segunda-feira, 3 de junho de 2013

O Maracanã se foi



Na tarde de ontem me recusei a acompanhar o amistoso entre Brasil e Inglaterra pela TV. Preferi o bom e velho rádio. Queria sentir (mesmo que fosse só um resquício) um pouco do que só um lugar como o Maracanã é capaz de provocar, mesmo à distância. Sim senhores, o Maior do Mundo sempre foi capaz de mexer com cada criatura, viva ou morta, mesmo que pelas ondas do rádio. Só um lugar que carrega consigo a quantidade de histórias, lendas e momentos épicos do Gigante Mário Filho seria capaz de virar a alma de alguém do avesso, mesmo que este esteja completamente bêbado, num bar com um radio de pilha colado no ouvido...

Pisei pela primeira vez no templo maior do Futebol, levado por meu pai, num já distante ano de 1992, para assistir um Fluminense X Botafogo numa tarde chuvosa de domingo. 1 X 1, se bem me lembro. Entre alertas do tipo 'cuidado com tudo que vem de cima... e de baixo também!', a sensação de sentar naquela arquibancada com o Jornal dos Sports servindo de almofada (como todo bom tricolor, há de se manter um mínimo de classe e distinção) e o 'egoista' (fone de ouvido de um lado só) que ganhei de presente na mesma data (havia sido de meu avô – estreado exatamente daquele lado da arquibancada), me socava o estômago a sensação de imensidão daquele lugar. Tão impressionante como a capacidade de entrarmos todos daquele lado da arquibancada em sintonia num soar de apito.

Para meu pai, ex árbitro (apitou apenas uma vez lá, uma preliminar), e como torcedor acostumado a chegar ao Maraca ainda de madrugada para picar papel e preparar os sacos de pó-de-arroz, tudo aquilo soava normal, corriqueiro. Exceto pelo fato de estar levando seu filho a um 'domingo no Maracanã' pela primeira vez. Não há mesmo como definir a sensação. Mágico, talvez seja o termo que mais se aproxima. FLU X fla e Brasil X Argentina para mais de cem mil pessoas eu nunca cheguei a presenciar. Meu pai sim. Tive a chance de ver um Brasil X Argentina morno, frio, antes da Copa de 98. 1 x 0 pra eles. E até meu Fluzão jogando com um time de bombeiros (pedreiros, padeiros ou seja lá o que for) pela Terceira divisão do Brasileiro, numa quinta-feira chuvosa eu vi por lá. Nesse período, frequentei estádios com uma certa regularidade. Até que a estupidez das (des)organizadas foi me afastando cada vez mais das arquibancadas. Mas Maraca era sempre Maraca. Laranjeiras (emocionava por ser nossa casa, claro), Caio Martins aqui em Niterói... nenhum deles tinha o magnetismo, a magia... nem chegava perto.

Não precisei de imagens (de fato, nunca fizeram muita falta pra mim como trocedor). Ontem, ao ouvir o Garotinho narrando um Brasil X Inglaterra (clássicos assim já impuseram mais respeito) pelo rádio, sabia que o Maracanã tinha acabado, morrido, desaparecido. O fim da Geral já havia sido um baque e tanto (nunca vi jogo de lá, me arrependo)... Imagino o Sobrenatural de Almeida com seu Jornal dos Sports (ambos existem, num universo paralelo) tentando achar um pedacinho de concreto da antiga arquibancada para se sentar e assistir ao 'clássico' de ontem em meio a personalidades, políticos e demais criaturas da fauna que se espremia nos camarotes...

Ouvir no 'egoísta' de meu avô (não é só botafoguense que tem lá suas superstições) o Gol de Barriga do Renato Gaúcho em 95 (foto), ver pela TV meu Fluminense despachando São Paulo e Boca Juniors, um após o outro, numa Libertadores em 2008 com toda certeza não seria a mesma coisa se lá estivesse, no campo. De qualquer forma, cumpri a promessa que fiz a mim mesmo de me afastar de estádios, em nome de minha própria integridade física...

Seja como for, a ligação que existe entre nosso eterno Maior do Mundo e cada torcedor carioca parece ter se encerrado. Ao menos pra mim, na tarde de ontem, soou assim. Nem é minha intenção entrar aqui em outras questões, como Aldeia Maracanã, Eike Batista, Prefeitura, Estado ou seja lá o que for. Este artigo diz respeito única e exclusivamente ao que senti na tarde de ontem quando liguei o rádio (haviam questões pessoais, sim - aproveitei pra resolvê-las junto com minha despedida do Maraca, via rádio). O dia estava diferente, triste, estranho e eu não sabia o porquê. Descobri logo em seguida. Assim como vem (triste e insistentemente) acontecendo com as coisas com as quais me acostumei ao longo da vida: O Maracanã também se foi.

Rafael A.

O dia em que se cumpriu a profecia, bem diante de nossos olhos, ouvidos e almas:

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