sexta-feira, 8 de março de 2013

A Morte, Ou Coisa que o Valha


Sem querer soar grosseiro ou indelicado, mas: O quão idiotas podem ser as tais homenagens póstumas? O quanto de exagero pode caber na exaltação à uma personalidade depois da morte? Bem dizia um figurão da industria fonográfica nacional, em entrevista ao saudoso jornal carioca International Magazine: “Na música, morto vende mais que vivo.” Na verdade, não só na música, né? Morto vende mais disco, mais jornal, revista, dá mais audiência...

Ok, a morte guarda consigo um poder transformador. Uma espécie de purificação, talvez. Ao menos nos que ficam, os vivos. De outra forma não se explicaria a mitificação de personagens, muitas vezes, comuns, simplórios... ou mesmo, transformar vilões em heróis.... E talvez seja justamente esse poder transformador (ou mitificador) que fez Hugo Chávez alcançar o posto de 'herói latino americano', ou de 'símbolo da luta contra o imperialismo' ou coisa que o valha, para alguns. Ou o poder que alçou o Chorão do Charlie Brown Jr. à categoria de 'poeta do Rock' depois de morto.

Hugo Chávez foi um ditador. E isso não muda com sua morte. Quanto ao Chorão: nunca me desceu a postura marrenta, arrogante e tudo o mais. Tão pouco as letras, de um mal gosto singular. Senão, vejamos: “... Do you wanna gimme girl? / Do you wanna give me o anel? / Do you wanna give me girl? /Do you wanna go pro motel? ..” Perdão, mas não sou intelectualmente capaz de compreender isso como poesia, nem nenhuma outra forma de arte. Tudo bem, estamos falando de seres humanos. Gente que tem família, pessoas que os amam e que certamente estão tristes. Mas transformar a pessoa em algo que ela não é depois de morta (nem enquanto viva, claro) me soa um tanto estúpido, boçal mesmo.

De qualquer forma, mil desculpas se a morte do vocalista do Charlie Brown Jr. não provocou neste que vos escreve um turbilhão de lágrimas. Prefiro lamentar a morte de pessoas comuns, passíveis de erro e compreendidas por todos como, simplesmente, humanas. Como o Cheetos, camarada de São Gonçalo, presença constante em shows undergrounds e que, de uma hora pra outra, se foi. Desapareceu. Ao que parece, na mesma madrugada que o 'poeta' do Charlie Brown Jr. Porém sem flashes, sem noticiário e sem o efeito transformador que certamente o tornaria alguém distante de nós humanos.

O amigo Fabio da Silva Barbosa, em artigo publicado aqui na terça-feira, não estava lamentando a morte do Chumbinho, músico da banda Vitória Régia (que acompanhava o grande Tim Maia), falecido no começo desse mês. Ele lamentava a perda de um amigo, um ser humano e artista talentoso com quem dividiu bons momentos. Prefiro assim: sentir a perda de pessoas comuns. Não a de figuras em capas de discos ou de rostos em noticiários. Prefiro lamentar a morte de gente comum, gente como você e eu.

Rafael A.

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