sexta-feira, 15 de março de 2013

No Meio do Caminho Havia a Noite (pt.I)


O Alvo

Noite quente, clima morno, meio sem graça. Apesar do calor que fez durante todo o dia, poucas pessoas foram pra rua naquela noite de segunda-feira. O lugar, que sempre recebia centenas de jovens em seus bares numa noite como aquela, estava vazio. Estranhamente silencioso e soturno. Apenas meia dúzia de pessoas permaneciam por ali. Bebendo nas mesas postas na calçada e se deixando enganar pelo relógio ao som das últimas músicas que vinham das maquinas nas portas dos bares.


O estabelecimento que vendia a cerveja mais barata era, obviamente, o mais concorrido. Apesar do pouco público presente, todas as mesas estavam ocupadas. O dono do bar, senhor de bigodes, cabeça branca e pouca educação servia as saideiras com a cara amarrada de sempre. Porém dessa vez não fazia muita questão de esconder sua irritação com os clientes que pareciam não ter compromisso algum na manhã seguinte. Cada pedido de saideira era recebido com um balançar de cabeça acintoso, sempre negativo. A cerveja vinha, mas a cara era cada vez pior.


Sentado na mesa de sempre: no canto mais escuro, sempre o mais perto possível do banheiro e virado de frente pra rua bebericava os últimos goles de uma cerveja já quente. Não estava nos melhores dias e, por conta da irritação do senhor atrás do balcão, estava decidido a beber em outro lugar. Mesmo sabendo que a missão de encontrar um lugar pra beber no meio da madrugada naquela cidade não seria fácil, achou prudente se aventurar antes de se indispor com o bigodudo. Empurrou o último gole do que havia sobrado no copo e se levantou. Do outro lado da rua a barraca de cachorro-quente era a esperança de conseguir uma latinha que o acompanhasse até o próximo bar. Ao atravessar a rua notou uma figura que já roubara sua atenção outras vezes. O sujeito era exatamente igual a ele! Mesmo tipo físico, altura, traços faciais, olhos, enfim. Mesmo que as roupas funcionassem como um bom dispositivo para diferenciá-los, a sensação de poder se ver era horrível. Ficava pensando nas inúmeras coisas que poderia aprontar por aí sem que lhe fosse impingida culpa alguma. A bem da verdade, o cara poderia fazer exatamente o mesmo.


Latinha na mão, era hora de sair à procura de um bar que o abrigasse. Não deixou de notar as meninas que, já bêbadas, conversavam entre si rindo alto e tentando chamar a atenção de dois caras que bebiam próximos à barraca de cachorro-quente. Eram lindas. Porém, além do fato de estarem visivelmente interessadas nos dois caras, estavam completamente embriagadas. No final das contas, dariam mais trabalho que qualquer outra coisa. Não compensaria gastar grana ali pois, de uma forma ou de outra, sua noite terminaria solitária, como tantas e tantas outras. Ainda havia alguma movimentação na rua. Pouca, mas havia. Colocou os fones de ouvido e já caminhava na direção da rua principal quando notou um alvoroço. Tirou rapidamente os fones. Ainda conseguiu ouvir uns dois ou três tiros cruzando o ar. As meninas gritavam, os rapazes do outro lado da barraca já jogados no chão e gritos de desespero vindo de todos os lados. Só conseguiu pensar em pular por cima da barraca arrastando consigo pro chão tudo que estava a sua frente. Salsichas, sacos de pão e o que mais apareceu pela frente foi parar sobre ele atrás da barraca, onde o rapaz que servia, já se contorcia e suava entre lágrimas e gemidos desesperados. Uma das balas o havia atingido.


Tudo aconteceu numa questão de segundos. Entre os tiros, a moto que se perdeu na neblina com os atiradores e um carro suspeito que cruzou a rua lentamente logo após a ação dos criminosos deviam ter transcorrido pouco mais de dez ou vinte segundos. Ainda paralisado com a imagem do vendedor de cachorros-quentes ensanguentado a sua frente, foi tirado do transe pelo grito de uma das meninas que, ao levantar a cabeça, viu que uma de suas amigas também havia sido atingida! Mais desespero! Enquanto uns sujeitos saídos sabe-se lá de onde gritavam para que todos deixassem a rua, os gritos das meninas vendo a amiga baleada se transformavam em choro desesperado. Uma delas desmaiou. Nisso, já estava de pé. Atravessou a rua e, por alguns instantes, olhou a cena na outra calçada e, só aí, se deu conta do alívio que, no fundo, sentia. Estranhamente, não pensava em nenhuma das duas pessoas baleadas, apenas se sentia aliviado por estar vivo. Não se sentia mal por isso. Olhava para aquelas pessoas sangrando, caídas na calçada, e se sentia bem por não ser uma delas. Afinal de contas, sequer sabia quantos tiros haviam sido disparados. Quando percebeu o que estava acontecendo já haviam pessoas baleadas e o pânico já havia se instalado... Uma daquelas balas poderia perfeitamente tê-lo atingido...


Já lá pela metade da rua principal, distante uns três quarteirões do ocorrido e com os fones de ouvido recolocados, tentava reviver a cena em sua cabeça. Procurava detalhes, um flash, uma cena perdida com o susto do som dos tiros, qualquer coisa que pudesse dar-lhe uma pista quanto ao que, afinal, havia acontecido. Nada lhe vinha à cabeça. A única coisa que conseguia se lembrar é que, quando levantou a cabeça depois de pular por cima da barraca de cachorro-quente, não viu o cara que se parecia com ele. É, provavelmente a semelhança era meramente física já que o outro, diferente dele, aparentemente conseguiu correr e se esconder sem ter de se lambuzar de molho de tomate ou seja lá o que fosse aquela mancha vermelha na sua roupa. Poderia até ser sangue, já que acabou ciando perto do cara da barraca, e o mesmo havia sido atingido por um dos tiros.


Seja por instinto de sobrevivência, cagaço ou seja lá o que for, achou melhor deixar a rua principal. Cruzou cerca de seis quarteirões. Sempre evitando as ruas principais. Na verdade, não fazia ideia se evitar ruas principais era garantia de estar seguro. Mas o que interessava era chegar em algum lugar o mais rápido possível. Mesmo não tendo a menor ideia de que tipo de lugar estava procurando. Nessa hora, toda sorte de pensamentos paranóicos passavam por sua cabeça: Estariam a sua procura? Quem deu os tiros o viu? Mais alguém sabia que ele tinha estado lá na hora do tiroteio? Alguém poderia tê-lo seguido? Era seguro ir pra casa? Os atiradores poderiam estar por ali à procura de alguma testemunha. Ou mesmo a polícia, que a essa hora já deveria estar pelo Centro da cidade caçando os atiradores.... A última coisa que queira era ser parado pela polícia no meio da madrugada, depois de um tiroteio. E ainda mais com aquela mancha vermelha nas roupas. Nunca se sabe. .. Avistou uma luz vinda de uma esquina mais à frente. Isso! Conhecia aquele bar. Já havia bebido ali algumas vezes e, havia dias em que ele ficava aberto até o dia clarear mesmo durante a semana. Já havia feito amizade com um ou outro frequentador e a moça que ficava no balcão parecia interessada nele. Ela poderia acolhê-lo e, quem sabe, resolver o problema das manchas nas roupas. Em algumas horas amanheceria e ele poderia voltar pra casa se sentindo mais seguro...

Continua..

Rafael A.

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