sábado, 9 de junho de 2012

O Dom



O mesmo cenário, o mesmo bar no Centro da cidade. Exatamente na mesma esquina, na mesma mesa de sempre e no mesmo horário. Faltavam só alguns minutos para o lugar ficar cheio. Logo o expediente da sexta-feira terminaria e todo tipo de criatura possível e imaginável tomaria conta daquelas mesas. Apesar do verdadeiro zoológico humano no qual aquele bar se transformava nas noites de sexta, gostava dali. Era comum passar as madrugadas lá refletindo, ouvindo músicas nos fones de ouvido ou simplesmente bebendo até não aguentar mais, ou o dinheiro acabar.

Vez ou outra fazia 'contato' com algum dos populares que, assim como ele, a certa altura da noite já não faziam muita noção de coisa alguma. Alguns desses encontros acabavam sendo bastante produtivos. Dependia muito do ponto de vista. Porém, desde que o contato fosse interrompido após o nascer do dia, tudo estava bem e sob controle. No apagar das luzes sobravam uma ou outra lembrança, cada um seguia sua vida e, na semana seguinte se cruzariam na mesma esquina, beberiam no mesmo bar e agiriam como se absolutamente nada tivesse acontecido. Seguro, sem a possibilidade de arrependimento de nenhuma das partes.

Nessa noite, o bar estava como de costume. A máquina de música cuspindo porcarias ininterruptamente, o chão imundo como sempre e toda sorte de seres humanos circulando de um lado pro outro, bebendo, perdendo dinheiro nos caça-níqueis ou na sinuca. O mesmo clima e os mesmos olhares de desconfiança dançando entre uma mesa e outra. Com os fones enfiados nos ouvidos o máximo possível, e o volume no último nível, era possível viajar pra bem longe dali sem deixar de prestar atenção no que acontecia em volta. Viu inclusive quando a garota de cabelos vermelhos entrou e cruzou o lugar passando bem rente ao balcão. Ela sempre vinha, e sempre no mesmo horário... Também vinha com seus fones de ouvido. E também parecia não se importar muito com o que acontecia a sua volta. Ouvia música e bebia. Cerveja após cerveja, a tentativa de contato visual ia deixando de requerer esforço, passava a ser algo quase incontrolável. Como resposta, o desdém de sempre. Seja como for, aquela sexta-feira tinha alguma coisa de diferente...

Apreciando a menina na mesa do outro lado do estabelecimento não notou quando aquela figura entrou no bar mancando e se aproximou de sua mesa. Por um momento pensou em ignorar, mas não conteve a curiosidade quando a criatura começou a falar, lhe apontando o dedo:

          - Eu sabia que te acharia aqui! Bem na hora e no local que combinamos...Hahahaha!!! Nós dois sabemos o que procuramos, nós dois sabemos bem... Não somos iguais a eles...Hahahaha!!! Nós sabemos quem somos! Só gente como nóis entende quando o mestre toca aquela guitarra...Hahahahaha!!!!

Tirar os fones de ouvido não foi, definitivamente, uma boa ideia. Mas levando em conta que quase ninguém no bar se ligou no que acontecia na mesa do canto (tomava cuidado de sempre escolher a mesa do canto), lhe soou interessante o esbravejar do sujeito a sua frente. Pensou que poderia não ser de todo ruin tentar algum tipo de diálogo com 'aquilo':

          - Só um instante, o senhor me conhece? Chegou aqui me incomodando, gritando e apontando o dedo, mas... vai me desculpar, mas acho que nunca nos vimos antes.

          - Hahahaha... Nunca nos vimos?!? Então está certo...

O cara deu meia volta e, quando parecia que iria embora, se virou na sua direção, veio novamente até a mesa e, se apoiando numa das cadeiras recomeçou. Dessa vez mais furioso. De perto, o cheiro de álcool que amanava de seu hálito e suas roupas era quase insuportável. Desandou a falar, cuspindo pra tudo quanto era lado:

          - Você não vai me convencer de que nunca nos vimos. Você sabe bem que nós dois nos conhecemos e não é de hoje. Sou sempre eu quem quebro seus galhos e agora você vem com essa que não nos conhecemos???? Isso é ridículo!!! Você não vai me fazer ir embora. Sabe porque? Porque precisa de mim! Eu sei exatamente do que você precisa, e você não vai abrir mão!

Definitivamente o cara era maluco. Não fazia ideia de onde podia ter conhecido um sujeito como aquele. Talvez ali mesmo no bar. Mas dificilmente teria dado abertura pra uma criatura como aquela se sentir no direito de vir falar assim, do nada. E com toda aquela certeza. Meio que olhando dentro de seus olhos e dando a entender que sabia tudo que lhe passava pela cabeça...

          - Vamos lá, eu sei o que você quer... Quer ver como sei exatamente do que você precisa??? Você quer aquela coisinha linda na mesa do outro lado do bar! Diz que não! Quero ver dizer que estou engando. Vocês dois sempre vem aqui e você fica olhando pra ela toda vez, do mesmo jeito... Quer ver como hoje é seu dia de sorte? Olha bem pra ela: cabelo vermelho, meio cheínha, branquinha, de salto... Hahahaha... É assim mesmo que você gosta não é? Ela faz cara de que não tá nem aí pra nada em volta dela, mas tá prestando atenção em tudo... é sem vergonha ela...hahahaha!!! Quer que eu traga ela aqui? Eu sei que quer...

Por mais bizarro e constrangedor que pudesse parecer, achou que não seria uma má ideia deixar aquele estrupício fazer o serviço. Afinal de contas, queria mesmo conhecer a tal menina e, se dependesse de sua lábia isso jamais aconteceria... Poderia começar deixando claro que nunca havia visto aquele cara e que estava sem jeito e tal. Daí puxava algum tipo de assunto e ai tentando sem livrar do sujeito pra ficar a sós e tomar uma cerveja com a garota. É, podia funcionar...

O pior é que deu certo! A menina levantou-se e estava a caminho de sua mesa. Inacreditável, mas o maluco havia conseguido. Como se não bastasse a garota caminhando em sua direção com um sorriso no rosto, olhava-lhe bem dentro dos olhos, como se já fossem velhos conhecidos! O velho maluco nem esperou a menina se acomodar numa das cadeiraa e já disparou a falar:

          - E aí minha linda? Como você vai? Deixa eu adivinhar, continua ouvindo aquelas bandas inglesas horríveis! Hahahaha... não sei como alguém pode gostar daquilo! Já experimentou o Hendrix? King Crimson? Camel? Fala sério, aquilo que você ouve é música Pop fantasiada de alternativo.. hahahaha.... Mas deixa eu te falar uma coisa: eu sei que vocês dois, quer dizer, nós três já nos conhecemos! Somos muito parecidos e já sabemos disso desde muito tempo atrás.

Antes que a garota desse o fora dali resolveu intervir. Apesar de manter um lindo sorriso estampado no rosto ela podia se levantar e ir embora junto com sua chance de conhecê-la a qualquer momento. Não pensou duas vezes:

          - Olha, me desculpe. Eu não faço a menor ideia de onde 'isso' saiu. Eu nunca vi esse cara na minha vida. Eu sempre te vejo bebendo aqui e queria mesmo te convidar pra sentar comigo e tomar uma uma cerveja, mas juro que preferia ter feito isso pessoalmente. Você nem deve estar entendendo muita coisa, eu imagino mas...

O velho interrompeu:

          - Qual é??? Querendo me tirar da jogada? Você sabe que isso não é possível. Estamos os três muito ligados pra nos separarmos assim. Já disse que sei o que vocês querem, do que precisam... Vamos lá, vamos trocar uma ideia...

Olhando-lhe fixamente, disparou em tom de ironia:

          - E aí? Continua gostando daquelas bandas barulhentas??? São de onde mesmo? Do Pólo-Norte...hehe?? Ah é, Finlânida... Ou, me deixa ver... Voltou a ouvir aquele amontoado de banda instrumental que nem os parentes dos próprios músicos conhecem??? Melhor: aquelas bandas progressivas tipo Porcupine Trio???? Fala sério: Que que é Porcupine Trio??? ..Hahahaha... só você pra vir com umas coisas assim.... Hahahahaha...

O pior é que parecia mesmo que 'aquilo' lhe conhecia. Mas é óbvio que nunca havia trocado 'confidências musicais' com uma criatura daquele naipe. Impossível. Tentou argumentar, mas foi logo interrompido. O velho se virou na direção de menina e a pegou pela mão:

          - Vamos lá gatinha, eu vou te levar pra dar uma volta, que tal? Eu sei que é isso que você quer... Vamos lá! Você nunca me disse não...hehe...

Sem saber o que dizer, ou fazer, viu a garota sair rua afora com o velho. Sem entender muita coisa, preferiu achar que boa parte do que havia se passado era culpa das cervejas que já havia bebido. “Melhor não tentar entender. Isso tá estranho demais pro meu gosto.”, pensou.

Tomou mais algumas cervejas, ainda pensando no diálogo absurdo, na garota, no sorriso que não saia dos lábios dela e tentando imaginar de onde poderia conhecer um velho maluco como aquele. E eis que quase antes de amanhecer, quando já se preparava pra pedir a conta e deixar aquela noite maluca pra trás, a garota volta. Cabelo desarrumado, marcas roxas nas pernas e braços e um olhar que parecia apontar pro nada. Com o mesmo sorriso no rosto, se senta e começa a falar de um jeito quase hipnotizante:

          - É impressionante o bem que ele faz pra gente, você não acha?? Eu sempre fico ali na outra mesa torcendo pra ele aparecer, me pegar pela mão e me levar com ele.. Sempre soube que um dia seria com a gente. Sempre te vejo lá da minha mesa e tal...

Definitivamente nada ali fazia o menor sentido. É óbvio que se em algum momento já tivesse estado com uma garota como aquela não se esqueceria! Como é possível?

          - Desculpa mas... Já nos conhecemos?

Não respondeu. Ou melhor, respondeu com um sorriso. Pegou em sua mão e se levantou:

          - Vamos?

Entendendo menos ainda o que começava a acontecer ali, pegou suas coisas na cadeira a seu lado e seguiu a menina. As ruas do Centro naquele horário conseguiam soar ainda mais estranhas que em plena madrugada. Os primeiros raios de sol se misturavam ao lixo deixado na porta dos bares e o friozinho dos primeiros minutos do dia parecia corta-lhe a alma. Era uma sensação estranha, até certo ponto assustadora. Mas estar, seja lá onde fosse, com aquela garota lhe fazia bem.

Entraram em um outro bar. Ela se virou e disse: “Ele está ali, fica lá com ele que vou pegar uma cerveja pra gente.” O velho estava sentado num canto, meio que entre o balcão e a porta do banheiro. O lugar era sujo o bastante pra que aquela criatura se confundisse com a decoração do bar. Sentou-se, e viu a menina vir com uma cerveja e copos. Ouviu ela sussurrar enquanto enchia seu copo: “E lá vamos nós de novo, como das outras vezes...” Não viu nem ouviu mais nada. Apenas vultos e sons desconexos.

Acordou no que parecia ser um quarto, pelo cheiro de urina e cachaça que entrava pela janela ainda estava no Centro da cidade. Conhecia aquela música que parecia vir de algum outro cômodo do apartamento: “Isso parece Tangerine Dreams, Amon Düül ou alguma dessas coisas de Krautrock... sei lá...” Virou de lado e deu de cara com a garota. Praticamente sem roupas, parecia ter acabado de acordar. Olhou dentro de seus olhos e deixou uma lágrima escorrer sem o menor constrangimento. Parecia feliz, aliviada... Sussurrou:

          - É tão bom quando estamos aqui, não é? Fico me perguntando se você sente a mesma paz que eu sinto quando ele nos traz aqui...


por: Rafael A.

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