segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Trilha Para Dias de Raiva


A música tem massiva influência na minha formação, desde humores banais ao contágio púbere da consciência política. E nesse lance todo, uma banda, ao longo dos últimos quatro ou cinco anos, ganhou bastante relevância no meu processo de lidar com a realidade, ou melhor, de lidar com o que eu percebo como real: Matanza.

Matanza, apesar de ser uma grande banda independente nacional, é desconhecida por quem só circula em frequências radiotelevisivas. Pra quem não conhece, Matanza é a banda que inaugurou no Brasil a mistura do Bluegrass com Hardcore, com parte do seu repertório, principalmente nos primeiros discos, ambientada no ideário do oeste genocida estadunidense do século XIX. As letras cabulosas e o apuro dos arranjos são o catalisador da substância virulenta indispensável na busca por um intangível equilíbrio entre o pessimismo e a motivação cotidiana.

A raiva corrosiva que contamina o som dos caras nos shows é o antídoto pra síndrome da domesticação humana. Em estúdio, o som dos caras já é raivoso sem recorrer a grunhidos e distorções em profusão, somente prazerosos aos ouvidos peculiares de extremados batedores de cabeça. Mas é nas apresentações que o som deles vira trilha apocalíptica para o despejo de toda a raiva que se acumula ao longo dos dias, semanas, meses que antecedem aquela bestialidade ritual. Seja na roda (pogo), ou apenas no coro surdo, a virulência é densa, esfaimada, caótica.

A temática das letras emerge o lado obscuro e brutal do ser humano, num bizarro jogo dos sete erros capitais cujo prêmio final é a tão amedrontadora danação eterna, aqui convertida em oasis estomacal sob o jugo do grande serviçal religioso, o bom e velho Capeta. Sexo, drogas, violência gratuita (se é que existe isso), esquizofrenia, psicopatia, torturas, chacinas promovidas por hippies mitológicos, satanismos lúdicos coroam a morte como fim putrefato da misantropia nossa de cada dia. A natureza humana circunscrita à crueza de seus instintos deformados pela civilidade.

Apesar dos primeiros álbuns explorarem a ficção daquele oeste indômito, através dos dois últimos álbuns de inéditas a banda fez uma transição súbita e esmurrada para os dias atuais. Matanza deixa claro que o mal é atemporal, e que, seja num saloon ou num Shopping Center, o convívio humano está sempre a uma fagulha da combustão coletiva.

Ao contrário do que pode parecer, o trabalho dos caras não prega um estilo de vida ou doutrina social a ser seguida (o que seria pretensioso e estúpido); é sim, antes de tudo, um esforço contra o culto maniqueísta do bem contra o mal, um esforço pela libertação de instintos oprimidos por doutrinas verticais que mutilam o ser humano tornando-o uma figura bizarra, ignorante da sua condição, à beira do colapso furioso.

Esse é o lance do Matanza, algo talvez só possível de se alcançar por uma banda fora do cenário comercial, com mais de uma década de bagagem e a carreira consolidada por centenas de shows por ano indiscriminadamente em qualquer sarjeta que os contrate, literalmente do Rio Grande do Sul ao Amapá. Shows em que a banda soca ininterruptamente contra seu crânio 25 músicas por hora, na mais pura escola Ramones* de cronometria de repertório, comungando com a mais deplorável escória de roqueiros a estetas bizarros que infestam pocilgas decrépitas, num exaustivo ritual, por vezes patético, de transpiração tóxica.

Taí o impacto da banda absorvido após dezenas de shows, mas se você leu isso tudo e achou coisa de “dorme sujo adolescente funcional revoltadinho com necessidade crônica de achar um significado/desculpa/relevância para as merdas que faz”, talvez você esteja mais perto da realidade do que eu. Foda-se! Agora, se o seu problema é com o som dos caras, aí é questão de gosto, cada um na sua.

Guilherme Jorge


(*) Dizem que os Ramones ensaiavam à exaustão para conseguir executar o máximo de músicas no exíguo tempo de apresentação que dispunham no início de carreira, emendando uma na outra e acelerando o riff, tornando o som mais agressivo...

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