sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Por Toda Sua Vida



Quando eu for rei, vocês serão os primeiros contra a parede!” O quão cruel pode ser um sentimento que, ao longo de uma vida tortura, castiga, maltrata e pisoteia uma criatura? O que afinal sente alguém que espera. Simplesmente espera uma revanche, uma chance de acertar, de provar ao inimigo que é digno da batalha? Quem se propõe a uma luta eterna contra o inabalável, contra o senso comum? Quem passa anos em função de uma vingança que não chega? Qual criatura é capaz de suportar o ódio queimando dentro de si por anos que parecem intermináveis?

Quando eu for rei, vocês serão os primeiros contra a parede.” Ele guardou dentro de si por longos anos o desejo de vingança. Queria dar o troco. Olhar nos olhos do inimigo e se sentir vitorioso. Aguardou pacientemente, ouviu, sentiu, chorou, planejou o contra golpe. Viu as chances desaparecerem uma por uma. Acordou a cada dia com a esperança renovada. E a cada dia, por fim, viu sua tão sonhada vitoria se distanciar. Sem desistir! A causa era nobre no seu entender. Sendo assim, nem o senso comum seria capaz de desmerecê-la. Ninguém poderia apontar-lhe o dedo na cara e acusá-lo. Era ele que sentia a dor, sofria com as risadas e caia em desgraça a cada nova tentativa de reação.

Sentiu por anos a angustia de não poder apagar de sua mente os olhares cínicos e pretensiosos de quem o julgava incapaz, inferior, desgraçado pela própria natureza. Agarrou-se com todas as forças desesperadamente a cada tábua de salvação que lhe cruzava o caminho. Era sempre em vão. A força da desgraça que varria suas pretensões era maior que todas as suas forças juntas. Ouvia dizer que era preciso viver, deixar o tempo passar e que tudo terminaria bem. Tudo se ajeitaria. Cada coisa no seu lugar. E que não importava qual fosse seu verdadeiro lugar em tudo aquilo, quando chegasse sua vez de ocupar o posto que a vida havia lhe reservado, se sentiria bem, em paz, descansado.

Quando eu for rei, vocês serão os primeiros contra a parede...” Durante os anos de sua vida derramou suor em vão. Recapitulou, reordenou, se planejou, se preparou para o dia que a tão sonha oportunidade lhe batesse a porta. Esperou em vão. Nenhum toque na porta. Nenhum chamado. Nenhuma chance. Nada. Derrota após derrota levantou-se e persistiu. Insistiu, acertou em vão. Aprendeu com erros e acertos sem entender a moral da história. Passou por tudo lembrando de cada derrota, cada gota de suor derramado,.cada desilusão. Prometeu que não cairia. Jamais desistiria de provar a si mesmo que estava certo em não desistir... Afinal, pensou: “A vingança soa tão bela, que jamais poderia ser algo negativo, covarde, ruim”.

Levou anos a fio no trato, no planejamento de um novo plano. Era ele contra a vida, contra o leve desespero que castigava-lhe a alma. A mesma música soturna, lenta, de poucos acordes tocando ininterruptamente. E enquanto a música da morte soava ao fundo de seus pensamentos, sonhava. Vislumbrava o dia em que bateria à porta do inimigo e, cansado da batalha, diria: “Venci! Admita! Sou tão bom quanto você e seus iguais! Vamos, admita!”... Acreditou e, de tanto acreditar numa justiça lógica, se esqueceu da lógica maior que rege todas as coisas: a lógica do inevitável, do intransponível, do cruel e do covarde. A lógica da vida que se faz presente em tudo, sempre silenciosa, rápida e imperceptível. Trabalhou por toda uma vida a espera de uma vingança, uma revanche que nunca chegou. Mas com a qual sonhou, e ao menos isso, por toda sua vida.

Rafael A.

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