segunda-feira, 15 de outubro de 2012

E a Cantareira se foi...



Não faz muito tempo, este que vos escreve teve a oportunidade de, depois de um bom tempo, ir até a Praça da Cantareira, no bairro de São Domingos, próximo ao Centro de Niterói/RJ numa quinta-feira. Na ocasião, a missão era liquidar a cota de panfletos da edição do Rock na Garagem realizada no último dia 6, no Metallica Pub (São Gonçalo/RJ) que ainda tinha em meu poder. A escolha de uma quinta-feira à noite, obviamente, não foi por acaso. Já que se trata do dia da semana no qual a Cantareira, devidamente tomada por ambulantes, recebe seu maior público durante a semana.

Impossível não lembrar de outras épocas, no mesmo local. Vale um momento nostalgia? Coisa rápida, prometo! No final dos anos 1990 o cenário na Praça da Cantareira era bem diferente. Saía a quinta-feira, apelidada hoje de 'Quintareira' e entrava em cena a sexta. Notadamente um dia mais propício à cerveja e ao bate papo de depois do expediente. Na época o local era um autêntico reduto de roqueiros, poetas, artistas plásticos, ativistas políticos e universitários (estes em versão mais digna que a atual, que fique claro). Porém, não havia como negar: tratava-se de um 'point' roqueiro, por assim dizer. Muito desse clima se devia ao fato da Estação Cantareira (antiga estação das Barcas Rio-Niterói e palco da famosa Revolta das Barcas) ainda funcionar como espaço de shows e atividades culturais. Chico Science & Nação Zumbi, Penélope Charmosa, Planet Hemp (show clássico, lendário!), Celso Blues Boy, dezenas de nomes do Reggae e uma infinidade de bandas independentes passaram tanto pela lona do palco principal, quanto pelo palco menor, montado vez ou outra próximo ao bar. Haviam também, como hoje, bares e restaurantes no entorno da Praça com música ao vivo, artistas de rua, enfim.

É claro que as pessoas que frequentavam (e frequentam) a Cantareira vão até lá em busca de umas cervejas, do bate papo, da paquera e coisas do tipo. Mas é inegável que, através dos tempos, a aura 'cultural' que caracterizava o lugar se foi. O clima pesado dos dias de hoje, muito em parte proporcionado pela presença de playboys lutadores de seja lá o que for, patricinhas, funkeiros, pagodeiros e toda sorte de criaturas, se distancia muito do ambiente saudável, instigante e empolgante do local em outras épocas. Pra se ter uma ideia, era impossível passar uma noite de sexta-feira na Cantareira e não sair de lá com as mochilas e bolsos recheados de flyers de shows e eventos bacanas. Fanzines de poesia, música e informativos culturais diversos circulavam de mão em mão. E não se podia evitar: era passar pelo lugar e ficar sabendo das novidades envolvendo bandas locais, shows e novos espaços que, na época, vira e mexe abriam suas portas para bandas independentes em Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Região. E tudo isso se foi.



De volta a minha incursão à Cantareira há alguns dias atrás. A tarefa aparentemente simples de distribuir panfletos ao público roqueiro do local se mostrou bem mais complicada do que, ao menos eu, imaginava. Entre flyers de chopadas, raves e surubas afins (até o de uma feijoada apareceu!) um punhado de criaturas das mais diversas procedências se amontoava no que parecia um misto de porta de boate e festa popular de rua. Mesmo as figuras com visual tipicamente roqueiro pareciam rejeitar o material que eu tinha em mãos. Alguns aceitavam mas, imediatamente, descartavam demonstrando total desinteresse para com o projeto que eu divulgava. Cabelos coloridos, pouquíssimas camisetas de bandas e até um moicano levantado (devidamente acompanhado de jaqueta de couro e bottons) circulavam em meio aos populares e, estranhamente, pareciam à vontade em meio àquela fauna urbana bizarra. Algumas caras conhecidas serviam de porto seguro para meus panfletos. E, admito, uma ou outra figura da nova geração de frequentadores do local aceitava meus flyers. Apesar disso, era impossível não voltar no tempo e recordar momentos mais dignos da Praça da Cantareira.

Vale ressaltar que a Praça Leoni Ramos, localizada no antigo Largo de São Domingos e batizada com o nome de um antigo prefeito da cidade (Carolino de Leoni Ramos) foi palco de um dos episódios mais lindos da história de Niterói. Em 1959 a população, revoltada com o aumento no preço das passagens da barca que fazia a travessia Niterói-Rio, enfrentou a polícia, bombeiros e exército destruindo e incendiando a Estação das Barcas (Estação Cantareira), bem como outras propriedades da família que detinha a concessão das Barcas na época. Décadas depois, aproveitando o clima boêmio e a grande quantidade de atelieres, bares, restaurantes e o surgimento (e fechamento) da Estação Livre Cantareira – espaço cultural que abrigou os shows que citei lá no começo, movimentos artísticos passam a reivindicar o espaço para fins culturais. Entre idas e vindas, reuniões com representantes do Poder Público, protestos e afins a coisa ainda não se resolveu. O fato é que, de uns anos pra cá, a Estação Cantareira vem abrigando boates (o terreno pertence ao consórcio que administra o transporte aquaviário na Baía de Guanabara, que por sua vez tem o direito de arrendar pra quem quiser). De uma forma ou de outra o que se tem por lá hoje é entretenimento puro e simples. Sem conotação cultural.

Recentemente um vereador teve a infeliz ideia de propor que se cercasse a Praça. Novamente protestos, revolta e manifestações fizeram com que a ideia (estúpida) fosse abortada. De qualquer forma, nada que chegasse sequer perto do ocorrido em 1959. Desta vez, o interessante politico falava mais alto que a voz do povo. A proposta de se cercar a praça tinha a intenção de valorizar (…) o local e entregar de bandeja para as construtoras que, há tempos, já crescem o olho no bairro de São Domingos (não por acaso, algumas das antigas casas desapareceram e deram lugar a condomínios). Exatamente da mesma forma, os articuladores das manifestações e protestos que surgiram na ocasião são gente influente no quadro político da cidade. Estes, veem na juventude alienada que tomou conta da Cantareira uma boa oportunidade de conseguir alguns votos a mais. Enquanto isso a 'quintareira' segue reunindo mentes vazias e despreocupadas toda semana. Ao que parece, pra eles o beijo na boca, o pileque irresponsável e a exposição à manifestações populares de gosto duvidoso soam mais interessantes que difundir ideias, música e cultura.

Voltando à fatídica noite de quinta: Confesso que faziam alguns meses que não dava umas voltas na Cantareira numa quinta-feira. Ver a reação do público frequentador do lugar quando exposto a uma manifestação tipicamente underground me assustou. Mais que isso, me entristeceu. O lugar, como deu pra perceber pelo meu relato, foi completamente descaracterizado. E nem estou me referindo a tentativa de intervenção do Poder Público enviando pra lá sua Guarda Municipal. Até porque se trata tão somente do Estado fazendo seu papel: “Reúne muita gente?”, “O Estado não tem nada haver com isso?!”, “Mandem a Guarda Municipal, cadastrem alguns ambulantes, instalem uma lãmpada em algum ponto do local e vamos atrás de votos!!” Típico de Poder Público, certo? Foi exatamente o que aconteceu na Cantareira. Seja como for, fica a dúvida: O que mudou? Como um lugar tão bacana, aos poucos, se transformou num antro de alienados? Sinal dos tempos? As novas gerações simplesmente não se interessam por absolutamente nada que não seja superficial, tolo, obtuso?

Acredito que ainda existam, aqui e ali, exemplos que lembrem a Cantareira de anos atrás. Também não estou tentando convencer ninguém de que a Cantareira da década de noventa não atraia gente idiota (tem em todo lugar) e desinteressante. Haviam lá seus episódios desagradáveis. Como a eterna rixa entre Punks e Skinheads que por vezes proporcionava cenas dignas de filme! Ou mesmo um ou outro porre, desentendimentos, enfim. Mas em algum momento, em algum lugar algo deu errado. A praça que vista de longe nas noites de sexta lembrava mais um bando de urubus tamanha era a quantidade de camisetas pretas simplesmente desapareceu. Um lugar onde se respirava música, cultura e arte de protesto se calou dando lugar a uma legião de imbecis incapazes de valorizar qualquer coisa que não diga respeito a seus traseiros mal lavados. Seja como for, ou por qual motivo for, a Cantareira se foi.

Rafael A.

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