quinta-feira, 31 de março de 2011

Variações de Um Mesmo Tema, as Mentiras da Arte e o Último Poema

É engraçado como a música dá voltas e prega peças na gente. Ok, não necessáriamente a música, mas o meio (ou o convívio) musical, por assim dizer. Muitos sons e sensações que julgamos terem ficado pra tras, guardados com carinho em nossa memória musical, ou numa caixa recheada de poeira, traças e fitas k7. Vez ou outra tomamos coragem e desenterramos uma ou outra coisa, não para matar as saudades dequeles sons ou daquela época, só pra ter certeza de que eles ainda estão lá. Sem fazer barulho, só servindo de consolo pra uma ou outra ocasião (tipo quando tomamos coregem e nos aventuramos em um ou outro show abarrotado de novas bandas e pessoas estranhas). Tô parecendo velho de novo, né? Vou tentar ser mais otimista daqui pra frente. Prometo. O caso é que, de vez em quando, tropeçamos em algumas coisas que nos fazem lembrar não só das músicas, mas das sensações que deixamos pra traz faz muito tempo. Na verdade, essas tais sensações sempre estiveram lá, em algum lugar, bem quietinhas dentro da gente esperando o momento adequado pra se manifestarem. Estou falando daqueles momentos em que a música, as canções, enfim, a arte é bem cuidada, tratada com respeito, carinho e sinceridade. Talvez só faça sentido pra mim, ou, pra quem assim como eu escolheu viver e se dedicar ao meio musical, seja em que circunstância, nível ou aspecto for. Ok, deve fazer sentido pra muito mais gente... vamos em frente; Uma das últimas vezes que tive a sensação que tentei descrever acima aconteceu não faz muito tempo. Há cerca de duas semanas, fui conferir o ensaio da banda Trincaz. Um projeto há muito deixado de lado por seus integrantes que, fazem alguns meses começou a dar mostras de que queria voltar a respirar. Explico: A banda surgiu após o fim da saudosa Geração Urbana. Com o passar do tempo, seus integrantes foram se envolvendo em outros projetos e, aos poucos, a banda foi sendo deixada de lado. Certa vez, em conversa com Tuca Marques (artista aqui da Latitude Zero Prod.), vocalista tanto da Geração Urbana quanto da Trincaz e agora em carreira solo, manifestou o desejo de voltar com o projeto da banda Trincaz. Semanas depois lá estava eu, conferirndo um ensaio da banda no estúdio/casa/bar privativo (rsrsrs) do batera Paulinho Lombardy. A formação era a seguinte: Tuca Marques (voz e guitarra), Abraão Leite (Xande McLeite e Panela do Raul) e o citado Paulinho na batera. A princípio, não era pra este que vos escreve ter se surpreendido; já que uma parte do repertório da banda nada mais é que um apanhado da obra de Tuca Marques. E sendo eu, da equipe de produção do cara, nada mais óbvio que conhecer as canções de tras pra frente e vice-versa. O lance é que, em um dado momento, os caras começaram uma sequência que arrepiaria qualquer criatura que se diz fã de RocknRoll nesse ou em qualquer outro planeta. Versões acachapantes de “Rainbow Demon” (Uriah Heep) e “Pride an Joy” (Stevie Ray Vaughan) eram só o começo de uma viajem que começou nos anos setenta e foi parar direto nos ‘arquivos peredidos’ do BRock 80. Veio “Armadilhas”, canção de uma das bandas fundamentais do Rock nacional (e por mais absurdo que possa parecer, uma das menos lembradas), Finis Africae!!! O que dizer? Como reagir? Enfim, só apreciei e curti o verdadeiro alívio que foi sentir que mais alguém compartilha das mesmas lembranças que você. Embora tenha, pelo menos, uns dez anos a menos que aqueles caras ali tocando, de alguma forma compartilho das mesmas lembranças (fruto de incurssões quase que paranóicas a sebos nos anos 90 e pesquisas noturnas na tal da internet de uns tempos pra cá)! Certo, devo ter nascido na época errada... Eles não pararam por aí; Ainda teve espaço pra Celso Blues Boy, Barão Vermelho, Legião e mais uma penca de coisas bacanas. O mais legal disso tudo? Vi com meus próprios olhos a música sendo bem tratada, conservada, cuidada, reciclada. Algumas coisas, talvez por sua importância, insistem em ficar esquecidas. Óbvio, melhor que ficar ‘dando bobeira’ por aí e correr o risco de cair nas mãos de qualquer idiota aproveitador. Enfim, é outra discussão. De volta ao ensaio da Trincaz: Um lance interessante é que essa galera da Trincaz, apesar de já terem todos um estrada cosiderável na música e no meio roqueiro, conseguiu se manter alheia a boa parte dos modismos e tendências surgidas no underground nos últimos quinze anos. Sorte deles, já que conservam características que há muito se perderam entre as toneladas de bandas que teimam em aparecer e sumir (em alguns casos, ainda bem que somem) do cenário musical. A coisa mais importante que noto nessa galera e em sua geração é o fato de a música e a relação deles com a mesma virem sempre em primeiro lugar. Sendo assim, detalhes superficiais que pra muitos é tudo, pra eles ficam em segundo plano. Que bom.

Enfim, acho que era isso que queria compartilhar com vocês. Na verdade, não foi só essa tarde de sábado com o pessoal da Trincaz que motivou esse artigo. Um papo com nossa mais nova-velha colaboradora, Andiara Dee Dee (ela estava na versão impressa do Consciente Coletivo Zine e agora passa a dar as caras com sua coluna, Ansiolítico Inquieto, aqui no FMZ_ONLINE, dia desses também me trouxe essa sensação de que é bom compartilhar sensações em comun. Dar valor ao que quase ninguém mais dá. Enfim, a coluna da Dee Dee estréia em breve, a banda Trincaz faz show com Tuca Marques no próximo domingo (03/04) aqui mesmo em Niterói e a vida segue.

E que fique claro que (acreditem ou não) este artigo não foi motivado pelo fato de Tuca Marques e Trincaz serem ‘da casa’. Até que me provem o contrário (e ainda não conseguiram) separo bem o trabalho de produção da Latitude Zero Prod. dos artigos, resenhas e coisas que escrevo. Tanto é que, simplesmente, odeio resenhar shows ou lançmentos que envolvam artistas nossos. Enfim, acredite quem quiser. Aliás, o título do artigo não deve fazer muito sentido, eu sei. Comecei a escrever isso ao som de Engenheiros do Hawaii e termino com Pulley e NOFX esteremecendo as janelas daqui de casa; é, não é pra fezer muito sentido mesmo... Nos vemos em algum bar, show, hospício ou similar, ok?

Rafael A.

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