quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Cólera: O Grito Não foi Em Vão!



Não vou lembrar o ano com exatidão, mas ainda vivíamos os anos 1990. Por incrível que pareça as cidades de Niterói e São Gonçalo, vizinhas da capital carioca abrigavam cenários independentes animadores. Era o final de semana se aproximar pra começar aquela coisa de “Em qual showzinho vamos beber na sexta?”, “Cara, no sábado vai rolar um lance com várias banquinhas de zines em tal lugar...” ou “Domingo é certo! Tu vai pintar lá no show, né?” As opções eram muitas, e ao menos esse que vos escreve não pensava em absolutamente nada (ou quase) que não tivesse a ver com ensaios com bandas pouco promissoras, trocar cartas com correspondentes Brasil afora e ir atrás de shows por aí. Não importa onde fossem.

Na verdade, a coisa começava/terminava (ou não terminava) já no começo da semana. Era colocar as demos que comprava nos shows do final de semana no walkman e passar semana curtindo todo aquele material. Na mochila da escola haviam mais fanzines e k7 que material escolar. Sexta-feira chegava, aula acabava e... partiu Rock Revenge! A loja no centro de Niterói servia como parâmetro pra esquematizar por onde passaríamos no final de semana. Já que todos que organizavam shows deixavam material ou lá, ou na saudosa loja Fire Rock, esta na Zona Sul da cidade. Nessa época, a trilha sonora perfeita era um tal de “Caos Mental Geral” de uma certa banda Cólera. Álbum aliás, que comprei na citada Rock Revenge! Mal sabia eu o reboliço que a bolachinha estava causando na minha própria vida... Era tipo o arroz com feijão de todo dia. Sério, ouvia aquilo todo dia!

É claro que a coisa extrapolava as barreiras do 'gosto musical'. Fazia sentido na minha vida, no meu dia a dia. “Porque Estou Aqui? Porque Não Sou Igual? Ninguém Pode Decidir O Que é Melhor Pra Mim... Se Eu Vou Libertar, A Grade é Ilusão... Liberdade É A Missão...” de “Missão Libertar” era praticamente um hino! “Grito de Ódio” abria a mente para o velho “afinal, qual o meu papel nesse mundo completamente maluco???” e “Meu Igual” traduzia, ao menos pra mim, o sentimento de se acotovelar numa roda de pogo. Daí por diante, foi um pulo até chegar ao resto da obra de Redson e banda Cólera. Minha paixão por vinis entrou literalmente em parafusos quando dei de cara com um exemplar da coletânea SUB, num sebo no Centro do Rio! Pencas de cartas, quilos de fanzines, livros sobre o assunto e discos maravilhosos depois e pronto: já sabia ao menos de onde aqueles caras haviam saído!

Faltava conferir ao vivo. O que só aconteceu anos depois, por volta do ano de 2000 (ou teira sido em 98, 99... enfim), se não me engano... A lendária banda UK Subs tocaria na Fundição Progresso, na Lapa carioca. Na abertura do show dos gringos, Cólera! É óbvio que não pensei duas vezes e parti de Niterói rumo ao show. Nem me importava quem mais se apresentaria. A própria UK Subs, da qual sabia bem pouco na época, ficara em segundo plano a essa altura do campeonato! Inesperadamente, eis que Redson & Cia. tomam conta do palco pra se apresentar antes mesmo que as outras bandas de abertura! Do nada, e não me esqueço disso, vem do palco: “Boa noite. Nós somos uma banda inicianete, estamos começando agora e temos pouco tempo de estrada... Nós somos o Cólera!” Putz, não lembro de quase nada de nenhuma das outras bandas. Aquilo bastou pra me tirar desse plano! Catarse! Suor! Barulho, pogo, raiva, letras aos berros e, o mais legal, toda essa energia vinha de volta do palco!

Depois disso foram mais alguns shows (sempre perfeitos, incrível!) e, eis que o garoto que escrevia cartas tinha seu próprio fanzine! Tipo “...quero a liberdade pra tentar... quero ser e me expressar também... faça você mesmo, faça pra entender, crie um mundo novo...” tem muita culpa no surgimento do FMZ aqui ...Na época, pouquíssimas cópias xerocadas que iam aumentando à medida que surgia nossa banquinha de cd`s, troca de materiais, enfim... um dia escrevo como a tal banquinha surgiu (com seis cd`s do selo de um camarada de Brasília...). E eis que fico sabendo de um show do Cólera em Itaboraí, município da Região Metropolitana Fluminense, do 'lado de cá' da poça. Impossível não citar a importância que esse dia teve na minha vida. Parti de Niterói cheio de materiais pra montar minha banquinha no show (o que não rolou..rsrsrsrs) e disposto a fazer uma entrevista com Redson pro meu fanzine. Isso sim rolou!

Desde a receptividade dos caras (Fábio, na época baixista da banda me viu pogando feito retardado com mochila e tudo e ofereceu o canto onde estavam as coisas da banda pra eu guardar meu material), até a paciência de ceder um entrevista pra um fedelho todo enrolado com um gravador k7 tosquíssimo depois de um show de mais de duas horas onde, no final, a galera pode montar o set list como bem quis! Nada disso sai da minha cabeça. Redson foi de uma generosidade fora do comum com este que vos escreve. Comentou e 'deu aula' sobre diversos aspectos do cenário underground. Ao menos pra mim, era incrível estar ali, trocando uma ideia com o maior ícone do underground nacional. Responsável por lançar bandas por seu selo, ir pra Europa com sua banda quando ninguém aqui sonhava ser possível uma coisa dessas! É sem dúvidas a edição mais emblemática e da qual mais me orgulho do FMZ até hoje! Depois disso, vieram mais shows do Cólera no Rio. E a cada vez que encontrava com o cara, sim, ele lembrava de mim e da entrevista. Nunca deixou de me cumprimentar e perguntar como andava meu zine! Pra um moleque metido a músico, metido a produtor e metido a 'agitador cultural' ou coisa que o valha, isso é importante, sim...

Pouco antes de receber a notícia da morte de Redson, estava assistindo ao Guidable, documentário que conta a história do Ratos de Porão, do qual Redson participou. Foi aí que me bateu a seguinte sensação: esse cara tá na ativa a quase tanto tempo quanto eu estou nesse mundo! Ok, sempre soube disso. Mas dessa vez soou diferente. Não estou falando de nada sobrenatural nem nada do tipo. Mas o fato é que fiquei com isso na cabeça e dias depois recebi, via Deise Santos (Revoluta Produções), poucas horas depois do acontecido, a notícia de que Redson havia falecido. Encontrei com Fábio, batera da Kopos Sujus no Centro do Rio no mesmo dia e a sensação era a mesma: “cara, isso aconteceu mesmo?”, “é o tipo de coisa que não parece ser verdade, simplesmente não desce...”

Estive presente em alguns tributos e homenagens prestadas a Redson e sua obra. Festival do It Yourself, na Audio Rebel (Zona Sul carioca), evento Forte e Grande é Você (Centro do Rio). Fizemos ( Redson sempre lembrava: sozinho ninguém faz nada) uma singela homenagem ao Cólera na edição especial de nossa festa Narcose Rock Clube, que rolou dentro das comemorações dos dez anos do Projeto Praia do Rock, semana passada. Mas ainda assim a coisa não desce. Ainda soa estranho. Neste sábado, acontece o Janeiro Infernal - Especial Cólera, evento promovido pela jornalista e produtora cultural Deise Santos, que trará ao Rio Val e Pierre, os outros dois integrantes do Cólera para dividir o palco com integrantes de bandas e gente ativa no cenário underground carioca. Eu, o personagem dessa história toscamente contada aí em cima estarei lá, no palco junto com os caras. Alexandre Bolinho (Kopos Sujus), Felipe Chehuan (Confronto), Lacrau, Protesto Suburbano, Jason e muitos outros nomes terão a honra de dividir o palco com o Cólera, tocar e sentir as canções, gritar as letras, enfim...

Pode parece estranho, mas só agora consegui me sentir a vontade pra sentar e escrever sobre isso. Tanto tempo depois da notícia da morte do Redson. Como disse, a ficha insiste em não cair. Não porque fui próximo do cara, frequentei sua casa ou coisa que o valha. Nunca foi assim. Mas sua música fez mais que isso. Frequentou minha cabeça e foi fundamental nos rumos que dei na minha vida. Minha ideologia de vida passa por Cólera. Minhas convicções passam pela obra de Redson, Val e Pierre. Falei disso com o Bolinho da kopos Sujus no Praia do Rock, creio eu. Ele dizia: “Cara, acho que a ficha só vai cair mesmo depois do sábado que vem.” E tudo aponta pra isso mesmo. Pessoas de diversas origens, histórias de vida diferentes e convicções das mais variadas juntas pra homenagear alguém que fez parte de cada uma dessas vidas. Tenho certeza que pra todos os presentes sábado no Estúdio B, em Nova Iguaçú um sentimento será idêntico: “Se você estivesse preso pela força de um Estado que te dezumaniza, se sentiria tal qual um velho, um homosexual, um morto, um porco, uma prostituta. E se uma banda Punk fizesse um som da sua história, talvez ajudasse na revitalização da sua auto-gestão.”

Rafael A.


ps: Quando me apresentei ao Serviço Militar, no ano de 2000 (tô novinho, né?), me mandaram ler me voz alta um juramento, ou coisa que o valha, numa placa que devia ter a idade da ditadura no Brasil. Olhei fixamente pra ela e repeti o que estava escrito com a letra de “Continência” na cabeça. Mais uma vez: Obrigado Redson!

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