quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Eleições, Niterói e a Arte do Duplipensar



Hoje, tomei coragem e me submeti ao Programa Eleitoral no rádio (sim, ainda ouço as de notícias). Pra quem nasceu em Niterói, ou veio pra cá há muito tempo, e tem um mínimo de interesse na história recente e no panorama político da cidade é impossível não notar alguns 'detalhes' que simplesmente passariam batidos por ouvidos pouco atentos. Não se trata apenas das promessas, ou do discurso indignado de quem quer mudanças e o mesmo blá blá blá de sempre. Vai além. A coisa alcança níveis surreais do começo ao fim. O que, tudo bem, no fundo não passa do mesmo blá blá blá de sempre...


É impressionante a fauna que se apresenta como representante deste ou daquele segmento da sociedade niteroiense. Não bastassem as figuras que conhecemos da rua, da cerveja na praça, do papo na esquina ou de outros carnavais pela cidade, ainda têm aqueles que sabemos que não tem ligação alguma com Niterói! Podem até ter nascido ou vivido em determinado período da vida aqui. Mas certamente não conhecem o dia a dia de Niterói. Muito menos seus problemas e as necessidades de sua população. Estaria tudo bem se esses 'niteroienses' não tivessem a menor chance de se eleger. Não é bem assim. Como disse, tem de tudo que se possa imaginar: o prodígio criado no meio universitário e preparado desde a adolescência para o jogo político, o funcionário público aposentado que quer mais uma fatia do bem público, o esportista, o professor, a madame, o cadeirante, apresentadora de TV, camelô, frentista, borracheiro, enfim. Uma verdadeira fauna. Uma horda sedenta por sua fatia do bolo.


Mas tudo bem, partindo do princípio de que para toda regra há uma exceção, melhor não colocar todos no mesmo saco e tacar fogo, certo? Talvez incendiar um por um... Quem sabe? Mas voltando a nosso caldeirão de espertalhões: Ouvir no rádio as vozes de figuras conhecidas na história recente da cidade, lembrar dos sobrenomes que há gerações lesam o povo de Niterói e ver em cada um deles a perpetuação dos mesmos males que, de quatro em quatro anos, se fortalecem em nossas ruas é doloroso. Ouvir fulano ou sicrano bradar contra a especulação imobiliária na cidade sabendo que a mesma figura e seus comparsas se beneficiaram do mesmo processo lembra a arte do Duplipensar de Orwell! A capacidade de assimilar a mesma informação com sentidos diferentes. Pronto! Devemos amar o Grande Irmão! Ok, ele a essa altura deve estar bem longe daqui, como sempre esteve. Mas olhando por nós de sua mansão em um planeta bem distante!


De volta à Terra, algumas certezas prevalecem: continuaremos a ser lesados, roubados, enganados e feitos de idiotas. O bem intencionado, se eleito, terá de se render ao jogo para não se tornar vítima dele. E os mal intencionados... Bem, esses darão prosseguimento ao mecanismo. A máquina não pode parar de trabalhar. A fonte não pode secar, certo? O mais triste é observar o cenário descrito acima, comum a qualquer cidade do Brasil, creio eu, e perceber que o Estado não te dá a opção de simplesmente não concordar. Ele te obriga a participar da 'grande festa da democracia'. Não há espaço para os que, antes de não acreditarem em nenhuma das opções dadas, não aceitam a obrigatoriedade. É inconcebível o Estado, em qualquer circunstância que seja, obrigar o cidadão a fazer parte de um processo que o mesmo não julgue válido, honesto, verdadeiro ou transparente o suficiente para merecer sua participação.


E o que nos resta? Nada? O Estado te dá a opção de, no dia das eleições, simplesmente ficar em casa e não participar do processo eleitoral? Não, esse direito você não tem. Resta o voto branco, ou nulo. A bem da verdade o que cada um destes dois significa, ou vale, nunca ficou lá muito bem explicado. Admito minha ignorância. Ao menos eu, ainda não entendi. Já pesquisei, li, procurei... Insisto: o voto branco, ou o nulo, nem sempre significam que alguém não se interessa pela vida política de sua cidade, estado ou país. Eles podem significar que determinada pessoa não aceita nenhuma das opções que lhe foram oferecidas. E que a ideia do 'menos pior' é medíocre demais pra qualquer um minimamente esclarecido. Ou ainda, o voto 'inválido' pode querer dizer mais. Pode indicar que há pessoas que simplesmente não concordam com o processo eleitoral, com a forma através da qual somos representados perante o Estado.


Seja como for, dia 7 de outubro teremos de vasculhar nossas tralhas em busca de nossos títulos de eleitor, ir até nossa zona eleitoral e fazer o que nossa consciência mandar. Definitivamente não somos um povo suficientemente preparado para isso. Muito menos nossos 'representantes' são dignos do poder que lhes é oferecido através das urnas. Nossa democracia ainda está engatinhando, e ainda falta entender e (re)definir muito sobre o papel do Estado na vida do cidadão... E, com relação ao horário eleitoral e 'nossa querida Niterói': Quem vive aqui já viu essa história antes, e sabe muito bem como termina.

Rafael A.



Seja alguém, vote em ninguém! Seja alguém, vote em ninguém!” (Plebe Rude)

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