quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Nikity 2012: "Pra onde vai o Mundo? Pra onde é que ele vai???"


A ideia era publicar algo do tipo 'Niterói – Retrospectiva 2011 & O que vem por aí' ou qualquer coisa do tipo. Porém, a pesquisa realizada pelo Coletivo Araribóia Rock, da qual participei e a sugestão do Pedro de Luna, coordenador geral do Coletivo para que publicassemos algo sobre a pesquisa aqui no FMZ me fez pensar em algo diferente. A pesquisa e a matéria 'O que Querem as bandas do AR em 2012' publicada no site do AR virão logo a seguir, mas achei válido fazer alguns comentários sobre determinados aspectos abordados na pesquisa e outros que, embora estejam diretamente ligados, não foram lembrados pelos entrevistados. Ou não foram tratados com a atenção que, creio eu, mereceriam.


Vamos por parte, ok? O resultado da pesquisa apontou a falta de espaços para se apresentar, pouco apoio do poder público, dificuldades com relação à gravação e lançamento de álbuns entre outros aspectos como sendo obstáculos para as bandas da cidade. Sem desvalorizar a opinião da galera mais nova (ou dos mais cascudos que participaram), até porque são exatamente eles os maiores responsáveis pelo cenário alternativo de hoje em dia, algumas dessas carências me soam estranhas. Senão vejamos: Entendo que todo o processo de gravação, prensagem e distribuição de uma demo, ep ou álbum demanda um investimento considerável. Também entendo que ter material lançado é fundamental para qualquer banda que pretenda alçar voos mais altos (o que não faz a questão financeira simplesmente se resolver, óbvio). Mas se compararmos as dificuldades que artistas independentes enfrentavam para gravar e lançar material nos anos oitenta e noventa com as de hoje em dia, veremos o quão mais simples as coisas se tornaram (e isso vale para instrumentos, equipo de som para shows...). Hoje é possível se gravar um álbum praticamente sem sair de casa! Ou seja, apesar das dificuldades que ainda existem, um pouco de criatividade pode dar resultados surpreendentes!

Com relação à falta de espaços e apoio do poder público, minha opinião continua sendo exatamente a mesma: não adianta cobrar do Prefeito, Governador, Secretário disso ou daquilo. O meio underground sempre se sustentou e se reinventou sem precisar pedir esmola pra ninguém. Mesmo! Se abrirem alguma porta, a gente entra. Mas ficar batendo na porta esperando alguém vir atender, não rola. A manutenção de espaços passa pela manutenção de um público fiel. Não adianta! Não faz diferença andar pelas ruas da cidade e tropeçar em uma horda de garotos e garotas com visual descolado e camisas de Avengend Sevenfold e congêneres se não conseguirmos compreender o motivo de toda essa galera não dar as caras em shows com a frequência de antes. O 'pagar pra tocar' ou mesmo um determinado formato de evento que prevalece, principalmente em lugares como São Gonçalo é fruto, ao meu ver, única e exclusivamente de uma certa acomodação por parte das próprias bandas. Tal evento não parece ser uma boa? Não toque e organize seu próprio show, certo? Sempre funcionou assim.

Uma coisa é certa, com movimentação, determinação e muito trabalho (muito mesmo) as coisas acabam se acertando. O interesse do poder público e da iniciativa privada, o apoio de comerciantes, empresas e veículos de comunicação vem na medida que o cenário underground faz seu próprio barulho, se faz notar e toma para si o controle de seu espaço no quadro cultural da cidade. Independência demanda trabalho, esforço e dedicação. Tudo isso pode soar clichê, mas funciona assim mesmo. A partir do momento que bandas, produtores e principalmente público abraçam determinada causa as coisas acontecem (até mesmo a questão dos festivais e tudo o mais que citei na matéria). Sem o bom e velho 'vou me dar bem' ou 'quem faz sou eu', 'quem sabe sou eu' ou qualquer coisa do tipo. Quem trabalha merece ser remunerado, seja o produtor do show ou o cara lá em cima do palco, todos tem que sair ganhando de alguma forma (seja tirando uma grana, dando visibilidade pro nome de sua banda, ou de qualquer outra forma). Enquanto isso, o público merece opções e tem o direito de escolher onde quer ou não ir.

Cabe, talvez, a pessoas com um pouquinho mais de estrada no meio underground como o próprio Pedro de Luna, artistas como Gilbert T (que também participou da matéria) ou este que vos escreve, apontar uma ou outra alternativa, ou mesmo dar um certo suporte aos mais novos. Mas quem determina que tipo de cena teremos hoje, ano que vem ou daqui a dez anos é a galera que nesse exato momento está montando sua primeira banda, descobrindo sons, visitando os lugares, perambulando sem rumo na madrugada ou mesmo tentando organizar seus primeiros showzinhos (chamávamos assim na época..hehe - tipo "vai ter showzinho onde na sexta???"...rsrsrs).

Sinceramente não faço a menor ideia se consegui me fazer compreender ou não. De qualquer forma, deixo vocês com a pesquisa e matéria do Pedro, do Coletivo Araribóia Rock. Melhor que levar esse monte de bobagens aí em cima a sério, é tirar suas próprias conclusões, arregaçar as mangas e trabalhar, certo? Ótimo 2012 a todos! Precisando, estamos a disposição!

Rafael A.


A matéria do site do Araribóia Rock:

Fazer shows é o principal desejo de bandas de rock Niterói e São Gonçalo para 2012
Pesquisa realizada pelo coletivo independente Arariboia Rock mostra anseios dos músicos, que ainda colocam shows e gravações nos primeiros lugares das suas listas de prioridades.

O coletivo independente Arariboia Rock, que desde 2004 movimenta e organiza a cena musical do rock em Niterói e São Gonçalo, realizou uma pesquisa através de amostragem para saber o que os músicos mais desejam para 2012. O primeiro lugar, disparado, foi o sonho de contarem com mais palcos para tocar ao vivo.

De fato o que mais falta na cidade é espaço para as bandas mostrarem o seu trabalho”, responde sem pestanejar o guitarrista e vocalista Reginaldo Costa, da banda Levante, completando seu pensamento: “Locais de shows e apoio cultural para mobilizar a cidade em torno novidades e não apenas dos consagrados”.

Durante todo este ano de 2011, as bandas underground só podiam tocar em clubes de São Gonçalo, além dos espaços culturais Convés e Box 35, em São Domingos, e muitas vezes pagando para se apresentar. “É a questão da oferta versus a demanda. Então os dois lugares cobravam aluguel do espaço sem oferecer som, segurança, panfleto, nada. Então se a banda queria tocar, tinha que investir no seu próprio evento, o que está muito longe de ser o ideal”, explica Pedro de Luna, coordenador geral do Arariboia Rock, e responsável pela pesquisa.

Pedro lembra que a expectativa para 2012 é boa, sobretudo com a volta do projeto Dia do Rock, produzido pela banda Os Clodoaldos, no Clube Luzitano, na Ilha da Conceição. “Também estamos apreensivos para saber como será o modelo de eventos na recém-inaugurada Boxground, na Praça Leoni Ramos, ao lado do Bin Laden bar”. O gestor cultural também acredita que, por se tratar de ano eleitoral, há chances da Fundação de Arte de Niterói enfim realizar algum projeto consistente pelas bandas da cidade. “O Praia do Delírio não voltou, o projeto Usina Cultural em Camboinhas afundou, e os shows gratuitos que fazíamos na gestão anterior, em praças e pistas de skate, foi descontinuado quando o Marcos Sabino assumiu”.

Marcos Ximeninho concorda e enumera outros problemas: “Nosso grande problema em Niterói realmente é a falta de espaço viável financeiramente pra montar um evento e que também de ir num horário legal. Realmente o convés, pra mim, é o único viável para a garotada, mas quase ninguém vai por que só uma linha de ônibus passa lá”. Integrante de uma banda de Heavy Metal Gótico, ele também compara os estúdios de ensaio aos do município vizinho. “São poucos em Niterói e caros em relação a São Gonçalo”.

O músico e produtor Rafael Almeida, da Latitude Zero Prod., agora na banda Inércia e editor do Feira Moderna Zine, sonha ainda mais alto. “Espero sinceramente que Niterói encontre seu rumo. Que consigamos sanar algumas necessidades que, creio eu, é um primeiro passo para o cenário independente daqui honrar não só seu passado, mas seu presente, sendo que a quantidade enorme de bandas, músicos, poetas e artistas de nossa Região”. Entre os desafios, ele diz que é necessário “emplacar pelo menos dois festivais trazendo artistas de fora e dando visibilidade para os locais. Além de veículos de imprensa local direcionados não só pro que vem de fora daqui, mas olhando atentamente pro que acontece aqui. E que as bandas e artistas se organizem minimamente, para manter produtores, público e imprensa informados”.

GRAVAÇÃO AINDA É UMA PRIORIDADE
Em 2012 esperamos muito lançar nossa demo e fazer muitos shows”. Assim como o Allan Anjos, da banda Kaliburn, esse é o segundo desejo mais citado pelas bandas, entre elas Gilber T e Covil do Lobo, que está finalizando seu segundo CD, "Crocodilos e Jacarés Também". A gonçalense LOKO é uma das que acrescentou à lista também a realização de um videoclipe, ferramenta de divulgação cada vez mais importante nos dias de hoje.

O guitarrista Gabriel Rodrigues, da banda Safo, que também sonha com mais shows e material gravado, finaliza com um desejo que não é novo, mas continua pertinente num segmento onde por vezes os egos falam mais alto: “Acho que acima de tudo o principal é mais trabalho de equipe, união e força de vontade, pois tendo isso, o resto vem naturalmente”.




Agradecimentos:
Pedro de Luna (coordenador geral do Coletivo Araribóia Rock)

Um comentário:

Pedro de Luna disse...

Muito bom, Rafa, seus comentários foram muito lúcidos e o texto está bem redigido. Bacana notar que ao longo dos anos vc adquiriu uma maturidade maior tanto como jornalista quanto na reflexão da cena como um negócio / ou uma rede.

Parabéns! Tá registrado pra posteridade;

Abraços e que 2012 seja muito melhor.

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