segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

G.R.E.S Unidos Da Selvageria ou É Assim Que Me Querem



Sábado, 26 de janeiro de 2013  07:30h

O que passo a narrar se passou a menos de vinte e quatro horas. Logo, as sensações descritas a seguir fazem referência ao clima tenso, pesado e negativo que tomou conta da Lapa, bairro mais boêmio da Cidade Maravilhosa a duas semanas do Carnaval. É importante citar que o que vem a seguir não tem absolutamente nada a ver com gostos e preferências estéticas, musicais, culturais ou coisa que o valha deste que vos escreve. Tão pouco me interessa, nesse artigo, contestar a capacidade da Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro de lidar com eventos de grande porte (essa capacidade é altamente questionável, mas não é o caso aqui). Trata-se do relato de um cidadão diante da condição patética a qual seres humanos se submetem em busca de sabe-se lá o quê.

Explicando: A noite do dia vinte e cinco de janeiro, pra este que vos escreve, seria de trabalho na Lapa carioca. Contato com casas noturnas, bares, trabalho de divulgação de um evento e conversas que poderiam resultar em novas oportunidades num futuro próximo. Partia eu rumo ao bairro boêmio. Desde o momento em que peguei a Barca para a travessia da Baía de Guanabara, até o momento em que chegava próximo ao ponto de encontro onde havia marcado com um amigo, na Cinelânida, notei uma grande movimentação por todos os cantos, ruas, travessas e calçadas do Centro da cidade. Pessoas de todas as idades, porem em sua maioria jovens (muitos menores de idade), circulavam de um lado pro outro portando garrafas de bebidas, energéticos e latas de cerveja. E entre gritos, urros, momentos de êxtase desenfreado e panfletagem de religiosos oferecendo a salvação ou coisa parecida, um clima quase que de guerrilha urbana se anunciava. Tudo tinha um ar tenso, negativo. Obviamente, imaginando que algum tipo de evento ou show popular acontecia lá pros lados dos Arcos, vislumbrei a multidão que teria de enfrentar até chegar a meu destino, do outro lado dos Arcos, na Rua Mem de Sá.

Após tentativas frustradas de chegar aos Arcos da Lapa (foto) por absolutamente todos os acessos possíveis, do alto da rua (cujo nome não me recordo) que passa pelo Quartel da PM no Centro podia-se ter uma ideia da situação: Lapa completamente tomada, superlotada, hiper lotada!!! Nem em dias de Carnaval havia visto algo parecido. Simplesmente não se podia circular do Passeio até a Rua do Riachuelo! Uma massa humana descontrolada em uma espécie de êxtase provocado por artistas populares que se apresentavam no palco montado em frente aos Arcos. Novamente gritos, urros e reações incompreensíveis como ataques histéricos e danças populares tomavam conta de cada passagem, calçada, canteiro, muro... Obviamente, o mais seguro seria tentar passar por toda aquela multidão por onde fosse possível se espremendo, pedindo licença (quanta ingenuidade...) e torcendo para chegar do outro lado do bairro antes que as primeiras batalhas campais começassem. Até porque, a partir do momento em que todas aquelas sensações bizarras explodissem, fatalmente seriam em forma de atos violentos.

Falta de planejamento? Irresponsabilidade dos produtores do evento? Como disse, não é o caso aqui. O que de fato me assustou (como jamais havia me assustado em nenhum grande evento ou aglomeração) foi, como disse, o clima pesado. Levei cerca de uma hora para conseguir atravessar a área dos Arcos da Lapa. Durante todo o percurso, o que se via eram montanhas de músculos, saias, cabelos, maquiagens e criaturas em busca de sabe-se lá o quê. Era notória a necessidade de, através de uma postura selvagem, puxões de cabelo e danças bizarras, se destacar de alguma forma. Pareciam tentar preencher alguma lacuna em suas vidas ou, de alguma forma, obter a tal aceitação social diante de outras criaturas que os acompanhavam. Fosse com o êxito de uma investida, um flerte ou cantada ou à base de força. Tudo movido a álcool, bebidas energéticas e música popular. Apesar das mensagens que vinham dos alto-falantes não dizerem absolutamente nada (o texto das letras entoadas pelos 'cantores' eram extremamente pobres) estranhamente o som dos repiques, cavacos e pandeiros detonavam o que de pior parecia haver no íntimo de cada uma daquelas 'pessoas'.

Difícil entender como frases ou questionamentos aparentemente simples, boçais, chulos, como “Quem aqui já sofreu?”, “Quem já amou?” e “Vamos sambar!” quando colocadas no contexto em questão podem soar como detonadores de frustrações e despertar coisas tão negativas numa multidão que aceitava tudo aquilo como a forma mais sincera de arte, de expressão que um povo é capaz de compreender e assimilar. E em meio a empurrões, tropeços, cotoveladas, olhares de nojo lançados na direção de quem não condizia com os padrões da multidão presente, bateu uma tristeza profunda. Não por estar naquela situação. Mas pelo fato das pessoas ali presentes realmente encararem tudo aquilo como diversão. Talvez, como coloquei acima, aquela seja a única forma de consumir cultura que aquelas pessoas conseguem assimilar. E não se trata de pessoas que não tiveram acesso a isso ou aquilo, já que muitas moças e rapazes participando do mesmo ritual bizarro não aparentavam (nem de longe) terem saído de comunidades carentes. Ok, ficava claro que a grande maioria ali vinha de origens humildes, mas não a totalidade dos presentes...

A chuva serviu para dispersar a multidão. Aos poucos a mesma chuva se transformaria em temporal e produziria cenas tão patéticas quanto as que descrevi nos parágrafos anteriores. Pessoas seminuas corriam de um lado pro outro debaixo de chuva, pulando em poças d'água e esgoto com suas garrafas e copos. Meninas eram agarradas com toda brutalidade e eram aparentemente obrigadas a satisfazer as necessidade do ego de montanhas de músculos acéfalas e descontroladas pela quantidade de álcool ingerida. No mesmo panorama, duas moças passavam a trocar puxões de cabelo entre lágrimas e revindicações incompreensíveis. Alguns casais e senhores com suas senhoras, sentados nas mesas dos bares, pagavam suas contas e procuravam uma forma de se desvencilhar daquele quadro macabro no qual haviam sido inseridos compulsoriamente. Manifestação popular? Entretenimento? Cultura de massa? Ou simplesmente selvageria fruto de uma sociedade canalha e de costumes patéticos?

Ao chegar em casa, já pela manhã, fiz uma rápida pesquisa da internet para tentar desvendar o que havia acontecido na Lapa nessa triste noite de sexta-feira. Tratava-se de um festival (amparado por lei de incetivo à cultura...) que comemorava os 350 anos dos Correios apresentava os shows de Péricles e Preta Gil. Do primeiro, confesso que sei tanto a respeito quanto entendo de física quântica. Já a segunda, sei que é filha do 'grande' ex-ministro Gilberto Gil, que tem uma dita carreira musical (que nem a mesma deve levar a sério) e que promove blocos de carnaval onde atos como os citados são tidos como 'normais'. Sinceramente? Fico imaginando o que passa na cabeça de um artista ou de uma 'personalidade' como no caso da filha do 'digníssimo' Gil, ao notar que seu trabalho, sua obra desperta reações como se via por toda a Lapa na noite de ontem. Vender CDs, shows ou abadás não justifica. Não é desculpa aceitável para promover o 'aculturamento' de um povo. Ou mesmo: Tratar o que presenciei como entretenimento, diversão ou atribuir comportamentos selvagens à alegria e vocação de um povo para festividades é ridículo! Nada justifica!

Insisto: Não consigo atribuir nada disso à falta de assistência por parte do Estado. Tão pouco relaciono uma origem humilde ao mal gosto (muito menos a comportamentos comuns a animais). São muito os exemplos de artistas e trabalhos extremamente relevantes fruto de mentes saídas das periferias, das comunidades carentes. Aliás, a riqueza de nossa cultura vem justamente dessas comunidades. E nem precisa ir muito longe: Manifestações como o Hip Hop, o Punk e outras vertentes artísticas têm em suas origens em nosso país o subúrbio como berço. Ainda assim não saberia o que dizer daquelas pessoas, descontroladas, em êxtase, se contorcendo aos berros como se atingissem um objetivo, como se suas frustrações desaparecessem, como se suas vidas fossem mudadas, dignificadas ou como se, enfim, o Estado as tratasse com respeito. Não, não aconteceu absolutamente nada nesse sentido. Nenhuma mudança foi promovida. Nenhum objetivo alcançado. E mesmo que fosse o caso, não faria sentido a reação e o comportamento daquelas pessoas que lotavam a Lapa. E mesmo que no fundo compreenda que a culpa não é exclusivamente delas, ainda assim: Nada justifica o que vi na noite de ontem...

Rafael A.

Estou sonhando de olhos abertos
Estou fugindo da realidade
Todas as cervejas já bebi
Todos os baseados já fumei
O que há de errado no mundo
Meus olhos já não podem ver
Eu estou do jeito certo
Pra qualquer compromisso assumir

É assim que me querem
Sem que possa pensar
Sem que possa lutar
Por um ideal
É assim que me querem
Ao ver na TV todo o sangue jorrar
E ainda aprovar
A pena capital
A pena capital

Estou sonhando de olhos abertos
Estou fugindo da realidade
Todas as cervejas já bebi
Todos os baseados já fumei
E o que há de errado no mundo
Meus olhos já não podem ver
Eu estou do jeito certo
Pra qualquer compromisso assumir

É assim que me querem
Sem que possa pensar
Sem que possa lutar
Por um ideal
É assim que me querem
Ao ver na TV todo o sangue jorrar
E ainda aprovar
A pena capital
A pena capital

É assim que me querem
É assim que me querem

E me vendem essa droga
E me proíbem essa droga
Para os desavisados poderem pensar que o governo combate
Invadindo a favela
Empunhando fuzis
Juntando dinheiro corrupto para a platina no nariz

É assim que me querem
Sem que possa pensar
Sem que possa lutar
Por um ideal
É assim que me querem
Ao ver na TV todo o sangue jorrar
E ainda aprovar
A pena capital
A pena capital

É assim que me querem...”

É Assim Que Me Querem (Ira!)

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