segunda-feira, 12 de novembro de 2012

As Outras Estações



É possível ser fã de uma banda cujos discos não ouvimos há anos? Vai entender, né? Certas coisas não se explicam. Minha relação com a Legião Urbana é algo assim, inexplicável. Não importa quanto o tempo passe. Sempre que alguém me pergunta se sou fã da Legião Urbana respondo com um 'sim'. Na verdade, um sim meio reticente. Quase sempre me lembro que não coloco um disco da banda no som fazem anos. Mas ainda assim não consigo responder 'não'. Talvez faça um certo sentido, já que conheço muito pouca gente que ouça rigorosamente as mesmas bandas desde sempre. Ou mesmo que nunca tenha mudado de resposta quando perguntada sobre a banda preferida, por exemplo.

Todo aficionado, tarado, maluco por música tem fases distintas. Umas mais lights, outras mais brabas. Mas obviamente, mesmo sem ouvir uma música sequer, aquela banda lá da infância ou adolescência vai te perseguir, ficar na memória não importa o que aconteça. Claro, desde que tenha sido importante pra você por algum motivo. No meu caso, com relação à Legião, já tentei mil hipóteses. Por exemplo: tem o fato de Renato Russo (foto) e sua banda terem sido responsáveis por um de meus primeiros contatos com o Rock, por assim dizer. Culpa de “Faroeste Caboclo” e seus mais de nove minutos, aparecendo vez ou outra na programação da rádio Transamérica. Lá pelos idos de 1993, 1994. Na mesma época Os Paralamas lançavam o ao vivo Vâmo Batê Lata e a mesma Legião Urbana colocava na rua O Descobrimento do Brasil. Depois foi me 'aprofundar' e chegar a Ira!, Violeta de Outono, Plebe Rude e por aí vai (alguns poucos anos mais tarde viriam o Metal, Punk, HC e etc).

Mas a coisa de remeter à adolescência não funciona tão bem. Chega-se então à conclusão mais óbvia: é bom. Ora, por que outro motivo um artista conseguiria marcar tantas vidas, emplacar tantos hits, vender tantos discos e trinta anos depois de seu surgimento ainda soar relevante? Ou 'não alcançado', 'não superado'. Venhamos e convenhamos não há registro de nada parecido com a Legião Urbana na história do Rock por essas bandas, certo? Gostando ou não, não há como não enxergar a relevância das letras e canções de Renato na cultura Pop brasileira. E como classificar, definir Renato Russo? Um artista capaz de hipnotizar multidões em estádios lotados, ao mesmo tempo conseguia transformar um número musical, num distante Jô Soares Onze e Meia em 1989, diante de uma audiência formada por mauricinhos bem comportados em jam session! Devidamente acompanhado de Dado e Bonfá, Renato 'regia' a banda do programa, composta por músicos de formação jazzística. Enfiando Cazuza e Titãs nos três acordes de “Que País É Este?” Só um entre vários exemplos de momentos marcantes de uma mente inquieta, brilhante.

Há quem rejeite solenemente tudo que remeta à Legião. Já ouvi coisas do tipo: “é música pra massa, pra ignorante”, “é brega”, “popular” (de fato, se tornou), “musicalmente pobre”... Discordo! Punk Rock, Pós-Punk, Progressivo (o V é muito prog), Alternativo (tem sim, ouve o Descobrimento do Brasil com atenção...rsrsrs), enfim. Tudo isso, em algum momento, deu as caras em disco da Legião. Uma banda que durante anos foi a referência para público, crítica (para o bem e para o mal) e mercado fonográfico brasileiro. Quanto à simplicidade dos arranjos? Na minha opinião só torna a coisa mais relevante. E duvido que qualquer universitário-hippie-emêpebísta (ou coisa que o valha) consiga apagar essa história, cuidadosamente escrita por Renato Russo, Dado e Bonfá. Duvido, inclusive, que sem o nome da Legião e outros de sua geração estaríamos aqui falando de Rock, cultura Pop e outras questões da forma que falamos hoje.

Felizmente (ou não) a figura de Renato Russo hoje faz parte da história da música brasileira. Eternizou-se. Seja na memória dos fãs que cresceram e amadureceram junto com a banda ou nas visões distorcidas acerca da tal figura do Rock Star que se formam no imaginário popular. Ou nas belas melodias assassinadas por populares noite após noite nas máquinas de videokê espalhadas por aí. E apesar da 'bundamolice' que rege as gerações mais recentes, ainda se percebe o encantamento diante dos versos genialmente construídos. Estranhamente, as novas gerações parecem ignorar as questões políticas, sociais, de enfrentamento, as reflexões e críticas presentes na obra de Renato Russo. Preferem concentrar forças na contemplação à beleza, na catarse provocada pelo encontro de melodias e arranjos das canções. Também pudera: estamos falando da primeira e única banda de 'Rock de arena' que tivemos por essas terras (alguns citariam o RPM, mas discordo)...

As últimas entrevistas de Renato Russo acabaram virando livros. Apesar de debilitado por conta da doença que acabaria o levando à morte, Renato soa extremamente sóbrio, consciente de sua condição e em dia com as novidades do Rock. Numa das entrevistas fala até de Oasis (a grande novidade do Rock inglês na época)! A todo momento cita a juventude, as futuras gerações e os rumos que nosso país tomaria a partir dali. As preocupações presentes em suas letras e na obra da Legião Urbana parecem ter acompanhado Renato até o último de seus dias. E talvez seja esse o grande segredo. Talvez esteja aí o motivo de uma obra, uma banda, uma figura ter cadeira cativa na história de nossa música: viver e sentir o que canta. O tal 'ser verdadeiro' parecia tão natural quanto respirar para o Punk de Brasília que se transformou em mito.

Apesar da galera cult, radicais e moderninhos rejeitarem a obra da banda, não há como negar: Legião Urbana e Renato Russo continuam relevantes na música brasileira. O nível de popularidade alcançado sem 'perder a classe' é definitivamente impressionante. Independente de estilo ou vertente musical, ainda hoje bandas e produtores perseguem um jeito, um caminho ou uma fórmula de causar o impacto junto ao público e ter a longevidade que a obra de Renato, Dado e Bonfá atingiu. Em vão. Não se repete. Homenagens, tributos, reuniões e o que mais acharem por bem fazer tendo como pano de fundo a obra da Legião? Não se chega nem perto...

Da energia Punk do primeiro disco à beleza triste e angustiada dos últimos trabalhos, Renato Russo deixou uma marca, algo que nem os números frios relativos à vendagens e lucros das gravadoras conseguem explicar. Aliás, e como disse no início, também não consigo explicar o fato de ser fã da Legião Urbana mesmo sem ouvir seus discos há tanto tempo. Não consigo nem explicar de onde vem a vontade de escrever sobre Renato Russo e Legião Urbana. Melhor acreditar que certas coisas não são feitas pra serem explicadas. Ou talvez seja como John Lennon, influência declarada de Renato, disse certa vez: “O grande mistério é não haver mistério algum”. Vai saber...

Rafael A.

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