segunda-feira, 13 de maio de 2013

E a Cena Vai Bem... Por Incrível que Pareça...



Confesso que só me imaginava fazendo a afirmação acima num futuro muito distante. Sim, me refiro a tal da 'cena'. Explico: é comum, no meio underground, ouvir coisas do tipo “A cena está morta!”, “Tá agonizando!!!”, “Antigamente era melhor...” e por aí vai. Venhamos e convenhamos, com o passar do tempo nos acostumamos a reclamar, e reclamar e reclamar... A turma dos oitenta reclama que a dos noventa é 'pouco isso' ou 'menos aquilo'. Os dos noventa que a garotada dos 2000 é 'assim' e 'assado', enfim. E assim vamos. Esquecemos que bons momentos devem, sim, ser reverenciados, citados. Sem fechar os olhos para o que ainda temos de construir; sim, a coisa vai bem.

Entre postagens, desabafos e conversas (civilizadas, que fique claro) via redes sociais, de uns tempos pra cá, me peguei questionando o tal estado terminal ao qual estaria entregue o cenário underground de nossa Região. Admito: venho cometendo insistentemente o comportamento apontado no primeiro parágrafo há anos. Continuo saudoso de décadas passadas. Do clima dos shows, da troca de cartas, demos e fanzines. Continuo achando que com o passar das gerações o público disposto a consumir cultura (de uma forma geral) diminuiu. Não só diminuiu, como mudou a forma de fazê-lo. O afeto para com o bem cultural se transformou em alguma coisa que ainda não consigo identificar. E aí não cabe julgar os motivos (internet, aspectos sociais ou seja lá o que for) nem restringir tal comportamento a essa ou aquela tribo (odeio o termo, não sou índio). O tempo passa. As coisas tendem a mudar. E o fato de ainda termos lugares para ir num final de semana assistir novas bandas deveria ser um sintoma de que resistimos, sobrevivemos. De novo: nos acostumamos a reclamar.

É comum reclamar, por exemplo, que em São Gonçalo o único espaço exclusivamente Rock é o Metallica Pub. Reclamar que casas esporadicamente abertas a eventos de Rock (ou seria 'roqui'?) como Bar do Blues e o Clube Recreativo Trindade abrigam, na maioria das vezes, eventos voltados para bandas cover. Enfim, o tal do 'roqui'. Mas pouco paramos pra pensar que, apesar da escassez de espaços, há pessoas trabalhando, se dedicando e construindo coisas importantes na cidade. Rock na Garagem (sim, é coisa nossa, e resiste há sete anos, ok?), Chaos Fest., Entre Amigos, No Dogz, No Bullshit!! são todos eventos surgidos e mantidos no mesmo Metallica Pub! Punk Rock, HC, Alternativo, Blues, som extremo, todas as vertentes tem espaço por lá! A galera do Som do Vale está lá em Alcântara, mantendo firme a média de um evento por mês! A galera do Cai Torto de volta à ativa...

Bandas? Acho que podemos dizer que faz um tempo que não temos uma safra que anime, não? Pois bem: Join the Dance, Manifast (foto), SIC, Alice no Reino dos Suricates são alguns dos novos nomes. Figuras das antigas como Ematoma, Inércia, Sem Nada, Indigentes, Xarles Xavier e outros estão na ativa. Todos fazendo shows em São Gonçalo, Rio de Janeiro, Baixada Fluminense, Zona Sul, Zona Norte, Região dos Lagos... não é a tal cena da cidade siando pra tocar e mostrar o som de nossa Região? Tem gente lançando CD, fazendo clipe, montando novos projetos e, sim, aprendendo a usar as redes sociais e demais ferramentas. É difícil? Há erros? Estamos longe da cena ideal da cabeça de cada um de nós? Sim. Mas estamos melhores que há anos atrás quando em determinados momentos tínhamos bandas tocando pra ninguém. E quando digo ninguém, não me refiro ao 'banda tocando pra banda', me refiro a tocar pra ninguém, mesmo! Sim, a coisa vem mudando.

Do outro lado da poça, tem gente se movimentando também! A galera da Liga HC vem tomando conta não só de espaços, mas emplacando aqui e ali, bandas em eventos diversos. Sinuca Tico Taco, Teatro Odisséia e até Circo Voador! Recentemente cerca de trezentas pessoas marcaram presença em edição do Festival Tomarock dedicado a bandas de Hardcore na Baixada. E a galera da Liga HC estava lá! Na Zona Sul, a Audio Rebel resiste bravamente com, literalmente, uma penca de atrações do mais alto gabarito. Obscene Capital, P.R.O.L, Fokismo, Arrested for Possession, Macacos me Mordam, Kopos Sujus, Uzômi, Baga, Repressão Social... Eventos? Os da própria Liga HC, Garagem do Rock na Zona Norte, Festa RockinDrops e Atrocidade Maravilhosa na Rua Ceará, o Viradão Junkie Session realizado recentemente durante três dias com shows, expos e tudo o mais na Lapa e por aí vai! Apesar de um ou outro tropeço a coisa tem rolado, concordam?

Aliás, é bacana ressaltar que todos os exemplos colocados aí em cima, tanto em São Gonçalo quanto no Rio, acontecem sem nenhum tipo de incentivo por parte do Estado. Nada de leis de incentivo à cultura, grandes patrocínios ou coisa que o valha. Como já escrevi aqui em outra ocasião: cultura feita no braço, na raça! Ainda assim, é bacana citar que o que acontece do 'outro lado', ou seja, em grandes espaços como, por exemplo, um Circo Voador, também tem influência em nosso mundinho underground. Quanto mais bandas grandes, gringas, alternativas ou mainstream tocarem por aqui, melhor! Não se engane: Tem banda? Vai dizer que não gostaria de fazer um show no Circo Voador? Pois bem, sua banda provavelmente não lotaria o Circo, certo? Então é bacana quando bandas de fora, com maior público tocam lá, certo? De alguma forma é uma chance de sua banda falar para um público que dificilmente alcançaria, não? Então, que venham! Que rolem shows e toda sorte de tours gringas de pequeno, médio e grande porte passando por aqui! E, novamente, tem rolado.

É verdade que ainda falta muita coisa. Pra muitas bandas por aí (aqui) ainda é um mistério toda essa coisa de gravar, lançar uma demo ou mesmo marcar shows. Muitos caem em furadas sem nem notar. E acham graça. Pegando esse gancho: fases ruins como a de anos atrás, citada acima, também tem lá seus benefícios. Numa maré ruim os primeiros a desparecer do mapa são os aventureiros. Me refiro não só a produtores picaretas, gananciosos e coisas do tipo. Bandas de aventureiros, aspirantes a BBB ou ao elenco da Malhação (ou coisa que o valha) também atrapalham consideravelmente a coisa. E olha que já tivemos muitos desses entre nós, hein? Ok, ainda devem haver alguns por aí, mas hoje parecem ser minoria...rsrsrs

De todo esse cenário, daqui de nossa Região, de que tratei nos parágrafos acima, talvez a única interrogação seja Niterói. Estranhamente, a vocação artística e cultural da cidade não se reflete em seu cenário independente. E venhamos e convenhamos, em cenário algum. O troca troca de poder entre PT e PDT (qual a diferença????), já entranhado na história da cidade, em momento algum rendeu frutos realmente bons, e ao alcance de todos. Pelo contrário: as coisas parecem piorar à medida que o tempo passa. A cidade tem público, artistas, espaços... e em determinados momentos não parece ter nada. E olha que dessa vez não estou remetendo à antigos espaços, bandas, momentos ou décadas mais empolgantes. O artigo aqui é a respeito do que está acontecendo agora! Insisto que há coisas boas acontecendo em Niterói. Bandas como Dissonância, a novata Monster Trio e mais uma meia dúzia tem coisas bem bacanas pra apresentar. Só não tem onde, nem conseguem uma forma de mostrar isso pra sua própria cidade. Boas iniciativas continuam a pipocar aqui e ali mas, de alguma forma, é como se as coisas não pudessem (ou não devessem) acontecer... Uma pena...

Encerrando do jeito mais óbvio? Redes sociais, estúdios de ensaio e gravação com nível profissional a preços acessíveis, programas e apetrechos tecnológicos que possibilitam gravar, compor, arranjar, rearranjar, inverter, virar do avesso e o que mais der na cabeça. Tá tudo à disposição. E por mais que tenhamos consciência de que ainda estamos longe de poder bater no peito e dizer que temos um cenário sólido e autossustentável, não dá pra dizer que nada está sendo feito. Ok, sempre foi feito. Mas as condições, da forma que se apresentam hoje, dão a entender que o momento é propício para se trabalhar um novo cenário pra nós de Niterói, Rio e de nossa boa e velha São Gonça Rock City! É complicado de fazer? Requer dedicação, paciência, autocontrole (muito) em alguns momentos e blá blá blá....? Concordo. Mas tem gente fazendo. Sendo assim, dá pra fazer mais.

Rafael A.


Confira o clipe da novata Join the Dance:

Trecho de evento da Liga HC no Teatro Odisséia com a banda Norte Cartel:

Banda Roots of Hate nos sete anos do Rock na Garagem, no Metallica Pub:

foto: Rafael A. / Latitude Zero Prod.

Um comentário:

Marcão Dantas disse...

Maneiro que conversamos sobre isso outro dia Rafael!!! Ótimo texto!!!

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