quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O Rito Secreto



Lembra de como já foi bem mais difícil? Lembra de quando era quase impossível sair da cama e olhar o mundo a sua volta com coragem e ironia suficientes pra espantar os medos? Lembra de quando os medos vinham de todos os lados? E de como o desespero brincava com a mente fazendo parecer que voltar à infância era o único modo de despistar os vultos que dançavam à noite ao redor da cama, rindo de nossa inocência e franqueza, lembra? Engraçado como não conseguíamos ver a saída pra aquilo tudo tão perto, diante de nós, dançando no espelho à espera de nossa atenção. Não é de espantar.

Os males do mundo, o Estado, a rotina, as enfermidades, são as armas do inimigo pra sufocar, tirar a razão e nos empurrar ladeira abaixo nos baraços de qualquer artifício, migalha, prêmio de consolação ou coisa que o valha. E vamos fundo. Pra baixo é sempre mais fácil. Se enforcar na própria arrogância é o maior dos vícios. Daí ficamos expostos, sem defesa nem escudo. O inimigo bombardeia de todas as direções: sonhos impossíveis, causas perdidas, vergonhas e os temores mais profundos devidamente esfregados na nossa cara. Golpe após golpe, vamos dando o braço a torcer. Aceitando as poucas chances de vitória. Não vemos o inimigo nos sabotando e tirando de nós as poucas certezas e atalhos seguros na volta pra casa. A decepção a cada tropeço, a ânsia de lutar a nossa maneira por sustento e dignidade ofusca a visão. Tropeçamos de novo. Levantamos e tornamos a cair. Mal sabe o inimigo que podemos bem mais.

Podemos ser mais que a solidão covarde do vício, podemos brincar com as peças que o inimigo nos prega. Podemos sorrir pra cada novo obstáculo sem enlouquecermos de vez. Sem desatar o nó. Sem se livrar das amarras. E podemos mais, podemos tanto que dá medo. Quando descobrimos o quão divertido é brincar com a solidão não pensamos nas chances que temos de tê-la como companheira pra sempre. Aprendemos a encarar o Estado como mais um adversário a ser vencido. Enxergamos saídas bem mais lógicas que, apesar de desviar, não nos tiram do caminho. Escolhemos por onde andar e onde pisar. Ignoramos as dores na hora de levantar e damos risada do medo que sentíamos até bem pouco tempo atrás.

Podemos mais, bem mais que bater na porta esperando alguém abrir. Encontramos as entradas e saídas por nós mesmos. O inimigo já não assusta mais como antes. O que o corpo não suporta, a cabeça contorna. Sem otimismo barato nem frases feitas (como algumas por aí... ou aqui ). A canção triste acorda, desperta e seus milhares de significados vêm à tona como um turbilhão de boas ideias e pensamentos positivos surgem sem respaldo de coisa alguma, por nada... Vamos fazer do nosso jeito. Voltar atrás e olhar pra frente (e tome Eng.Haw...rsrsrs). Usar e abusar de nossos artifícios furados e técnicas mirabolantes pra fingir não ver o que o mundo faz com a gente todo dia, toda hora. Afinal, a covardia é do mundo, não tem mais haver com a gente. Já não precisamos nos encolher debaixo das cobertas, nem deixar a luz acesa. Não vamos nos sentir piores nem melhores que ninguém. Sem comparações cruéis. Sem fugir. Sem medo. Podemos bem mais que isso.

Que tal dar uma volta hoje? Sentar e beber umas cervejas sem o compromisso de soar como aquele outro que as pessoas enxergam quando olham pra nós. Ser o contrário do que se espera que sejamos! Nada de controlar os gestos, parecer amigável, simpático ou de bem com a vida. Nem a obrigação babaca do tal “seja você mesmo” de que tanto falam vai incomodar. Afinal, não temos mais medo algum. Estamos e somos livres. Podemos isso também. E podemos bem mais. Bom dia!

Rafael A.


Ao som de:

Bad Religion : Who We Are


Oasis : Don't Look Back In Anger


Engenheiros do Hawaii : Dom Quixote


Engenheiros do Hawaii : Realidade Virtual


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