sexta-feira, 29 de março de 2013

No Meio do Caminho Havia a Noite (pt.III)


Planos e Esquemas

Ainda pela manhã, já estava de pé. As poucas horas de sono ainda conferiam-lhe algumas olheiras, mas nada muito diferente do habitual. Apressou-se em lavar as roupas que havia pego emprestadas com a menina do bar. Com o sol que fazia, estariam secas ao final do dia. Prontas para serem devolvidas ao dono. As suas, manchadas de vermelho, provavelmente ficariam inutilizadas. Fosse aquilo molho de tomate ou sangue, seria difícil de tirar manchas daquele tamanho. E sendo que afazeres domésticos não eram o seu forte... Só depois que terminou o trabalho no tanque e estendeu as roupas no varal da área de serviço, se deu conta que, diferente do que faz sempre que chega em casa, não ligou computador, abriu a geladeira nem nada do tipo. A mistura de cerveja, noite em claro na rua e o stress causado pelo episódio do tiroteio deixaram-no exausto. Na verdade nem se lembrava de ter trancado a casa, ou apagado as luzes. Na memória, apenas o momento em que virou a esquina da rua e avistou seu portão. Dali até o momento em que acordou naquela manhã, nada.

Estranhou que o computador estivesse ligado. Lembrava de ter desligado antes de sair, mas não lembrava de tê-lo ligado ao chegar. E só depois de cochilar na sofá da sala e acordar horas depois pra conferir as roupas no varal, percebeu que havia um recado em sua geladeira. Dizia: “Fique calmo. Pegaram o cara errado. A bala era pra ter acertado você, mas isso agora ficou pra trás. Acham que é você naquele caixão. Melhor que pensem assim. Viu só? Eu falei que tudo se acertaria.” O coração disparou freneticamente. Quem poderia ter deixado aquele bilhete? Como entraram em sua casa? Quando foi isso? E mais: de que caixão falava o bilhete? Quem estava sendo enterrado? Correu pra conferir as fechaduras, portas, janelas, tudo! Nenhum sinal de que alguém pudesse ter estado ali sem o seu consentimento. As palavras lhe lembravam as o cara do bar. De fato, ele havia dito que tudo se acetaria. Mas como ele podia saber de alguma coisa? Fora o fato de tê-lo visto chegar no bar com as roupas manchadas de vermelho... E mesmo assim não explicaria o bilhete na geladeira! De qualquer forma, alguém havia estado em sua casa. E mais alguém sabia que ele estava naquela rua na hora dos tiros.

A única coisa que pensou foi em apagar qualquer vestígio que pudesse ligá-lo ao ocorrido na noite anterior. As roupas manchadas foram rapidamente queimadas nos fundo da casa. As que pegara emprestadas, depois de secas, foram passadas e empacotadas para serem devolvidas ao dono. Seria a última vez que pisaria naquele bar. E, de preferência, numa hora em que o tal sujeito não estivesse por lá. Ligou a TV, estava na hora do noticiário da tarde. Deu de cara com as cenas do enterro da vítima do tiroteio da noite anterior! Paralisou! Gelou! Suas pernas tremiam! Era como se fosse ele ali! O cara que havia notado na noite passada, idêntico a ele e que havia desaparecido na hora dos tiros estava sendo sepultado na TV, diante dele! A matéria encerrava assim: “A polícia não tem pistas dos motociclistas que atiraram no grupo de pessoas na noite de ontem, no Centro da cidade. Ela agora está à procura de um rapaz que teria deixado a cena do crime logo após os tiros. Todos que lá estavam permaneceram na cena do crime e foram ouvidos, menos esse rapaz. Que segundo testemunhas tem envolvimento com o tráfico local.”

Trancou tudo e saiu de casa com todo o dinheiro que tinha guardado. Pensou em uma série de possibilidades. Poderia estar mesmo sendo procurado pela polícia, ou pelos atiradores! Afinal de contas o bilhete dizia que os tiros eram pra ele! Na hora dos tiros, o cara parecido com ele simplesmente despareceu. E agora aparece morto? Sabia que não tinha nada a ver com tudo aquilo. Tão pouco conseguia imaginar motivo pra que alguém quisesse matá-lo. Seja como for, não queria estar desprevenido em caso de emergência. Se fosse preciso, pegaria um ônibus pra qualquer lugar distante dali, uma cidade no interior, na serra, vai saber...

Independente do que decidisse fazer, tinha de devolver as roupas que lhe haviam sido emprestadas pela garota do bar no dia anterior. Ela sequer tinha alguma coisa a ver com toda aquela confusão. Decididamente, não passava de uma grande confusão, pensou. Ao chegar no bar encontrou o lugar vazio, mesas postas esperando os clientes que naquele horário deviam estar saindo do trabalho. Logo o lugar estaria cheio como de costume. A garota saiu de trás do balcão, ajeitando o cabelo e colocando o avental no lugar:

        - Olha quem apareceu! Não precisa explicar nada, seu amigo já me contou tudo. Aliás, ele deve ser muito seu amigo. Depois que você saiu ele ainda deu um jeito de enrolar os guardas que queriam ir atrás de você! Quando eles desistiram de te pegar no caminho pra casa ele ainda foi correndo te encontra pra ter certeza de que você havia chegado em segurança! Que amigão, hein?

         - Como assim? Só falei com ele aqui no bar. Não o encontrei nem indo pra casa nem em lugar nenhum depois de ontem!

         - Tudo bem, eu entendo. Ele explicou que você atirou no cara por causa de mulher, essas coisas.. Acontece.

         - Quem atirou em quem? Como assim? Nunca fui casado, nunca atirei em ninguém! Que história é essa?

         - Tranquilo. Relaxa... Ele só pediu pra você encontrar com ele no supermercado, aquele que fica aberto 24h, sabe? Pediu pra você ir lá depois da meia noite. Ele disse que era importante...


Deixou as roupas com a garota e saiu completamente desorientado do lugar. Precisava de uma cerveja pra pensar no que havia acabado de ouvir. Como assim ele atirou num cara? Por causa de mulher? Com certeza não se tratava da mesma pessoa! Devia ser o cara que enterraram naquela manhã. Era idêntico a ele! E frequentava o mesmo bairro! Mas se foi isso, como explicar que quem quer que tivesse atirado em seja lá quem for, já estava morto e enterrado àquela altura? E o maluco do bar? O que ele poderia querer à meia noite num supermercado? A coisa estava ficando tão complicada que, num dado momento teve certeza que não era com ele. Coincidência, confusão, vai saber... Certo mesmo é que ele não tinha nada com aquilo. Decidiu: depois de ver o que o maluco queria com ele (e porque estava envolvendo ele numa história como aquela) iria se apresentar na delegacia. Não era culpado de nada, não tinha nada do que ter medo!

Achou um bar perto do tal supermercado. Já havia estado ali com uma amiga prostituta. Apesar dos preços serem caros, ela gostava de ir ali pois dizia que se sentia bem pagando caro pelas coisas. Fazia ela se sentir bem sucedida, enfim. Não era seu caso. Mas como era tranquilo, quase sempre vazio e perto do local onde iria encontrar o tal figura, achou melhor ficar por ali mesmo. Uma, duas, três, sete cervejas ao todo. Por volta das onze e meia da noite já estava ligeiramente bêbado. E no final das contas preferiu que fosse assim... Aproveitou e pensou em todas as coisas que iria fazer assim que tudo aquilo passasse. Hora de ir. Respirou fundo e partiu pro local do encontro. Cerca de dois quarteirões dali. Raios cruzavam o céu e uma tempestade parecia estar pra chegar em muito pouco tempo. Apertou o passo. Quase corria. Não sabia se andava apressado para fugir da chuva ou se para chegar logo ao local e resolver tudo aquilo.

Continua...

Rafael A.

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