sexta-feira, 5 de abril de 2013

No Meio do Caminho Havia a Noite (pt.IV - final)


Ciclo

Tempestade desabando lá fora. Mercado vazio. Só se ouvia, ao fundo, os auto falantes que tocavam versões soft de sucessos radiofônicos. E até que uma ou outra lhe soavam interessantes. Deu uma boa andada por todas as seções. E mesmo já tendo passado pelos frios uma três vezes, só na quarta avistou o cara do bar. Debruçado sob um freezer com cara de entediado. Parecia estar ali há um bom tempo. Diferente da última vez que haviam se visto, quando foi recebido com entusiasmo, a discrição e um tom formal davam o tom do encontro:

          - Enfim você chegou.

         - Cara, você tem alguma coisa pra me dizer que explique ter polícia atrás de mim, uma ex mulher que eu nunca tive morta, gente entrando na minha casa de madrugada... aquele bilhete na minha geladeira....

         - Calma aí, eu explico.

         - Adoraria uma explicação, por favor.

         - Então vamos lá: Você já ouviu falar da história de um cara chamado Stephen Fry? Tá no encarte do primeiro do Zeca Baleiro.

         - Cara, eu não vim aqui pra falar de música. Eu quero saber...

         - Vou chegar lá, fica calmo... O quê que acontece com esse cara? Ele é um ator que estreia uma peça...

         - É arrasado pelos críticos e, com vergonha do fracasso, desaparece.

         - Isso aí. O que eu quero dizer é o seguinte: a gente toma decisões na vida que acabam levando as coisas por um caminho meio esquisito, sabe?

         - Dá pra ir direto ao ponto?

        - O lance do russo é o seguinte: ele foge com medo da opinião que as pessoas tem dele, da obra dele. Acontece que se ele tivesse ficado na dele, abaixado a cabeça, em pouco tempo as pessoas teriam esquecido da peça dele e a vida voltaria ao normal. Mas ele não suportou a vergonha e acabou conhecido como o cara que desapareceu e tal, saca?

         - Que russo? O cara da música do Zeca era inglês... E o que isso tem haver com toda essa confusão na qual eu me envolvi?

         - Se envolveu? Cara, você não entendeu nada...rsrsrs.... Você foi envolvido.

         - Tanto faz, dá no mesmo.

         - Mais ou menos. Dá um tempo lá fora que você vai entender.

         - Como assim?

         - Dá um tempo lá fora que você vai entender, confia em mim.

         - Cara, tu é maluco. Eu vou é sair daqui direto pra uma delegacia!


Saiu decidido, batendo o pé e sem olhar pra trás. Ao chegar lá fora, viu que teria de esperar um pouco até ir a qualquer lugar. A rua em frente ao mercado estava inundada por conta do temporal. Goteiras aos poucos se transformavam em verdadeiras quedas d`água saindo dos cantos das lâmpadas no teto. Ao olhar pra rua, viu um rio por onde passavam sacos de lixo, ratos e todo tipo de porcaria possível e imaginável! Sentou-se na escadaria a sua frente e decidiu esperar que o nível da água diminuísse. Voltar lá pra dentro e dar de cara com aquele maluco novamente estava fora de questão! Uma mão toca suavemente seu ombro e alguém senta ao seu lado na escada: era a garota do bar.

         - Olá! Bom te ver novamente.

         - Você? Tá fazendo o quê aqui?

      - Adoro esse lugar. Foi exatamente aqui, numa madrugada como essa que abri o envelope do meu exame de gravidez. Foi quando descobri que seria mãe pela primeira vez.

         - Olha, me perdoa, mas...

         - Deixa eu falar..rsrsrs... Então, foi minha primeira filha. Hoje temos um casal. Lindos!

         - Você é casada?

         - Sim, achei que já soubesse!

         - Porque eu deveria saber?

      - Sou casada com seu amigo, que sempre bebe contigo no bar. Achei que ele tivesse incluído essa parte na conversa de vocês lá dentro...

         - Como é? Você é casada com aquela criatura??? Ele é louco, sabia?

         - Louco nada. Ele pode até ser meio difícil às vezes, mas depois que você conhece ele melhor, se encanta!

         - Fala sério!!! Prefiro ir nadando pra delegacia que ficar aqui com um maluco lá dentro e outra aqui fora!

         - Calma, não adianta que você não vai conseguir sair daqui. De uma forma ou de outra, é aqui que você vai ficar.


Outra mão toca seu ombro, o cara chega e se senta a seu lado. Ele fica entre os dois. Não sente medo. Apenas espera calado que alguma coisa se explique com a chegada do sujeito. Ele começa:

         - Sabe o lance do Stephen Fry que falei lá dentro? Então. Eu passei por algo parecido. Eu morava em uma cidade do interior. Cidade pequena, povo falador... Eu acabei descobrindo numa conversa de bar que que a minha mulher na época andava me traindo. Não consegui conviver com a vergonha, a humilhação. Tive de matá-la, sabe? Uma hora todo mundo ia esquecer. Era só me separar dela e refazer minha vida. Mas eu não aguentei... Claro, depois disso a polícia veio atrás de mim pra me prender. Tive de me mudar. Cheguei aqui e acabei conhecendo essa moça linda sentada aí do seu lado. Nos casamos, tivemos dois filhos e assumimos o bar dos pais dela, sabe? Pra ser nosso negócio, nosso ganha pão.

         - Você tá me dizendo que é dono daquele bar?

      - Isso, precisamente. O que acontece é que a vergonha te esquece. A dor uma hora te deixa em paz. Mas o Estado mais cedo ou mais tarde te acha pra acertar as contas, né? E pro Estado não tem essa de dor, sofrimento. Eles lidam com números e tal. Burocracia, saca? Daí eu tive de encontrar alguém pra colocar no meu lugar. Agora sou pai de duas crianças lindas e não posso faltar pra elas. Imagina, crescer com pai na cadeia...

         - Cara, você é maluco? Tá achando que vai me fazer assumir que matei sua mulher ou o quê?

         - Na verdade, a essa altura a mulher já é sua. A polícia foi lá atrás de mim. Dei um jeito de convencer que eu, na verdade, era você. Ou você era eu, tanto faz. Você passou a ser o cara que assassinou a esposa e veio pra cá fugido do interior. Já faz tanto tempo que até a foto que eles tem de mim lembra um pouco você. Deu trabalho. Você sempre ia lá no bar, mas falava pouco. Não sabíamos muito a seu respeito.

         - Cara, isso não tem o menor cabimento! Você..

   - Então, deixa eu terminar: Acertei com uns caras aí de apagarem você. Daí, automaticamente, minha questão com a lei estaria encerrada. Afinal, o cara que eles estavam procurando já estaria morto. Eles queriam alguém que, segundo pistas, estaria morando naquela área. Eu me adiantei e antes deles pensarem que poderia ser eu, já me prontifiquei a colaborar.

         - Isso é mais que ridículo! Isso é..

         - Isto é a vida, meu camarada! Só sei que depois da noite de ontem achei que o serviço tava feito. Os caras te seguiram da sua casa até o outro bar e me passaram o serviço como pronto. Quando você apareceu no nosso bar, lá pelas tantas, saquei que tinham pego outro cara. Bem parecido, mas outro cara. Eu não sabia nada sobre esse outro. Daí insisti que tinha de ser você... Eles devem estar chegando aí pra concluir o serviço... Opa, olha eles aí!

         - Como é?

         - Olha, vou te falar que deu trabalho. Até minha mulher teve de dar em cima de você pra você não parar de frequentar nosso bar... Né, amor?

Ambos se levantaram e saíram. Ele ficou ali, sozinho, paralisado. Ainda não sentia medo. E nem daria tempo. A sua frente, a moto da noite anterior e os dois caras. Não disseram nada. Um deles sacou a arma, apontou e disparou: um, dois, três tiros... Com a rua desobstruída após o fim do temporal, tanto a moto como o casal tiveram facilidade em desaparecer madrugada adentro. A polícia chegou minutos depois, atendendo um chamado feito de um orelhão próximo dali. Encontraram o corpo e uma mochila, onde acharam uma pequena quantidade de drogas e uma arma velha, enferrujada. Na carteira da vítima, além de uns trocados, um recorte de jornal de uns dez anos atrás. A manchete dizia: “Dono de bar mata a mulher, os dois filhos e desaparece.”

Rafael A.

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