surgir skins. O erro foi ter encarado a coisa a ferro e fogo. Até porque não estamos em Londres.

Sem querer sair muito (???) do assunto inicial, também não custa frisar que em diversos cantos do mundo punks e skins convivem sem precisar sair por aí se matando na primeira esquina. É possível encontrar distros. européias que trabalham tanto com materiais skins quanto punks. Da mesma forma não é difícil assistir a vídeos de bandas punks se apresentando para platéias misturadas. Tipo skins curtindo sons punks e vice-versa. Isso quando não damos de cara com bandas ou facções que misturam a coisa toda. Senão, vejamos o caso do Streetpunk: Punks que curtem a cultura Oi! e nem por isso abandonam o visual e determinados ideais punks. Se consultarmos livros sobre o movimento punk no Brasil não é raro vermos punks com suas jaquetas decoradas com suásticas. É bem verdade que eram usadas somente para chocar. Mas, seja como for, não deixa de ser uma prova de que a coisa chegou por aqui completamente distorcida. E com o passar do tempo piorou. Para cada nova facção, tanto punk quanto skin, que surgiu ao longo do tempo tem-se a impressão que tudo vai se misturando, se confundindo, se banalizando ou simplesmente modificando. Enfim. Veja só quantas voltas eu acabei dando apenas com uma simples reflexão acerca dos fatos. Agora imagina isso na cabeça de alguém sem nenhuma intimidade com o meio underground. Pior ainda: Imagina isso para alguém que simplesmente acordou, entrou em um site qualquer e decidiu usar um determinado visual e defender essa ou aquela causa? Só pode dar problema! Insisto que não estou aqui para defender esse ou aquele lado. Não concordo com um monte de coisas que ouço por aí de todo tipo de gente. Mas ainda tenho muitas questões pra resolver na minha cabeça antes de sair por aí atirando pedra nos outros. Porém, de uma coisa tenho certeza: Viver sem uma causa pra defender deve ser uma coisa terrível pra qualquer indivíduo que seja. Agora, não ter a noção de separar ideologia de respeito à vida alheia é, sem dúvida, coisa de boçal.

E pra tentar terminar dentro assunto com o qual comecei (isso quase sempre acontece...): A mídia de massa não tem embasamento para tratar de assuntos ligados ao meio underground. Só o fato de serem jornalistas formados já me assusta. Boa parte deles se julga conhecedora de música independente e ‘cultura jovem’ como os próprios costumam dizer. Mas no fundo, nunca tiveram envolvimento real com a coisa. É fácil ler livros, consultar sites e pedir ajuda pra amiguinhos no msn. Mas na prática a coisa é bem diferente. E nenhum dos que, quase sempre, são escalados para tecer esse tipo de comentários tem o mínimo de vivência no meio underground. Em outras ocasiões, matérias em jornais e programas de TV minaram as forças do movimento punk em São Paulo porque mostraram a coisa de forma equivocada e tendenciosa. O que me incomoda, no final das contas, é ter certeza absoluta que quando uma rede de TV trata de notícias como essas mortes em que as tais ‘tribos urbanas (odeio esse termo, não sou índio)’ estão envolvidas dá-se muito mais ênfase à roupa ou denominação dos envolvidos do que ao fato em si. Um crime deve ser tratado como um crime, independentemente de que tipo de pessoa tenha tomado parte do mesmo. Ver o termo punk, ou skinhead citado em rede nacional não é bom pra nenhuma das partes envolvidas. Muito menos para o meio underground como um todo.

Já que sabemos que qualquer um pode se fantasiar de punk ou careca e sair por aí fazendo besteira em nome de um ‘movimento’ que, em muitas ocasiões, prega ou defende coisas que só existem na cabeça do infeliz imagina quantos retardados desse tipo surgem cada vez que o meio underground (que só pode ser compreendido por quem está nele) é exposto dessa forma na mídia de massa. Por outro lado, tem vezes que é bom esse tipo de coisa acontecer e ser mostrada pra todo mundo. Talvez assim algumas criaturas enclausuradas em seus mundinhos intocáveis entendam que, por mais que se viva ou se trabalhe por algo em determinado meio, existe o mundo ao nosso redor. Punks, skinheads, headbagers, góticos, enfim. Não se pode esquecer que para a maioria esmagadora da população esses termos soam tão familiares quanto uma conversa em javanês de trás pra frente! Já que estamos lutando por algo que, na nossa maneira de ver, vá tornar o mundo um lugar melhor, é interessante avisar ao resto do mundo, não é mesmo? Já pensou que sua luta, suas músicas e seu visual podem não fazer o menor sentido pro porteiro de seu prédio? Imagina essa jaqueta cheia de patches e esse moicano passando na frente do servente de sua escola... Agora imagina um pai de família vendo três idiotas de visual punk algemados por tirar a vida de um trabalhador. Daí ele desliga a TV, olha pro lado e vê o filho saindo de casa com o mesmo visual dos bandidos (é assim que se chama mesmo) que ele viu na TV. E aí?

Eu mesmo já cometi esse erro várias vezes. Me perguntava o porque de levar meu fanzine (que nunca foi um zine punk, por mais estranho que isso possa soar pra alguns...) para eventos que não tivessem nada a ver com hardcore, punk Rock ou com underground de uma forma geral. Mas é pra esses públicos que nosso trabalho deveria chegar. Do que adianta panfletar um show de hardcore extremo só para o público de som extremo? Divulgar shows punks só em comunidades punks do Orkut? Com que propósito? Essas pessoas, teoricamente, já sabem do que se trata (e conhecem os caminhos para chegar até seu trabalho). Estou colocando isso por um motivo: Esse tipo de postura é um sintoma de que nós que trabalhamos com o meio underground erramos em algum lugar. Pela quantidade de fanzines, selos, bandas, eventos e gente atuando no meio underground em nosso país já deveríamos estar acostumados (ou pelo menos preparados) para acontecimentos como esses. É claro que um sujeito que se dispõe a tirar a vida de alguém por um pedaço de pizza nunca teve contato com o meio underground pra valer. E se teve, não entendeu coisa alguma. Da mesma forma que se uma ‘gangue punk’ assassinou um skinhead não quer dizer (mesmo) que se fosse ao contrário, ou seja, um punk cruzando com uma ‘gangue skinhead’ na área deles, não fosse acontecer o mesmo. Louco tem em qualquer lugar (tem, inclusive, um escrevendo esse troço agora, às cinco da manhã). Só que quem conhece o meio underground está cansado de saber que mortes não colaboram em nada pra luta de ninguém.

Agora sim, vou encerrar! Nada do que ouvi até agora sobre toda essa coisa, ao meu ver, tratou a parada da forma devida. A vida dessas pessoas não vai voltar. Infelizmente. Resta tentar consertar a coisa, ou o que for possível consertar nisso tudo. Se punks ou skinheads são tratados pela mídia de massa como micareteiros brigões a culpa é, única e exclusiva, de quem trabalha no meio underground. Não soubemos nos colocar diante do mundo que nos cerca. Não fomos capazes de nos fazermos ouvir. Não somos levados a sério porque não nos levamos a sério. Nos trancamos em nossos mundinhos de refrões que dizem o que queremos ouvir e deixamos qualquer idiota usar códigos com os quais nos identificamos pra fazer besteira pra todo mundo ver. Escrevemos pra nós mesmos. Tentamos nos convencer todos os dias de que estamos certos em nossas opiniões. Só que não suportamos a idéia de termos nossos valores postos à prova. O telejornal não vai noticiar um festival bem sucedido, as atividades culturais que rolam dentro de um squat, o estímulo à leitura que os fanzines dão aos mais jovens, ong’s bem sucedidas, o contato com a musicalidade existente em cada um que o underground proporciona. Nem a importância disso tudo. Se o próprio underground não se reinventar e criar mecanismos mais eficazes de divulgação e formas de difundir o que é feito aqui ninguém vai fazer isso por nós. Pra ser notícia desse jeito, melhor continuar acorrentado a nossos próprios traumas. E mais uma vez: não estou me colocando do lado de ninguém aqui. Entendam isso como um desabafo, ou uma reflexão de alguém que acredita no inestimável valor da música e da arte independente, no valor de tudo que surge e circula longe dos holofotes. O que se faz no underground tem valor. Mas se ninguém lá fora souber disso, já era.

por Rafael A.

2 comentários:

Robson disse...

Fala Bobó! Legal o artigo! Bom saber que vc continua fazendo o zine em versão online. O formato blog permite maiores atualizações e, consequentemente, menores apurrinhações, não é mesmo?

Abração!!!

Rodolfo disse...

Mas a versão em papel continua também!

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