sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A violência travestida – pt.1


Fim de tarde em Niterói. Uma cerveja providencial depois de um dia de trabalho, correria e as já conhecidas pedras que o Estado insiste em pôr no caminho do cidadão comum. Como de costume, fones de ouvido devidamente colocados e volume no máximo pra me manter alheio a qualquer coisa que não me diga respeito. Um descuido, e passei de inocente a culpado. Ao menos me senti dessa forma. Vocês já vão entender. Fui literalmente atropelado pela seguinte cena:

Um senhor aparentando cerca de quarenta e poucos anos entra no estabelecimento para comprar cigarros (parecia ser freguês assíduo do local, já que se dirigiu a funcionária com certa intimidade). Uma criança, com seus cinco ou seis anos, brinca pelo local enquanto sua mãe toma uma cerveja na mesa ao lado da deste que vos escreve com a que parecia ser a madrinha da criança. A criança aponta para o homem no balcão e dispara:


           - Bichinháááá! Oi bichinha!



O homem olha visivelmente constrangido para a criança e se mantém calado. Ainda espera seu troco, já com seu maço de cigarros na mão. A criança continua:


           - Bichinaáááá!! Mãe, olha a bichinha ali! Hahahaha!!!



O homem recebe finalmente seu troco. E passa pela criança que 'se despede':


           - Tchau bichinha!!! Hahahaha...



Gentilmente, ele afaga os cabelos da criança, dá tchau e se dirige a mesa onde a mãe e sua parceira de copo aparentemente se divertem com a situação:


           - Com licença? Senhora, me desculpe, mas a senhora deveria educar melhor seu filho. Não se dirige dessa maneira a ninguém. Ele é muito novinho pra tratar as pessoas assim.


A expressão da mulher muda. E seguiu-se a seguinte discussão:


           - (mãe da criança) Quem você pensa que é pra falar da educação do meu filho??? Ele apenas reaje de acordo com o comportamento das pessoas!



           - (homem) Eu entendo, mas o que estou tentando dizer é que ele não deveria falar assim com ninguém. Sou um adulto, é questão de respeit...



           - (mãe da criança) Respeito é o cacete! Quer respeito? Se dê o respeito! Você entra no estabelecimento do meu marido rebolando, fazendo algazarra e quer que o garoto te respeite? Ele tem cinco anos!!! Quando ele crescer ele vai entender isso aí que você faz! Eu vou ensinar a ele!!!



           - (homem) Minha senhora, eu não fiz algazarra nenhuma. Apenas cumprimentei a menina do balcão e pedi um maço de cigarros...



           - (mãe da criança) Não interessa! Entrou aqui rebolando sim! Se fosse um homem de verdade não ai sair por aí abanando o rabo! Daí a criança vê, acha engraçado e você quer que eu faça o quê? Essa é boa... Agora viado quer ter respeito. Vê se pode, né amiga?



          - (amiga na mesa) Ignora amiga, viado é assim mesmo. Eles fazem o que fazem e querem que a gente bata palma.



          - (homem) Bom senhora, eu vim aqui porque achei que deveria chamar sua atenção, pro bem do seu filho. Eu sei que a culpa não é da criança, mas em todo caso fiz o que achei certo. Boa noite.



O homem sai sem sequer olhar pra trás. Na mesa, as duas comentam com espanto a reação dele diante da postura da criança. Fazem comentários e meio que tentam me levar pra conversa. Enfio os fones no ouvido o máximo que consigo e tento deixar claro que não gostaria de participar daquela discussão. Eis que surge, de algum lugar de dentro do estabelecimento uma figura quase sinistra, rosto transfigurado, transpirando e procurando por alguma coisa. Ele procurava pelo homem que acabava de sair.

A essa altura, o homem já se encontrava do outro lado da rua. Mas diante dos berros do dono do lugar, com direito a toalha no ombro e cigarro preso atrás da orelha, acabou voltando. E recomeça a discussão:


          - (dono do lugar) Volta aqui! Pode voltar! Quem você pensa que é??? Eu permito que você, sendo do jeito que é, frequente meu estabelecimento e você destrata minha mulher e meu filho??? Eu tô muito decepcionado! Quando foi que eu te impedi de entrar no meu estabelecimento e comprar alguma coisa? Você sabe que eu podia fazer isso! Eu podia te proibir de entrar aqui!!! Vocês saem por aí rebolando, não deixam vocês conviverem com ninguém, eu te recebo no meu local de trabalho e você ofende minha família! Olha, se eu fosse você eu nunca mais voltaria aqui! Peça desculpas a minha mulher, vamos!!!



         - (mãe da criança) Amor, deixa pra lá... olha pra ele. Ele já não deve poder entrar em lugar nenhum. Deixa ele ir embora fumar o cigarro dele, ele já entendeu que não é pra voltar aqui...


          - (homem) Olha só, eu exijo ser respeitado. Eu entrei aqui, paguei o que pedi e só dei um conselho a sua esposa. Seu filho foi grosseiro comigo. Não é culpa dele, mas sim de vocês que são os pais. A responsabilidade pela educação dessa criança é de vocês.





         
(dono do lugar) Como é que é??? Você sai por aí rebolando e quer falar de educação comigo?. Não sou eu que saio por aí fazendo sei lá o que! Você é que não teve educação!!! Eu tô perdendo a cabeça. Vai por mim, não bota mais a cara aqui!



          - (homem) Quer saber? Eu é que já tô com nojo disso tudo aqui. Pode ficar tranquilo, não piso mais aqui nem que me paguem. Tenho é pena dessa criança.



O homem sai batendo o pé e, no estabelecimento, os três, o dono, sua esposa e a mulher com ela na mesa parecem espantados e indignados com a 'ousadia'. Era como se o homem devesse ser ofendido pela criança e ficar calado. Se recolher a sua insignificância ou coisa parecida. O papo dos três se estendeu por mais alguns minutos até que a mãe chamou a criança e lhe disse algo do tipo: “Você viu, né? Não pode falar com essas pessoas. Você viu que ele é diferente, não viu? Quando você crescer mamãe vai te explicar o que ele faz. Mas você já sabe, né? Não pode falar com essas pessoas...”

Confesso que até o momento de deixar o lugar, ainda estava meio que pasmo, boquiaberto, paralisado com a cena e com a lógica com a qual a coisa foi tratada por aquelas pessoas. Uma forma de violência das mais covardes. Simples assim:”você é diferente, deveria agradecer por te deixarmos entrar em nosso estabelecimento e consumir”. Admito que minha decisão de não me envolver me faz um pouco cúmplice daquilo que presenciei. Não só eu, mas todos ali presentes. Muitos demonstraram indignação, mas ninguém se levantou contra a injustiça. Fui mais um, me calei e vi a violência (apenas uma de suas várias formas) fazer mais uma vítima bem diante de mim.

A criança e o homem agredido (sim, foi uma forma de agressão) são vítimas. Vítimas da ignorância e estupides daquelas pessoas e do mundo que os cerca. O garoto provavelmente vai enxergar o mundo com os olhos dos pais. Vai estabelecer regras de comportamento, trejeitos, vestimentas, cor, sotaque, gosto musical e resumir a riqueza da diversidade num simples: isso é certo, aquilo é errado.

E a noite continuou como se nada tivesse acontecido.


Rafael A.

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