segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

“Pra Onde Vai O Mundo? Pra Onde é que Ele Vai?”



Se não me engano usei esse mesmo refrão dos Replicantes de título para um artigo similar. Sendo que pra este fanzine, a tal 'festa da virada' que acontece daqui a algumas poucas horas não diz absolutamente nada a não ser que precisamos comprar agendas novas, não faria muito sentido desejar seja lá o que for a quem quer que seja. De qualquer forma, vamos ao que na opinião deste fanzine desponta como possibilidades e caminhos para nosso combalido cenário underground, além de algumas reflexões acerca do que rolou em nosso mundinho nos últimos tempos.

É complicado falar de cenário underground como um todo. Explico: É fato que hoje temos um circuito de festivais, selos independentes e canais (principalmente no mundinho virtual) abertos para bandas novas, artistas independentes e afins. Porém, se nota um abismo muito grande entre determinados 'circuitos' e um grupo grande de artistas. Alguns sintomas aparecem de forma bem clara quando, por exemplo, analisamos as escalações dos principais festivais independentes do país. Ou mesmo, numa escala bem menor, quando damos uma rápida passada de olho nos flyers de eventos de pequeno porte que rolam em nossa cidade. Isso funciona pra Niterói, São Gonçalo, Rio de Janeiro e pra outras praças espalhadas pelo Brasil. Normalmente, o que notamos em nossas cenas locais, se reflete Brasil afora, basicamente. Não se trata de determinar o que é bom ou não. Ou o que merece espaço ou não. Mas fica claro que: num momento onde as mídias digitais promovem integração em diversos níveis, ainda não conseguimos olhar para o meio underground como um todo.

Pegando o gancho do parágrafo acima: Olhar qualquer coisa como um 'todo' implica em aceitar que elementos diferentes podem conviver em harmonia. E é sabido que em alguns casos, tal feito é impossível. Tão pouco estamos propondo nenhum tipo de trabalho em conjunto, visando o crescimento da tal cena como um todo e blá blá blá.... Até porque, tais conceitos acabam refletindo apenas a coisa sob a ótica de uma parte do todo. Pluralidade é algo complicado quando interesses pessoais entram no jogo. E, acreditem, eles sempre entram. Mas nada impede que diversas vertentes musicais e artísticas convivam num mesmo cenário. Afinal, o gosto por cultura e a sede de informação são bens comuns a todos os interessados no meio independente. Ao menos é o que se imagina.

Tentando não sair muito do assunto, voltemos às bandas independentes, circuito de shows, eventos e a tal segregação a qual me referia lá no começo. Há alguns anos atrás, aqui em nossa Região, víamos se proliferar eventos tidos como 'grandes'. Na verdade, nada mais eram do que eventos de pequeno porte com uma quantidade enorme de bandas. Uma ou outra atração de renome e pronto! Estávamos diante de mais uma 'Mega Edição do Seja Lá o Que For Fest.' Somando isso às famigeradas cotas de ingressos destinadas às bandas que se apresentavam nesses eventos (o bom e velho pague pra tocar) tínhamos reunidos os ingredientes necessários para promover o esvaziamento total e completo de qualquer cena, em qualquer cidade do interior ou nos grandes centros. Sem apontar culpados. Cada um terá sua justificativa e só nos cabe tentar compreender (ou em alguns casos, não).

Com o tempo, o resultado desse esvaziamento ficava cada vez mais óbvio. Shows vazios e investimentos cada vez menores por parte de produtores. Afinal, ninguém queria arriscar. Arriscar nesses casos envolve, necessariamente, investir em bandas de longe, nomes de peso no cenário nacional, enfim. Ao mesmo tempo, algumas bandas passavam a visar apenas o que rolava longe daqui. Se afastavam. Até porque o cenário aqui não animava. Pagar pra tocar, eventos bagunçados, pouca divulgação, sensação de estar sendo feito de idiota, enfim. Muita gente optou por se afastar. Quem insistiu, ficou no dilema: O que fazer? Encarar a cota de ingressos? Fazer meus próprios shows (a opção mais viável, porém pouco adotada)? Ambos acabariam da mesma forma: Isolados. A onda de festas alternativas atravessava a Baía de Guanabara e os produtores não precisavam mais de bandas. Não precisavam mais de cena, nem de publico interessado no underground. Já que pessoas completamente alheias ao meio agora balançavam o esqueleto ao som de 'róqui'. Era a tal 'gente bonita' dando as caras em espaços onde antes, se fazia arte, se promovia cultura.... E a coisa degringolava de uma vez por todas.

Nada contra o formato festa, que fique claro. Mas porque não mesclar isso com outros conceitos? Agregar valor, introduzir cultura e informação onde havia tão somente entretenimento? Não há nada de errado! DJ`s, bandas, artistas plásticos, poetas e artistas das mais diversas procedências podem dividir um mesmo palco e fazer de uma noite de música mecânica, um evento cultural extremamente saudável. E não que projetos nesses moldes não aconteçam por aí. Mas por aqui, o quadro era basicamente esse há uns quatro anos atrás. E a cobrança por algo além de entretenimento fútil e boçal em nossas agendas culturais procede. Quem já chegou na casa dos trinta lembra o quão estimulante era uma ida a um 'showzinho', como se chamavam os eventos underground de pequeno porte. Bandas com trabalho autoral, fanzines, demos, moda, literatura, flyers circulando pra tudo quanto é lado, enfim. Mesmo entendendo que certas coisas não voltam, insistimos: a coisa pode ser bem melhor...

Mas os últimos anos deixaram alguns ensinamentos valorosos. Pela primeira vez se viu (e sentiu) o abismo criado entre parte da produção musical e artística e o circuito dos grandes festivais independentes. Apesar de terem seu valor, esses festivais devem ser vistos como mais um fator, algo a somar, não a base para um cenário ou seja lá o que for – muito menos um objetivo, ou um fim para o trabalho de uma banda... O Estado, por sua vez, lavou as mãos. Editais, leis de incentivo, premiações e concursos que não contemplam o que se faz no underground: foi o que se viu. Pouquíssimos projetos com real ligação com o meio independente tem vez na farta distribuição de recursos do Poder Público (…). Enquanto produtores modestos e agitadores culturais sonhavam em ter projetos aprovados nesse ou naquele edital, a industria da Produção Cultural se colocava entre nós (os independentes) e a grana (paga com nossos impostos) disponibilizada pelo Estado. Mais uma vez: nada contra seus diplomas, cursos e teorias. Mas é flagrante que o processo de aprovação de projetos via seleções públicas está completamente viciado, ficando cada vez mais distante de quem realmente precisa, quem promove cultura no braço, na raça. Insisto que não precisamos do Estado para existir, se o mesmo quiser contribuir, melhor. Caso não: f%@#-se...

O tempo passou.... E este ano vimos surgir novamente iniciativas saudáveis para o under local. Produtores e bandas parecem tentar juntar os cacos e promover intercâmbios, fazer algo acontecer. E isso é ótimo. Porém continuamos com algumas questões mal resolvidas. A falta de público, ou a recusa do mesmo de prestigiar determinados espaços e projetos, traz à tona uma outra questão: A tal diversidade não tem mais a força de antes. Antigamente era comum ver fãs ou incentivadores das cenas mais díspares convivendo com o mínimo de harmonia em nome da manutenção de espaços e projetos. Sim, tinha-se a noção de que quando determinado evento, bar, espaço ou evento tem continuidade a própria cena independente ganha uma espécie de sobrevida, ou melhor dizendo, se mantém. Há quem atribua essa postura do público à uma questão de gerações. Os mais velhos não se sentem confortáveis frequentando shows, enquanto os mais novos não dão mais valor a absolutamente nada que se faça no meio underground, ou em lugar algum. Estão preocupados apenas com sua atuação em redes sociais e coisas do tipo. Sendo que tal atuação não diz respeito ao meio underground, apenas a questões puramente pessoais. Seja como for, estes não representam a totalidade (ao menos é o que parece em alguns momentos). Menos mal.

Definitivamente, ainda há muito o que fazer. Lembro que no começo de 2012, na matéria que levou o mesmo título desta, meu sentimento era de otimismo. E apesar de alguns percalços, o ano rendeu coisas bem interessantes. Como deu pra notar aí em cima, ainda há muito por fazer. É fácil fazer planos a serem postos em prática ao longo de um ano inteiro. A dificuldade é, ao longo desse ano, ter frieza, serenidade e disposição pra pôr tudo em prática, tudo a seu tempo e da maneira mais consciente possível. É o que planejamos. O sentimento do FMZ e da Latitude Zero Prod. para com o ano que se inicia amanhã é positivo. Projetos serão mantidos. Velhas ideia postas em prática e coisas que já deveriam ser feitas, serão finalmente executadas.

Mais uma vez: este fanzine não participará da festa da virada. Tão pouco se vestirá de branco, de mulher ou coisa parecida. Sem o blá blá blá de votos de prosperidade, concretização disso ou daquilo. O que estar por vir, pode (e deve) ser mudado. O que passou, já foi. A máscara que caiu, não volta (decepções são comuns ao longo do caminho, não assusta mais como antes). Ficar parado é entediante, melhor arriscar e fazer algo não por cena ou coisa que o valha, mas por nós mesmos. Já que somos nós mesmos que carregamos o peso, que viramos a noite, que chegamos primeiro e saímos depois. Somos nós que promovemos cultura, que fazemos arte e (obrigado Papai do Céu!) incomodamos! Se você é um desses imbecis, obrigado por tudo até aqui. E independente do que digam as agendas, calendários e idiotas vestidos de mulher disparando morteiros na rua nesse exato momento: Que venha o novo!

Rafael A.


...E enquanto o mundo explode, nós dormimos no silêncio do bairro... Sinto vontade de fazer muita coisa...” (Chico Science)       

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