domingo, 4 de março de 2012

Diário de um Chato no Carnaval



Ser chato é um dom.” A frase é de Leonardo Panço, ex banda Jason, retirada de algum lugar do saudoso fanzine Bodega (tenho quase certeza que foi de lá...). Enfim. Já fazem anos que aceitei esse dom. Fruto de minha ojeriza por toda e qualquer forma de manifestação mais, digamos, eufórica, ou por qualquer outro motivo, a verdade é que aceitei essa condição e não me envergonho dela. Sim, sou um chato. Não um chato total e completo, consigo passar por situações que a princípio me deixariam extremamente desconfortável, desde que algo (amigos por perto, por exemplo) compense. Seja como for, sou um chato e aceito essa condição. De forma que, sempre que possível, evito passar por diversas situações. E algumas vezes sou bem sucedido! Não foi o caso do (ufa, ainda bem que acabou...) último Carnaval.

Confesso que cheguei a nutrir alguma esperança pelo tal feriado que todo ano castiga os ouvidos e esgota a paciência de muitos de nós. Publicamos uma 'agenda alternativa' aqui no FMZ com uma penca de programas que, em tese, agradariam o público pouco chegado a manifestações (muito) populares... Não me entendam mal! Como todo chato, pra mim, junto com fevereiro, vêm as tais inquietações a respeito da validade de se parar a vida durante quase uma semana simplesmente porque a maioria das pessoas está disposta a beber, perder a linha e pôr em prática suas fantasias mais bizarras sem medo de serem repreendidas. Afinal, é Carnaval! Ok, o que na verdade é uma espécie de cala-boca, ou anestesia popular geral (todo mundo parece esquecer de absolutamente tudo que as aflige e, simplesmente, se entregam à folia) dificilmente é compreendida como tal pela maioria da população (justamente os otários-alvo). Enfim. Pra mim, Carnaval nunca passou muito disso.

Apesar de uma ou outra boa lembrança, como o saudoso Carnarock do Garage, ou o ano em que a Prefeitura do Rio liberou o palco dos Arcos da Lapa pra uma penca de bandas independentes (acho que no mesmo ano, inclusive...), as recordações não são das melhores. Na infância, viagens com a família. O que inclui praia, primos, amiguinhos, parentes, bailes infantis, clubes, animação, adultos bêbados... Enfim, coisas insuportáveis. Na adolescência, a cidade vazia, os lugares legais fechados e um esforço danado pra aceitar o tal “relaxa, é Carnaval...!” ou “...mas vai dizer que você também é roquêro no Carnaval???? Fala sério...” Nunca funcionou.

De volta ao famigerado Carnaval 2012: Como dizia, uma ou outra opção surgiam como verdadeiras oportunidades de simplesmente fugir da palhaçada generalizada e conseguir respirar em meio a demência geral. Este que vos escreve respirou fundo, tomou coragem e foi pra rua em busca de seu próprio conceito de diversão! Na sexta, voz e violão em São Gonça à cargo de Sr.Tuca Marques. Ok, não é bem um programa alternativo no Carnaval, já que acontece toda semana de uma forma ou de outra. Legal, seguro. No sábado, cerveja no bairro da Ponta D`Areia. Carnaval de rua com direito a crianças fantasiadas e tal. Mais uma vez, seguro, agradável (muito pelo papo, nada pela folia). No domingo, mais cerveja. No Centro de Niterói. Gente bêbada e fantasiada passando pra tudo quanto é lado, mas mesmo assim ainda não era o tal do Carnaval. Mal sabia o que estava por vir...

Segunda escondido em casa. Lindo! Na terça, o único momento, digamos, de gandáia. Bloco Punk/HC Pela Paz na Lapa. Ok, não é um bloco, não sai, não se locomove. Só amigos reunidos batucando clássicos do Punk Rock em qualquer coisa que apareça! Divertidíssimo, agradável, civilizado... divertido. E foi aí que as coisas mudaram. Tomado de empolgação e cerveja decidi: “vou ver qual é desse Carnaval na Lapa!!!! ” Antes tivesse voltado pra casa... Rolava uma certa curiosidade com relação ao tal Bloco do Sargento Pimenta. Tocar Beatles em ritmo de marchinha de Carnaval, me pareceu criativo. E não é que o mesmo bloco tinha uma apresentação marcada para os Arcos da Lapa? Ali pertinho de onde eu estava! Latinha na mão, e lá vamos nós! Vamos aonde, cara pálida??? Não havia como uma criatura minimamente civilizada se locomover pelas ruas da Lapa! Depois de garimpar uma barraquinha com cerveja por um preço melhor, respirei fundo e tentei me aproximar do enorme palco montado junto aos Arcos. Impossível. “Melhor ficar quetinho aqui e ver qual é a dos caras”, pensei. Pouquíssimas vezes me senti tão incomodado com alguma coisa que era executada na minha frente em um palco. O mau gosto era tamanho, que chegava a embrulhar o estômago! Transformaram as canções dos Beatles em uma mistura de Olodum, Axé Music e bizarrices afins. Deplorável. A gringada ia ao delírio e, creio eu, qualquer um que goste e respeite a obra de Lennon & Cia. se afundava em depressão. Horrível. Fugi.

Não satisfeito, ainda me aventurei no tal Bloco Crú, já no sábado em Niterói. Como disse, sou um chato. E uma das características de um chato é não se dar por vencido! Mas vejamos: Trio elétrico saindo da Praça da Cantareira às três da tarde??? Não podia dar certo... E não deu. Debaixo de um maçarico e tomados por um calor senegalês, uma penca de fãs de 'roqui' (no sentido mais porco, sujo, conformado, babaca e xuta-licho possível) se arrastava atrás do trio elétrico que, apoiados numa banda visivelmente fraca, trucidava sons de AC/DC, entre outros medalhões do estilo. A pisada na bola definitiva veio com uma versão 'pra cima', vejam só, de “Creep” do Radiohead. Claro, nada mais óbvio que transformar Tom York em Carlinhos Brown, né!?! Ridículo (e nem precisa ser um chato pra chegar a essa conclusão). O resultado? O trio parou. Bem feito. Sou chato, mas tenho bom senso. Foi o momento pra me adiantar e conseguir uns minutos de cerveja com os fones de ouvido devidamente acomodados nas orelhas, de volta a Praça, antes da procissão retornar ao ponto de partida.

Seja como for, admito que adoraria ter bom humor suficiente pra encarar esse tipo de situação, levar na brincadeira essas versões bizarras de sons legais e curtir o tal Carnaval alternativo. Mas não dá. Tanto na Lapa, com o Sargento Pimenta, quanto na Cantareira com o tal Bloco Crú, o que se via não era um público de fato tentando fugir do convencional, da histeria coletiva e dos repiques e pandeiros. Pareciam mais pessoas comuns, com gostos e postura comuns diante das próprias vidas e do país em que vivem e que, por um mero acaso deram de cara com o tal do 'roqui' (esse sim, tão bizarro e conformado quanto qualquer manifestação pop ou coisa que o valha). Mas é óbvio que não estou com a razão, afinal de contas sou um chato.

No apagar das luzes, e enquanto garis sambavam com suas vassouras pela Passarela do Samba e os sambistas de Sampa continuavam a se esbofetear após dias, cheguei a seguinte conclusão: ser chato não é só um dom, é o melhor dos dons. É exatamente a condição de chato que me manteve longe desse tipo de bizarrice durante a maior parte da minha vida. Claro que, quando mais novo, já fui mais radical com relação à uma penca de coisas e, claro que, sempre é bom dar uma saída pra ver o que se passa no mundinho dos terráqueos. Mas daí a achar legal... Com o passar do tempo e dos anos, venho tentando levar numa boa esse tipo de situação. E, como deu pra perceber, vira e mexe me imponho certas situações só pra ter certeza de que o errado não sou eu. Enfim... Acho que agora o ano começou, né? Que tal tratar de coisas sérias?

Rafael A.

fotos: Rafael A. / Latitude Zero Prod.

Nenhum comentário:

Leia também: