segunda-feira, 15 de abril de 2013

A Grande Cagada



Na noite da última sexta-feira parti de Niterói rumo ao Saloon 79, em Botafogo, Zona Sul carioca, para assistir ao show de nossos amigos aqui do FMZ da banda Kopos Sujus. A banda se apresentaria em evento promovido pela A Grande Roubada. Evento este que contaria com a participação da banda paulista Blind Pigs. A banda apresentaria o show de sua tour comemorativa de vinte anos. Já tive a oportunidade de assistir a pelo menos meia dúzia de apresentações da banda. Trata-se de um excelente show. Sendo assim, e visto o reconhecimento obtido pelos caras no cenário independente nacional, é claro que a expectativa era de casa cheia (qualquer um chegaria à essa conclusão sem muito esforço)!

Como já informamos a quem acompanha nosso fanzine, na edição #17 de nossa versão impressa, o FMZ passou a ter seus pedidos de credenciamento para cobertura de eventos promovidos pela A Grande Roubada ignorados. Isso passou a ocorrer entre meados de 2011 e o começo do ano passado. Mesmo já tendo recebido elogios quanto a nosso trabalho de um dos envolvidos na produção da A Grande Roubada nossas solicitações para cobertura passaram a ser simplesmente ignoradas. A partir daí, o FMZ passou a fazer o mesmo: ignorar. Não esperamos ser tratados com nenhum tipo de distinção ou desfrutar de privilégios. Apenas fazemos questão de que nosso trabalho seja encarado com o mínimo de respeito. Como todo veículo underground merece.

Claro, após tudo isso a questão é: O Que afinal fui fazer no Saloon 79 num evento promovido pela A Grande Roubada??? Fui à casa localizada no bairro de Botafogo a convite de meus amigos da banda Kopos Sujus. Há pelo menos três semanas, a banda me informou da apresentação que fariam no evento abrindo o show da banda paulista. E há pelo menos duas semanas já havia a confirmação por parte deles de que meu nome estaria em sua lista de convidados. No último domingo, estive com dois dos integrantes da banda em show na Lapa, quando mais uma vez confirmaram que este que vos escreve era convidado da banda no show do dia 12/04.

Dia do show.: Cheguei na Rua Pinheiro Guimarães, na altura do número 79, local onde seria realizado o evento exatamente às 19:50h. Haviam quatro pessoas na área externa. Duas delas vestiam camisas da casa. Sendo, assim, facilmente identificadas como funcionárias. O aparato comumente usado para controlar a entrada (mesa na porta com funcionário entregando as comandas e tudo o mais) sequer estava montado. Entendendo que o evento ainda levaria algum tempo para começar, e não vendo motivo para ficar parado, em pé e a seco na porta do local, fui para o Bar do Jerônimo (que já participou, inclusive, de nossa coluna Test Drive de Buteco, justamente por conta de nossas idas a shows no Saloon 79). O Bar do Jerônimo fica exatamente na mesma calçada do Saloon 79. De um local até o outro não se gasta mais que dois minutos caminhando (provavelmente menos que isso).

Permaneci no bar por cerca de uma hora (nesse período, inclusive, passaram por lá as duas funcionárias que avistei na porta do local quando cheguei). Por volta das 21:00h voltei ao Saloon 79 para me informar quanto aos horários. Mais uma vez, não havia nenhum tipo de movimentação que indicasse que o começo do evento estava próximo, ou mesmo que uma fila para a entrada ou algo parecido começaria a se formar. Encontrei apenas uma das meninas com camisa da casa, dando informações a três pessoas (também vindas de Niterói para o show). Ainda pude ouvir quando a mesma informou às pessoas que a casa abriria às 22h. Voltamos, eu e as pessoas que estavam por lá, para o mesmo Bar do Jerônimo. Mais adiante vai ficar claro o porquê de tantos detalhes, certo?

Por volta das 22h, ainda estava no mesmo bar, inclusive, com dois dos integrantes da banda Kopos Sujus, que mais uma vez confirmaram meu nome em sua lista de convidados. A banda faria o show de abertura. Sendo assim, enquanto os dois integrantes ali estivessem, era óbvio que o evento não começaria. Por volta das 22:30h fomos para a porta do Saloon 79. Cheguei lá exatamente junto com os integrantes da banda da qual era convidado. Havia uma aglomeração na calçada e uma fila, à princípio, grande. Fila essa que, aos poucos, foi diminuindo à medida que alguns entravam no local e outros iam desistindo. Sem maiores preocupações, permaneci na fila junto com outro convidado da banda. Os integrantes do Kopos Sujus entraram para começar seu show. Logo chegaria minha vez de entrar no local...

Vem do segurança a informação de que a casa estava lotada. E que para mais alguém entrar teria de ser necessário esperar que alguém que estivesse dentro, saísse. Levando em conta que, segundo me foi informado no bar pelo pessoal de Niterói que encontrei, houve venda de ingressos antecipados (fora uma carga destinada à venda na hora do show), não me preocupei. Afinal, se há lotes de ingressos para venda antecipada, na hora, e uma lista de convidados para um determinado evento, estando eu com meu nome entre os convidados de uma das bandas, não haveria problema. Imaginei que houvesse todo um desencontro causado pela grande quantidade de pessoas na entrada, enfim. Num dado momento (torcia para que antes do show que me levou até lá, o da banda Kopos Sujus) as coisas se acalmariam e ao menos os convidados que ali estavam entrariam na casa...

Me enganei. Ainda permaneci na fila durante alguns minutos. Eu, outro convidado da banda Kopos Sujus e mais um casal, vindo de Cabo Frio, na Região dos Lagos para o show a convite da banda principal. Falatório, pedidos de explicações por parte da casa e/ou da produção do evento e eis que os responsáveis pelo evento chegam na entrada. Imaginava-se que as coisas se resolveriam naquele momento. Mais um engano...

Tive contato com duas pessoas que, aparentemente (não se apresentaram formalmente), respondiam pelo show. Uma delas, após informar que deveríamos ter chegado cedo e permanecido na fila, e após ouvir de mim que havia chegado lá por volta das 20h (conforme citado acima) e que sequer havia uma fila ou mesmo uma entrada montada na casa, respondeu da seguinte forma: “Você chegou cedo mais foi pro bar beber, não reclama!!!” Disse isso e se retirou. Sinceramente não acho que seja merecedor de tanta atenção. Ser notado ao ponto de alguém saber, inclusive, que fui para um bar (quem me conhece sabe o quanto esse tipo de estabelecimento me encanta)... impressionante... Outra pessoa respondendo pelo evento se aproximou da entrada. As alegações eram as seguintes: “Diminuíram a capacidade da casa depois que já havíamos anunciado o show!”, “Quem comprou antecipado vai entrar!”, “Avisamos no Facebook que era pra chegar cedo!” e, o mais difícil de engolir, “As bandas enviaram suas listas horas antes do show. E não especificamos um número de convidados”...

Entenderam o porquê de ter explicado detalhadamente o que se passou desde minha chegada ao Saloon 79? Vamos lá então: É óbvio que quem comprou ingresso antecipadamente tem que ver o show pelo qual pagou. Diminuíram a capacidade da casa depois que anunciaram o show e todo o aparato de ingressos e tudo o mais já estava disponível ao público? Mudem o local do evento para um espaço que comporte o número de ingressos postos à venda e o número de convidados estipulado pela produção. Quanto às bandas passarem suas listas de convidados horas antes do show e não haver um controle quanto ao número de convidados que as mesmas dispunham: o que nós, o público, sejamos pagantes ou convidados, temos a ver com isso????

À essa altura, a banda Kopos Sujus já estava na palco. A mesma pessoa (a segunda) que veio até a porta, alegava que “...após o primeiro show muita gente vai embora, aí vocês entram..” Como assim? Quer dizer que a uma produção trabalha com a hipótese de que a banda de abertura atraia mais pessoas a seu show que a atração principal de um evento? Contando que a maioria interessada no show de abertura deixe o local para os que estão do lado de fora possam entrar? Acharia ótimo que o show do Kopos Sujus atraísse mais gente que a banda principal, seria merecido, por conta de todo esforço e dedicação dos caras. Mas sabemos que a maioria dos presentes ali estava por conta da banda Blind Pigs (reconhecimento igualmente merecido, creio eu).

Um pouco antes de desistir e voltar para o Bar do Jerônimo (deu um show de organização, já que rapidamente conseguiu DVDs de 'Rock' para agradar o público que bebia por ali antes de tentar entrar no show), em meio a discussão, mencionei que era o editor do Feira Moderna Zine numa tentativa de esclarecer que não estava ali por nenhum outro motivo que não o show de meus amigos (que naquele momento já caminhava para seu final, creio eu). Aí sim a coisa ficou complicada de compreender. Ouvi da tal pessoa o seguinte: “Se você estivesse credenciado como imprensa, já estaria lá dentro.” Ora, mas a capacidade da casa não estava esgotada??? E, sem querer me aprofundar na questão: não haveira a menor possibilidade de estar ali em nome do FMZ sendo que para A Grande Roubada o FMZ simplesmente parece ter deixado de existir de uns tempos pra cá. A pessoa negou que nossos contatos com A Grande Roubada fossem ignorados e blá blá blá...

Insisto que não fui ao Saloon 79 na última sexta em nome do FMZ. Fui a convite da banda Kopos Sujus. É claro que publicaria algo sobre a apresentação da banda. E havendo o show do Blind Pigs, este teria de ser mencionado (seria uma idiotice não fazê-lo). Logo, estaria sim fazendo uma cobertura do evento mesmo já tendo decidido não mais citar A Grande Roubada no Feira Moderna Zine (como estou fazendo agora). Achei que valia a pena por causa do Kopos Sujus, mesmo. Como disse, já assisti ao Blind Pigs meia dúzia de vezes, e duvido que eles precisem de um artigo ou seja lá o que for aqui no FMZ sendo que já desfrutam de popularide e reconhecimento, fruto do belo trabalho realizado ao longo de seus vinte anos de atividades.

Aliás, esse desabafo não tem nenhum outro motivo que não o fato de que, se soubesse o que encontraria em Botafogo nessa noite de sexta-feira, teria ficado em casa! Como quase todo mundo, tenho compromissos e questões financeiras que relevo, ajeito daqui e dali para estar presente em um evento (como faço desde minha adolescência, lá nos anos noventa, inclusive). Aliás, deixo aqui bem claro que nenhuma das bandas anunciadas para o evento tem nada a ver com toda essa confusão. Todos do Kopos Sujus desfrutam de confiança e crédito total e irrestrito com o FMZ. São a capa de nosso FMZ#16 e participam de nossos projetos, sempre de forma positiva, sempre somando. Tenho certeza absoluta que nada disso partiu ou teve a participação de nenhum deles.

Resumo da ópera? Conta simples de se fazer, qualquer um é capaz: Capacidade da casa = Ingressos para venda antecipada + Ingressos para venda na hora + Número de convidados estipulado pela produção (sejam eles imprensa, amigos, 'personalidades da cena' ou qualquer outro tipo de criatura). A soma das pessoas dentro da casa nem pode ser igual à capacidade da mesma (tem necessariamente que ser menor, inclusive). Mas é claro que A Grande Roubada sabe disso. Já fizeram eventos em outros espaços, com bandas gringas e grandes nomes nacionais. Tanto é que nós mesmos do FMZ indicamos o evento como destaque em uma de nossas listas de final de ano (não me recordo de qual). Mesmo entendendo que tal indicação não significa nada para A Grande Roubada, uma vez que, pra eles, não existimos... Como não comecei a frequentar shows ontem, já vi e vivi bastante coisa no meio underground. Entendo perfeitamente (como músico, fanzineiro e produtor cultural) as dificuldades de se trabalhar com cultura, principalmente no meio underground carioca. Mas ser tratado como palhaço, não rola.

Em tempo: fui informado que lá pela metade do show do Blind Pigs, mais pessoas que estavam do lado de fora conseguiram entrar. Sinceramente? Não fico parado em porta de show 'tentando entrar'. Vou a shows ou com ingresso comprado, devidamente credenciado ou como convidado da produção ou de alguma banda. Sempre foi assim e não há nenhum produtor que tenha uma vírgula pra falar do trabalho do FMZ, de minha postura ou de meu caráter. Mudando de lado, como produtor, trato público e bandas com respeito em nossos eventos (repito: sei das dificuldades, me dedico ao meio underground a pelo menos quinze anos). Sendo assim, quando vou a algum evento como músico, expositor ou mesmo como público (pagante ou convidado, não faz a menor diferença), quero ser tratado com respeito, como qualquer cidadão que sai de casa em busca de cultura e entretenemento no seu tempo livre. E não rolou respeito nessa noite de 12/04. E sendo que já somos (cada um de nós) desrespeitados, agredidos e massacrados pelo Estado, dia após dia, minuto após minuto: não precisamos de mais desrespeito, principalmente no underground.  

Rafael A.

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