segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Aspectos (Ir)relevantes do Universo Pop



Confesso que não sou o maior entendido do mundo quando o assunto é o mercado pop americano. Quando me refiro a mercado pop, também estou falando de bandas com 'sotaque' hardcore, metalcore, pseudo gótico e demais aberrações que a industria musical norte americana cospe semana após semana pro mundo. Também devo admitir que o mesmo mercado está há anos luz não só de nosso mainstream, mas também no que diz respeito a nomes menos relevantes, ou de menor investimento. Seja como for, a quantidade de bandas lançadas com estrutura que possibilita circuitos de shows e trabalho de divulgação é enorme!

Vez ou outra me aventuro à procura de uma ou outra novidade. Às vezes é intencional, em outras ocasiões não. A última foi há alguns dias atrás. A ideia era só dar uma conferida no novo clipe da, adivinhem, norte americana Hot Water Music. Ao final do videoclipe percebi (não tenho intimidade alguma com ferramentas digitais, apenas uso por pura necessidade e pra não me isolar do resto da humanidade) que uma espécie de playlist havia se iniciado: Só bandas com cacoete Pop flertando com sons extremos, sem deixar (claro) de soar accessível ao grande público. Todas provavelmente norte americanas. Nomes como Snapcase, Brend New, Silverstein (foto) e, até onde eu saiba a nem tão nova assim Saves The Day se revezavam. Sempre com clipes bem produzidos, tudo com muita qualidade. De cara, confesso que o que me chamou mais a atenção foi o fato da maioria das temáticas adotadas nos roteiros fazer menção à morte, acidentes, gente sendo sepultada, enfim. Com exceção do clipe da HWM.

Porém o que mais chama a atenção é a citada estrutura que boa parte daqueles artistas dispõe. Ou seja: estamos falando de bandas que não são, necessariamente, gigantes do Rock (ou do Pop) cujos integrantes visivelmente tem condições de (ou podem optar por) se dedicar apenas a suas carreiras musicais. Muitas dessas, e até algumas menos conhecidas, vira e mexe dão as caras em tours concorridas pelo Brasil, com direito a passagens por Chile e Argentina, inclusive. O engraçado é que ao mesmo tempo que uma fatia considerável do público se desespera por um ingresso para um show de algum desses nomes gringos de passagem pelo Brasil outros vagam por aí com qualidades suficientes para figurar no primeiro time do Rock nacional. De cara me lembrei de nomes que participaram da última edição do Rock Noel: Imóvel e Stone House on Fire. Depois me veio uma lista enorme de bandas inscritas para o volume cinco de nossa coletânea virtual PATCH (sai dia 15!!!). Todos com condições de arcarem musicalmente com o peso que uma estrutura similar a das bandas do parágrafo acima requer.

Óbvio, longe de mim questionar a competência, por exemplo, de um Hot Water Music. Excelente banda com uma discografia de causar inveja a muito medalhão do Rock por aí. Mas meu questionamento tem haver basicamente com o fato de, tirando o HWM, boa parte das bandas que assisti na ocasião estar, no mínimo, no mesmo patamar musical de muita banda independente com as quais cruzamos em shows no underground e redes sociais. Aliás, citei o fato de nomes pouco conhecidos na gringa desfrutarem de tours concorridas por aqui justamente pois é esse o ponto: valorizar uma atração internacional ao invés de apostar em quem está ralando e correndo atrás aqui. Sem o blá blá blá de “vamos valorizar o que é nosso e tal...” Estou falando de valorizar o que é bom! Sem passar a mão na cabeça de ninguém: “coitadinho, não tem grana pra gravar...” Não é por aí. Por que fechar os olhos para sons e trabalhos de alto nível que estão a um palmo de distância de nós??? “Mas a banda de fora chega com a moral de ser fenômeno na internet”! E daí? É o respaldo a esse dito fenômeno, através de turnês com ingressos caros e assessoria de imprensa eficaz, que separa determinados artistas internacionais de muita gente boa tocando no bar da esquina de sua casa! Ok, estamos falando da tal industria do entretenimento. Estamos falando de grana...

Definitivamente a indústria fonográfica norte americana é a que movimenta mais dinheiro ao redor do mundo. A partir daí, não é de se espantar que seja a mais influente em todos os aspectos. Inclusive na forma como nomes saídos dela são encarados pelo mercado fonográfico e pela industria do entretenimento ao redor do mundo. Parte-se de um princípio idiota de que 'aquilo é bom pois tem respaldo do mercado americano'. Não precisa ir muito longe: foi preciso artistas e críticos musicais americanos em peso reverenciarem um tal de Tom Jobim pra alguns 'especialistas' por aqui passarem a tratar o cara como gênio. Típico de nossa cultura, certo? E enquanto artistas da Terra do Tio Sam desfrutam de um cenário onde, com um mínimo de investimento e profissionalismo, o tão almejado sonho de se viver da música se torna possível (guardadas as devidas proporções), as brazucas estacionam numa encruzilhada com mil saídas e caminhos possíveis (ou nem tanto).

As majors tentam resistir se fazendo presentes no universo virtual, se enfiando aqui e ali em busca de um Restart ou outro nome com respaldo do público adolescente-tapado-sentimentalóide. E se valendo do controle total e completo dos veículos de massa e da indústria do entretenimento. Controle esse que sim, ainda é delas. Ao mesmo tempo, cada cena, vertente ou filão no independente tenta se armar de uma mistura surreal de pseudo ideologia e profissionalismo de caráter duvidoso. Clipes, gravações de alto nível e festivais de médio e grande porte ainda são restritos a poucos. De alguma forma o que manda ainda é a grana que se tem pra investir (com uma dose cavalar de bons contatos e cara de pau). Fenômenos de internet são SIM 'pré-fabricáveis'. O tal 'ouvinte casual'* deixou de ser exclusividade de rádios populares e trilhas sonoras de novelas. Ele está nos vídeos mais assistidos, nas páginas mais curtidas e nos mais seguidos. O Pop não poupa, o Pop consome e joga fora. E nós, ironicamente, e apesar de ainda importarmos conceitos e sonhos que pouco nos dizem respeito, ainda não aprendemos a lidar com determinados aspectos do famigerado universo pop.

Rafael A.


* O termo foi usado por um jornalista (não lembro o nome e não achei o recorte do artigo aqui) numa das edições do clássico tablóide musical International Magazine, se referindo a quem consome música sem, de fato, ser fã de música. É o cara que entrava na loja de discos perguntando não pelo novo de fulano de tal, mas pelo disco que tem 'aquela música', 'aquela que diz assim....' A mesma que hoje, vai no Youtube à procura da música que ouviu na abertura da novela, no rádio do Taxi ou na barraquinha do camelô.


Confira o novo clipe do HWM, da música “Drag My Body”:

Ouça e baixe o volume quatro da Coletânea Virtual PATCH no link.

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