segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Você, Eu e A Grande Festa da Democracia



Vivemos numa democracia, certo? Venhamos e convenhamos não é bem por aí. A democracia brasileira consegue produzir situações no mínimo bizarras. Serviço militar obrigatório. Leis sobre as quais sequer somos consultados mas que temos de seguir não importa o quão esdrúxulas sejam... E, claro, o voto. Sim, a grande festa da democracia esbarra no fato de não ser democrática. Sendo que a participação do cidadão na mesma é imposta, passamos bem longe de um Estado democrático nesse quesito. Tudo bem, passamos bem longe de um monte de coisas em nosso país. Mas especialmente no caso de uma eleição, a coisa extrapola. E tem quem caia na piada.

Chamar de festa democrática um processo do qual somos forçados a participar já é violento o bastante. E imagine que obrigam cidadãos a trabalharem para que o tal processo ocorra. Sem contar leis secas (em alguns Estados rola), proibição da tal boca de urna, censura de determinados programas de TV e veículos de comunicação no que diz respeito a se referir dessa ou daquela forma a candidatos, enfim. Tudo isso denuncia que o próprio Estado não confia na capacidade do cidadão de escolher seu próprio destino. Escolher seus representantes ou, simplesmente, escolher não ser representado ou governado. Veículos de comunicação, candidatos (vitoriosos ou derrotados), partidos, gráficas, empresários, comerciantes, investidores, publicitários, enfim, todo mundo lucra com a tal festa da democracia. Todo mundo? Será?

Há um grupo de pessoas, de cidadãos que não se beneficiam. Os eleitores, os militantes, a massa. São os que carregam bandeiras, colam adesivos em seus carros, enfim, sonham viver com dignidade. E enxergam nesse ou naquele candidato a chance de desfrutar uma vida melhor. Sim, acredito na boa intenção de uma boa parte dessas figuras. Confesso sentir uma certa pena de alguns. Mas passa. A raiva acaba se tornando o sentimento 'oficial'. Cada um daqueles imbecis agitando bandeiras, sujando as ruas com panfletos e tentando enfiar suas preferências goela abaixo de qualquer um que cruze seu caminho representa um pequeno ponto de inocência, burrice ou, em alguns casos maucaratismo. Sim. Porque no meio de todas essas pessoas há quem compreenda que tudo aquilo não passa de um jogo. Uma grande brincadeira envolvendo interesses que passam longe do bem comum, do cidadão. E mesmo assim, tomam pra si a 'guerra', transformam a farsa em mote ideológico e partem para a barbárie!

Passada a grande piada democrática (tudo bem, a farsa dura um pouco mais na cidades com segundo turno) me pego pensando em que fim, afinal, terão os diversos tipos de militantes partidários que ao longo de semanas, meses, infestaram as ruas de nossas cidades com suas bandeiras, santinhos, cartazes, sujeira, megafones e carros de som. E claro, que tomaram conta de redes sociais com suas palavras de ordem e discursos altamente falhos. Que fique claro, não me refiro aqueles pobres coitados que passaram dias debaixo de sol tomando conta de cavaletes por R$30 ou R$50 (se é que o pagamento por tal serviço chega a isso...). Estou falando dos idiotas que realmente acreditaram. Os que caíram na pegadinha. Os que não entenderam a piada... Perguntaria diretamente a alguns deles, mas estranhamente essas figuras têm a capacidade de simplesmente desaparecer passado o período eleitoral...

Me pego pensando nos mais diversos tipos de vítimas dos discursos de candidatos, partidos e coordenadores de campanha. Acredito que boa parte dessa audiência simplesmente esqueça o que disse, defendeu, enfim. Pra esses, a ignorância serve de amortecedor. Muitos porque embarcaram numa campanha por notarem tal comportamento em amigos e contatos de internet. Outros porque no fundo, bem no fundo, sequer sabiam pelo que estavam lutando. Repito, pra esses todos a ignorância funciona como analgésico ou, como disse, amortecedor. É fácil esquecer. Deixar pra lá. E quando questionado, o sujeito se safa com um displicente “..nem lembro em quem votei, não gosto de política”. Discurso tolo, já que fazemos a tal da política do momento em que acordamos até a hora de ir dormir. Pensar, inclusive, é um ato político dos mais eficazes. Mas obviamente pensar não é a atividade favorita do tipo de criatura que acabei de descrever.

No entanto, há figuras que me preocupam mais. Não que pessoas que encaram a vida política e a cidadania como modismos, ou assuntos que só tratamos de tempos em tempos não causem preocupação. Afinal, vivem nas mesmas cidades que nós. Dividem o cotidiano, as mazelas causadas pelo Poder Público e os efeitos do próprio descaso. De qualquer forma, há os que despertem minha preocupação em maior grau. São os que notadamente tiveram acesso à informação, tem bagagem cultural e são articulados. Estes se aproveitam dos infelizes do parágrafo acima, muitas vezes sem perceber. É fácil pra esses, admito que em determinados momentos sem a intenção, identificar as massas de manobra. É simples incentivar e convencer esse ou aquele a aderir à sua causa. Seja com um discurso bem colocado num bate papo informal no bar, ou através de campanhas em redes sociais e afins. De qualquer forma, ambos em determinado momento caem em si e somem do mapa. Ou simplesmente esquecem, mudam de assunto ou elegem outras prioridades.

Enquanto isso, seus candidatos colhem os frutos do tal processo democrático. Os derrotados agora têm a exata noção do quanto difundiram seus nomes e suas imagens. E mais, eles agora sabem exatamente quantos de nós cidadãos acreditaram nele, compraram sua ideia. De posse desses dados, podem acreditar: ainda vamos ouvir falar muito de cada um deles. Seja no noticiário político, econômico ou policial. E os vitoriosos? Esses tem a caneta na mão por quatro anos para fazer com ela o que bem entenderem. Pagar com favores os investidores de suas campanhas. Aprovar leis, aumentos de salários, conceder mordomias e ratificar medidas que certamente beneficiarão outros que não o cidadão comum; você e eu. Os militantes? Estes voltam para suas vidas, suas rotinas. Vão sentar na frente da TV e esbravejar diante do noticiário. Vão xingar, criticar, tecer comentários e forjar teorias. O engraçado é que em momento algum olham pra trás e pensam que é a sua participação, seu voto e sua ratificação num processo canalha e antidemocrático que financia os alvos de seu repúdio. Passada a primeira parte do processo, e com boa parte dos resultados anunciados, pergunto a você que acreditou: E agora, quem vai rir da piada?

Rafael A.

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