segunda-feira, 27 de maio de 2013

Variações de Um Mesmo Tema ou Como Uma Cidade Simplesmente Morre



Correndo o risco de me repetir, vou voltar a um tema que abordei aqui em matéria que foi pro ar na segunda-feira retrasada. Na ocasião exaltava o fato de, apesar das já conhecidas dificuldades e do muito que ainda precisa ser feito, o cenário independente de nossa Região passar por um bom momento. Há quem discorde. Sem problemas. Só que num dado momento, enquanto redigia o tal artigo, me peguei indagando sobre o que acontecia em nossa Niterói...

Em meio a um momento relativamente fértil em São Gonçalo e do outro lado da Baía de Guanabara, me senti profundamente incomodado por não ter muito o que falar da cidade onde vivo desde meados de minha infância.. De fato, citei a garotada da Monster Trio (foto), e acho que a Dissonância também. E não para por aí. Há outras coisas boas acontecendo. O Saloon Beer, na Região Oceânica parece abrigar uma garotada afim de fazer barulho. Pedro de Luna e o Coletivo Araribóia Rock ainda são ativos no cenário cultural da cidade, mas... É, tem sempre um 'mas' quando me refiro à minha cidade. Estranho, não?

Estranho que falar sobre Niterói é, conforme citei no artigo, ter necessariamente que falar de política. A alternância de duas forças políticas (que se vasculharmos bem, bem mesmo, vamos descobrir que se trata de uma coisa só), a insistência em fazer algo acontecer apenas mediante à pressão. Seja de uma suposta 'oposição', seja de um grupo ou setor da sociedade ou imprensa. O bom e velho 'cala boca'. Fazer pra ninguém cobrar. É claro que dessa forma toda e qualquer iniciativa, seja na área cultural ou em qualquer outro setor, está fadada a simplesmente naufragar. E é justamente nesse ponto que volta o que coloquei no artigo de semana passada: é como se as coisas por aqui 'não devessem', ou 'não pudessem' mais acontecer. Novamente: Estranho, não?

Ok, tudo é política (de fato é, a diferença é com que intenções se pratica a mesma). Pra tudo que se dá, se cobra. E nesse joguinho pouco proveitoso (para a cidade) vemos o tempo minar as forças e varrer pra algum canto da história um passado rico. Um cenário fértil e capaz de chamar a atenção de gente de outras cidades e Estados. Era simples: escolhíamos onde iriamos no final de semana (sexta, sábado e domingo!). As opções eram as mais variadas. Do Centro à Região Oceânica, era som rolando pra tudo quanto era lado. Camisas pretas, Punks, galera do sk8, fanzines, lojas para servirem de ponto de encontro, bares, postos 24h pra beber de madruga, espaços públicos e bandas, muitas bandas.

É, tudo isso aí rolava por aqui... há mais de dez anos. Tudo bem que nessa época também se reclamava (às vezes o reclamar se torna meramente uma mania idiota). Falava-se, por exemplo, da dificuldade de juntar bandas e público da cidade com a galera de nossa vizinha, São Gonçalo. Realmente, niteroiense em show em São Gonçalo era raridade nos 90`s. Aliás, a mesma São Gonçalo que abrigava uma cena interessantíssima em meados da mesma década. Seja como for, me custa aceitar que os jovens niteroienses realmente prefiram esperar iniciativas do Poder Público, privado ou seja lá o que for que estejam esperando pra sair de casa e fazer barulho.

Para situar o caro leitor: me refiro a um período entre a metade e o final dos anos noventa. Poucos anos antes de quase tudo por aqui parar. Em seguida, 2002, dávamos início a nosso Feira Moderna Zine. Mas como já mencionei em outras ocasiões, a sensação era sempre de que o público de fora de Niterói se interessava mais pelo trabalho que a galera daqui (na verdade, soa assim até os dias de hoje). Ainda por essa época, era possível circular pela cidade e esbarrar em gente interessada e saudosa dos anos que cada vez iam ficando mais distantes. Isso ainda rendeu uma pouca movimentação no cenário local, mas nada que chegasse perto do período que citamos. Cerca de dois anos depois surgiria o Araribóia Rock, do velho de guerra Pedro de Luna, e junto com ele uma nova geração aparecia para, anos depois, desaparecer novamente (me refiro ao público mais novo daquela época, não ao AR, que continua na ativa). Aliás, o livro Niterói Rock Underground, do criador do Araribóia Rock é uma ótima pedida pra garotada que não viu, e pra coroada que quer recordar épocas mais interessantes por essas terras. Desculpem mais uma vez por insistir no mesmo tema, ok? Mas acho que será um assunto recorrente aqui no FMZ nos próximos meses. Afinal, não é possível que Niterói tenha simplesmente apagado, desligado ou desaparecido do mapa do underground.

Como sempre gosto de frisar (repetindo e insistindo...): sim, há coisas acontecendo. Mas é pouco, muito pouco mesmo. Com relação a espaços, temos o citado Saloon Beer (ainda não fui, mas ao que parece tem som autoral rolando por lá, e isso é bom) na Região Oceânica, Espaço Box (alguém sabe se já reabriu?) na Cantareira, DCE com raríssimos eventos voltados para o público Rock e tentativas de resgatar a tradição roqueira do Convés. Como disse, é muito pouco. Há os que defendam que o formato show se esgotou por aqui. Não acredito. E mesmo eventos no formato 'festa' podem ser interessantes quando extrapolada a ideia de um DJ tocando pra criaturas dançarem ou coisa que o valha. Não vejo motivo para excluir elementos como bandas com trabalho autoral, stands de material alternativo e até outras vertentes como poesia e artes plásticas da noite alternativa (foi o que fizemos com nossa Narcose Rock Clube, nas duas edições realizadas – a primeira na Lapa e a segunda dentro dos dez anos do Praia do Rock, em Maricá).

De qualquer forma, voltarei ao tema em outra ocasião. É só tomar vergonha na cara e partir para o enfrentamento! Me refiro às traças que a essa altura devem estar fazendo a festa nos 'arquivos'! Mas me comprometo a encarar a missão e falar (e mostrar) um pouco do que rolou por aqui. E por falar nisso: Mora em Niterói? Tem opinião a respeito do assunto? Tem ideias, propostas, sugestões ou seja lá o que for? O espaço aqui está aberto, ok? É justamente pra isso que serve um fanzine (.aliás... que tal começar o seu?)! Até!

Rafael A.

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