segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Capítulo de Hoje: La Donna è Móbile, ou Der Hölle Rache kocht in der Vogelfänger Herzen...

Periódico Esporádico

Essa matéria foi originalmente escrita em 2009 pra ser lançada no Feira Moderna Zine impresso. Como não saiu, resolvi colocar aqui. Decidi, ao invés de reescrever o artigo, colocá-lo aqui na íntegra, como foi escrito.

Olá galera. Mais um número do zine, mais uma coluna minha (será que alguém lembra – ou se importa – com a minha coluna sobre RPG? E, não, senhor editor, não volto com ela tão cedo). No Periódico Esporádico de hoje, trataremos, bem, sei lá do que trataremos. Sempre fiz umas matérias muito sisudas, eu acho, vamos tentar sem script dessa vez (ou só loucura, como os (in)conscientes do editor, hehe).

Bem, depois de quase um mês entre esse parágrafo e o aí de cima, resolvi na verdade falar da minha mais nova paixão: a Ópera! Isso mesmo, Ópera, não torça o nariz! A imagem que se faz da Ópera é de idiotas ‘refinados’, discutindo no seu grupo de degustação de vinho qual autor é mais genial que o outro. Pode até ser que isso aconteça, mas não é porque eles também escutam Ópera que ela não é legal. Esqueça seus preconceitos com quem escuta ela hoje, vamos voltar ao início de tudo.

Como eu disse, hoje não quero ser didático nem nada, só falar um pouco sobre essa diversão que pode ser a Ópera. A Ópera é como se fosse um musical, antes da Broadway (e daquela ridícula ‘street dance’, ou ‘dança de rua’... Sinceramente, se eu visse umas 50 pessoas dançando coreografadas numa rua, eu ficaria realmente assustado). Tal qual um teatro cantado, tem uma história, que pode ser contada só com música ou música intercalada com falas normais. A grande dificuldade é que a maioria das Óperas está em italiano, o que dificulta que os brasileiros entendam o que os músicos/atores dizem (como se isso tivesse impedido alguém se a música aqui fosse em inglês e o cara não soubesse do mesmo jeito... enfim...). Mas não se desesperem, também há grandes Óperas em francês e mesmo alemão (hehehe). Mozart foi um que escreveu obras geniais nessa língua estranha. Agora, em tempos de YouTube, Wikipédia, Google e afins, não achar uma letra, tradução ou coisa que o valha, em 20 segundos, é impossível. Basta, então, perder o preconceito (mas isso o caro leitor já perdeu no parágrafo anterior) e ter a vontade de escutar.

O melhor de tudo isso é que você, sim, VOCÊ, já É um ouvinte de Ópera. Sim! Talvez você não ligue o nome a pessoa, talvez você nem se dê conta, mas não tem como negar que certas passagens são, digamos, universais, e se o último hit da Kelly Key (ou o lixo que tiver na moda) pode tocar em qualquer lugar, mas (graças à Deus) um dia pára e cai no esquecimento, essas músicas estão já lá no fundo da nossa cabeça, e de lá não vão sair. Quer um exemplo? Que tal voltarmos à “Die Zauberflöte” (A Flauta Mágica), última Ópera de Mozart? A ária (simplificando, árias são quando o cantor ou cantora cantam sozinhos, geralmente explicando uma parte da história – se forem dois, é um dueto, e por aí vai) “Der Hölle Rache” você conhece. É aquela que a soprano canta (tente imaginar, caro leitor) há-há-háháháháháhá-hááá, subindo quase inumanamente até a escala F6 (ou seja, 6 escalas acima da normal!), numa das mais difíceis árias da história. Muito bonita, certo? Mas o quê significa? Isso é uma abreviação de “Der Hölle Rache kocht in meinem Herzen” (A Vingança do Inferno Ferve em Meu Coração), nome completo da ária. Tá vendo, e você achando que era algo alegre! É aterrorizante, e a letra não deve nada pra qualquer banda punk ou de thrash! É a ária em que a Rainha da Noite manda sua filha Pamina matar Sorastro (hein?), e começa assim mesmo, A Vingança do Inferno Ferve em Meu Coração! Termina, muito sinistramente, com ela amaldiçoando a filha caso ela não se torne uma assassina – “Hört, Rachegötter, hört der Mutter Schwur!” (Escutem, Deuses da Vingança, Escutem Essa Maldição Materna!)! Não percam a versão com a Diana Damrau, provavelmente a melhor soprano da atualidade!

Ou quem sabe, da mesma Ópera, as músicas do ultra-carismático Papageno (papel muito mais fácil de cantar – dizem que Mozart escreveu essa Ópera com a trupe meio circense que ele tinha em mente, então alguns papéis são fáceis, outros extremamente difíceis, mas quase todos divertidos; viu, como se fosse uma música normal de hoje em dia, de uma banda qualquer)? Quero ver quem não ri de “Der Vogelfänger bin ich ja” (O Caçador de Pássaros Eu Sou), ou se comove com sua solidão em “Ein Mädchen oder Weibchen” (Uma Garota ou Uma Esposa), ou fica alegre quando finalmente ele acha uma esposa num dos duetos finais da Ópera (“Papageno! Papagena!”). E você, com certeza, conhece todas essas músicas. Outras também:

“La donna è móbile”, da Ópera “Rigoletto”, de Puccini, além de conhecida (não só pela propaganda do sorvete Cornetto), é engraçadíssima (La donna è móbile / Qual piuma al vento, / Muta d'accento — e di pensiero. – A mulher é inconstante / Como uma pluma ao vento / Muda sua voz – e seus pensamentos). Uma das coisas engraçadas nesse trecho, é que o Duque de Mantua, que canta essa música, fala mal das mulheres, enquanto que ele é que é inconstante, um conquistador incorrigível que não pode ver uma rabo de saia (um cara odioso que só acrescenta ao trágico final – não, não vou contar, vai no YouTube e veja, hehe. Aliás, Luciano Pavarotti pé um dos melhores Duques que tem por aí! – Imperdível também com ele é “Nessum dorma”, Ninguém durma!, da Ópera “Turandot”, é outra que todos sabem, tem até versão em português, e virou meio que uma marca registrada do Pavarotti. O trecho é de um príncipe que vai casar com a princesa Turandot se ela não descobrir seu nome até o amanhecer, e ela manda os súditos todos não dormirem até encontrarem o nome dele, ou todos morrerão!). Essa ária é mais uma prova de que a Ópera é (e era muito mais antigamente) uma coisa popular, e não de uma ‘elite’ que, muitas vezes, é só pedante e não sabe apreciá-la de verdade. Ela foi guardada a sete chaves antes da estréia, porque, alguns dias depois de estrear no Scala de Milão, todo mundo já cantava a melodia nas ruas.

Ou alguma outra peça lírica por aí, como 'O Sole Mio (‘Meu Sol’, e não ‘Oh, Meu Sol’, como alguns pensam; essa música foi escrita por Giovanni Capurro, e a melodia compsta por Eduardo di Cápua, no dialeto napolitano, e não em italiano normal), também muito utilizada por aí.

E o que falar da “Habanera”, ária que todos conhecem de “Carmen”, de Bizet? “Si tu ne m'aimes pas, je t'aime: / Si je t'aime, prends garde à toi!” (Se tu não me amas, te amo / Se te amo, te cuides!), numa música que ficou associada com touradas e corridas de cavalos. E nem falei de outros como Verdi, Wagner e companhia. 

Repetindo, a Ópera tem amor, dor, angústia, comédia, sexo, violência e morte! Além de muita diversão! E não custa nada dar uma olhadela nas músicas de outrora, já que, se ninguém mais escuta os clássicos do punk, ou do rock, que dirá dos clássicos! E só pra lembrar, provavelmente, você já conhece as músicas, só falta associar os nomes às pessoas cantando.

Ah, e Sr. Editor, fico devendo a matéria sobre Polca para outra ocasião!

Rodolfo Caravana

PS: O bacana da versão online é que eu posso colocar os links pra vocês verem o que eu quis falar. :-)

Der Hölle Rache - Diana Damrau



Der Vogelfänger bin ich ja - Simon Keenlyside



Ein Mädchen oder Weibchen - Simon Keenlyside



Papageno, Papagena Dueto - Manfred Hemm / Barbara Kilduff



La Donna È Mobile (Rigoletto) - Luciano Pavarotti



Nessun Dorma, Três Tenores, 1994 - Carreras, Domingo, Pavarotti



'O Sole Mio - Andrea Bocelli



Carmen (G. Bizet) - Maria Callas




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