sexta-feira, 22 de março de 2013

No Meio do Caminho Havia a Noite (pt.II)


Teorias

Da esquina conseguia ver uma ou duas mesas ocupadas. Era assim quase toda noite. A vida noturna do Centro não era das mais movimentada já fazia um bom tempo. Ainda com a cena do tiroteio na cabeça, atravessou a rua tentando não chamar muito a atenção. Afinal, as manchas vermelhas na roupa deviam estar bem aparentes. Por sorte (e graças ao estado dos presentes) ninguém pareceu ter notado sua chegada. Passou apressado pelo salão e foi direto pro canto do balcão. A moça que atendia veio correndo assim que o viu. O entusiasmo habitual deu lugar a uma expressão de medo assim que a menina percebeu as manchas vermelhas nas roupas. Tentou uma explicação que envolvesse um acidente na cozinha pra justificar as manchas. E exatamente como fazia toda vez que mentia: gaguejou, se embolou com as palavras, perdeu o fio da meada e, após um curto monólogo, ele mesmo percebeu que não havia convencido a menina:

          - Não entendi nada. Mas entra aqui, tira isso. Não sei o que aconteceu, mas você parece assustado. Tem uma roupa do meu irmão, ele deixou aqui hoje cedo! Vou pegar pra você! Como é que alguém consegue se sujar assim de molho de tomate???

              - Olha, eu agradeço, mesmo...

             - Imagina. Já vi tanta gente em estado pior..hahaha! Tomate não é nada perto de um tiro, né? Imagina que até gente baleada já apareceu aqui??? Aliás, era bem parecido com você... Vai lá, se troca que a gente conversa depois!


De qualquer forma, a história envolvendo molho de tomate seria a oficial daqui por diante. Nem lembrava de ter mencionado qual tipo de molho estava preparando quando o acidente aconteceu. De qualquer forma, eram manchas vermelhas. Logo, tomate era a conclusão mais óbvia. Pegou as roupas da mão da garota e foi para um canto do bar, mas precisamente entre um freezer e o fogão (devidamente rodeado de sujeira, baratas e com um cheiro insuportável). Fora jurar a si mesmo que jamais comeria ali novamente, só deu tempo de notar que o irmão da menina era umas duas ou três vezes maior que ele e que tinha um péssimo gosto para se vestir. A garota deu-lhe um beijo e o arrancou de lá com medo de que o empregado que servia as mesas percebesse alguma coisa.

Ao passar pro outro lado do balcão, avistou sua mesa favorita. Sempre no fundo, perto do banheiro. Mas ao se dirigir até ela foi interrompido por um aceno que vinha de outra mesa, do lado de fora do bar. Não um aceno qualquer, mas do tipo chamativo. Daqueles que não dá nem pra fingir que não viu. Já havia bebido com aquele cara certa vez. O gosto por música e cultura pop acabou aproximando os dois numa ocasião qualquer. Não lembrava muito bem o que haviam conversado. Mas não esquecia a fisionomia assustadora, olhos arregalados e voz grossa. O cara já foi se levantando e puxando uma cadeira pra ele:

          - Fala meu irmão! Anda sumido, hein? Faço questão de tomar uma contigo. Senta aqui!

          - Como é que vai? Verdade, tenho andado sumido. Sabe como é...

Não deu nem tempo de explicar nada. O cara disparou a falar:

       - Cara, viu o clipe novo do Bowie? Fala sério! Um cara como ele não merecia isso! Tinha que se aposentar! Cheio de disco foda na carreira e me apresenta uma musiquinha mais ou menos daquela??? Por isso que eu respeito os Stones! Só aparecem quando convém e enchem o rabo dos fãs de coletânea, disco ao vivo.... Sacou? Sem decepções!

          - Olha, não é bem assim... Os Stones deram uma bolas fora ao longo da carreira. Não tem só discão na carreira. E álbum ao vivo também pode decepcionar, né? Mas sabe como é, são os Stones. A crítica não cai de pau.

          - Cara, mas o Bowie também tem moral com crítico. Eu não tô me baseando em nada que eu li. Ei vi! Assisti umas quinze vezes o clipe novo do cara e não rolou! Muita produção pra uma musiquinha fraca! Ele não precisa disso! Podia estar numa ilha, na dele, só curtindo uma praia, sem se arriscar, entende?


Ainda estava confuso com tudo que havia acontecido até ali. Afinal, a ideia de que havia escapado da morte não era algo tão simples de digerir assim. Mas achou que o ideal era embalar na conversa pra tentar não pensar no ocorrido. E, claro, agir o mais naturalmente possível pra não levantar nenhuma suspeita. Mesmo não tendo feito nada era, no mínimo, testemunha de um crime. E queria distância de tudo aquilo: polícia, depoimento, um possível reconhecimento de corpos ou mesmo de suspeitos! Enfim, só queira agir como se nada tivesse acontecido, esperar o dia clarear e voltar pra casa. Resolveu dar corda pro camarada do outro lado da mesa. Chegava outra cerveja:

          - Muito obrigado, minha querida... Mas como eu ia dizendo: essa parada que o Bowie lançou não desceu ainda pra mim! Mas se liga: Tu tá ligado que o Pink Floyd colocava um monte de mensagem subliminar nas músicas, nos encartes... Tu sabe disso, né?

          - Cara, do mesmo jeito que o Radiohead enfiou um número de telefone no encarte do Ok Computer. Daí o cara ligava pro número e ouvia uma mensagem de secretária eletrônica gravada pelo Tom York. Fala sério, isso funciona pra fanático desocupado, né?

          - Não, não! Não senhor! Isso é coisa séria, meu irmão... Nos anos setenta o Led fez isso direto!

- Cara, eu não vou discutir isso contigo. É o mesmo que girar disco da Xuxa ao contrário pra encontrar seja lá o que for! Ridículo! Vem cá: e o Bad Religion novo, achou o que?

          - Bicho, eu nem ouvi. Tu já sabe que pra mim essas paradas de Punk Rock é tudo a mesma coisa, né? Sem graça, sem sal... Daí metem um 'melódico' lá no meio pra popularizar o bagulho e a molecada compra a ideia.. Melódico aonde? Não tem melodia nenhuma naquilo! Só gritaria!!!

          - Não é bem por aí não... Os caras são os mestres!

          - Meu irmão, eu quero falar de coisa séria! Tá ligado que o Yes vem aí, né?

          - E daí?

         - Eu vou dar um jeito de entrar no camarim desses caras e mostrar meu caderno de letras pra alguém da banda!

          - Nossa mãe..!!! Pra que isso? Tá maluco?

          - Eu te falei dessa parada: eu tenho um álbum pronto pra alguma banda de Prog lançar. Tá tudo esquematizado. As letras tão no caderno e as melodias eu decorei. Os caras são feras, eu faço os sons com a boca e eles vão tirar nos instrumentos!!! Eu anotei tudo, as mensagens secretas, os detalhes da capa, tudo!!!

          - E ainda tem mais essa...rsrsrsrs???

          - Cara, eu tô falando: maçonaria, nova ordem mundial, vai tá tudo no disco!

          - Putz, fala sério... Vai, pede mais uma.

          - Você paga?


O cara era boa gente. Mas no meio das conversas costumava dar umas piradas. Um misto de músico frustrado com tarado em Teoria da Conspiração. Se fosse na década certa tinha tudo pra formar um público bacana. Mas como o pessoal do ácido hoje tá no Eletrônico e no Sertanejo Universitário, já era... Haviam comentários de que ele até que era bom. De vez em quando fazia um som ali mesmo no bar. Mas como era de se esperar, música falando de disco voador e de homenzinho verde enfiando chip nos outros não fazia muito sucesso entre os populares.

Última cerveja no fim. O dia começava e os primeiros raios de sol da manhã soavam como o aval para uma volta pra casa mais tranquila, segura. Despediu-se de seu companheiro de mesa, foi até a garota do balcão e agradeceu as roupas prometendo voltar no fim do dia para devolvê-las. Ao sair, notou uma viatura da polícia estacionada na outra esquina, quase de frente pro bar onda estava. Pensou que talvez ela pudesse ter estado ali durante todo o tempo em que ele permaneceu no bar. Quem sabe vigiando!?! Mas já com mochila nas costas, fones postos e pronto pra sair, retornar pra mesa chamaria muito a atenção. Ficaria muito claro que sua desistência tinha a ver com a presença daqueles policiais ali. Saiu caminhando normalmente, no que foi interrompido por seu companheiro de cervejas daquela noite, em tom sinistro:

           - Vai em paz meu camarada. Fica tranquilo que o que rolou lá não vai dar em nada não, beleza?

            - Como assim? Tá falando do que?

          - Relaxa... Vai pra casa e descansa. Uma hora as coisas se ajeitam. Os polícia ali tão atrás de outra parada, um maluco que matou a mulher e fugiu pra cá, outro lance... Não é contigo. Vai numa boa.

          - Cara, não sei do que você tá falando. Vou indo nessa.

Apertou o passo e saiu. Sem olhar pra trás, sem parar pra nada. Só respirou quando estava dentro de casa, a salvo. 

Continua...

Rafael A.

Nenhum comentário:

Leia também: