segunda-feira, 17 de junho de 2013

Veja bem...



Este artigo está sendo redigido na manhã do dia 15/06, sábado. Um dia depois da manifestação no Centro de Niterói, ok? Na verdade, o FMZ já havia se manifestado a respeito na manhã de quinta-feira (14/06), horas antes do protesto nas ruas do Centro do Rio. Na ocasião, foi postado no perfil do fanzine no Facebook: “...façam o que seus corações mandarem...” Tudo bem que pouca gente parece ter entendido do que se tratava. Mesmo com a letra de uma canção do Bad Religion que versa sobre manipulação de massas e tal...


Seja como for, na mesma manhã, um debate (altamente saudável, fundamental diria) no grupo Rio de Janeiro Hardcore, no mesmo Facebook, colocava em pauta a participação do meio underground nesse tipo de questão (rolaram outras trocas de ideia também, igualmente saudáveis). Entendendo que o debate é, sim, importante, colocarei a seguir algumas impressões a respeito do que venho lendo e presenciando. Dentre as manifestações ocorridas na Região do Grande Rio, o FMZ esteve presente em uma, em Niterói. Não para apoiar, ou recriminar (os leitores entenderão o que quero dizer mais adiante). Mas para tirar conclusões que só poderiam ser tiradas por quem está na rua. Sentindo o clima e, de alguma forma, participando.

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A situação com relação aos protestos, inicialmente por conta do aumento das passagens de ônibus, no meu entender se encontra da seguinte forma: entre `feicebuquianos' inflamados e embebidos de um espírito dito democrático, Jabor cuspindo duas horas de merda em dois minutos de fala (só pra variar), lideranças 'político-partidárias-estudantis' rindo a toa e o povo petista sem saber se aplaude ou taca pedra (por enquanto...). Sem contar a questão do vinagre, claro!!! É basicamente isso, no meu entender...


A verdade é que todos nós músicos, artistas, fanzineiros, poetas, produtores, agitadores culturais e demais criaturas que habitam o underground já sonhávamos com um momento assim, e fazia muito tempo. Molecada na rua, batendo de frente com a Polícia, se articulando, gritando, protestando e usando as redes sociais para algo produtivo, prático. Ok, seria lindo, emocionante e, se fosse só isso: a luta de uma geração, de um povo contra o Estado... Sim, me soaria bem diferente! Porém, as coisas quase nunca saem da forma que queremos (ou sonhamos), né? Como em toda e qualquer manifestação, há interesses de terceiros e... O jogo do poder não poupa nada, nem ninguém. Eleições à vista!!!!


Já pipocam, aqui e ali, rumores dando conta de um 'mega protesto' promovido, desta vez, pelo próprio PT em São Paulo. Obviamente, tomando lá suas precauções. O alvo muda. Sai o preço das passagens e entra em cena a luta pela liberdade de expressão e, com mais força ainda, o repúdio à atuação da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Não é de se espantar, certo? Da forma como estava, a Prefeitura paulistana (que é do PT) ficava exposta. Já a Polícia é responsabilidade do Governo Estadual (que não é do PT). O PT entrou na briga? Sabemos que não, né? Só estão tomando (ou pelo menos tentando) as rédeas da situação para proteger os seus e mostrar 'quem é a esquerda que manda...' Independente do final da história: oportunismo é pouco!!!


Mudando de assunto! Cena estranha de se assistir: em vídeos feitos nos protestos de São Paulo, Punks (ou Anarkopunks) agiam em meio a bandeiras de partidos e movimentos 'estudantis'... Seria o povo unido? Quanta ingenuidade! Alguém realmente achou que o tal Movimento Passe Livre (do qual sei muito pouco, confesso), ou quem quer que seja, fosse realmente encarár o movimento Punk como aliado??? A propósito: um porta-voz do tal Passe Livre já se adiantou em dizer que “tentamos conter os Punks, mas é difícil”... claro, claro... Particularmente, prefiro a cena Punk travando suas próprias batalhas... Seja como for, é válido vê-los na rua, marcando posição.


Mas tudo bem! Vamos dizer que são apenas jovens 'tentando mudar o país' (acredito nas boas intenções de uma parcela). Precisa, necessariamente, se misturar com PSOL, PCO, UJS, UNE e demais fábricas de políticos??? Qual o intuito? Deixar o caminho livre pra quem? Pro povo? Será? Aliás, correndo o risco de soar meio... é, petista: durante as manifestações, ao menos a que pude acompanhar, aqui em Niterói na sexta-feira , o povo mesmo estava nas filas do Terminal Rodoviário tentando voltar pra casa depois de um dia de trabalho... Na manifestação vi: jovens de classe média (válido), professores e outras classes de profissionais (válido) , típicos líderes de movimentos estudantis, universiotários e demais representantes do bom e velho lixo partidário com suas bandeiras. Mas povo, povo mesmo... 


Aproveitando: nem vou me prender em comentários sobre a ação da Polícia do RJ, SP nem de lugar nenhum. Já era de se imaginar que seria assim, certo? Espanta ou surpreende alguém? “...A PM na rua, a Guarda Nacional. Nosso medo, sua arma... A instituição está aí, pra nossa proteção... E é para sua proteção!” (Plebe Rude)


Não, o que foi colocado aqui não invalida o esforço e a dedicação de quem realmente acredita numa causa e levanta o traseiro da frente do computador para agir (seria realmente idiota afirmar isso, uma vez que defendemos esse tipo de postura desde sempre aqui no FMZ). E é claro que fica muito difícil de simplesmente impedir que militâncias partidárias, movimentos estudantis e afins participem de atos em praça publica, soaria bem pouco democrático. Mas ainda tenho dúvidas quanto à legitimidade de certas posturas e discursos. Principalmente no momento pelo qual nosso país passa (Copa do Mundo, Olimpíadas e principalmente, as eleições do ano que vem)... Algo ainda soa muito estranho. Na verdade, como tudo em nosso Brasil. No país dos espertos, da politicagem e da 'malandragem', atacar um inimigo, quase sempre é fortalecer outro inimigo, igualmente nefasto. E aí? Como faz? Não sei...


Sei, sim, que as coisas nas quais acredito e defendo através deste fanzine há quase doze anos passam muito longe de siglas, megafones, chopadas, líderes cafajestes e carros de som cuspindo discurso velho, repetido e manjado... E no final das contas, a pulga atrás da orelha dá cambalhotas ao se deparar com um certo depoimento no Facebook. Dizia mais ou menos assim: “Isso aqui tá melhor que Flamengo X Vasco no Maracanã... Sr. Fulano de tal, ambulante que vendia cerveja no dia das manifestações no Centro do Rio...” Sem contar a questão do vinagre...


Brincadeiras à parte, e de volta a nosso 'mundinho under' (não precisa ser assim...!): Creio que o mais importante é pensarmos numa forma de levar o debate, a discussão, a troca de ideias para além das redes sociais. Quem participa do meio underground há alguns anos sabe o quanto é importante e sadio o debate em bares, portas de shows, praças, calçadas, fanzines e por aí vai... e que haja um sentido prático na coisa, óbvio! Se uma galera foi pra rua, bom – mesmo tendo lá minhas ressalvas, conforme coloquei acima (creio que o engajamento diário, como algo natural, seja mais proveitoso)... Me causa desconfiança esse surto de politização e engajamento instantâneos... Só que essa é a minha opinião, a minha versão. E é bem pouco. Pensar diferente de um, ou de um todo, é saudável. E seria lindo se todos se manifestassem, não?


Como sempre: o espaço para opiniões, críticas e apedrejamento (virtual, por favor..rsrsrs) está aberto: Manifestem-se! Mas, antes de qualquer coisa, vamos levar esses questionamentos para nosso dia a dia, para a tal da 'cena'. Me parece importantíssimo. Tomo a liberdade de citar nosso querido Alexandre Bolinho (Kopos Sujus) no mesmo grupo Rio de Janeiro Hardcore ontem pela manhã, para enfim encerrar: “Sinto falta de verdade de mais discurso nosso sobre o que acontece hoje em nossa cidade, em nosso país, em nosso continente. É interessante ver o doc "American Hardcore", quando eles falam que nos 80, quase toda banda tinha um flyer de show contra o Reagan, contra a invasão americana à Nicarágua, etc. Os punks dos 80 foram ativamente militantes contra a Ditadura, em seu crepúsculo. Não acredito que deva ser "compulsório", obrigatório, citar ou abordar a politica nas letras - até porque nossa ATITUDE é política - mas também me causa estranheza a ausência quase completa dela.”

Rafael A.


Trilha sonora deste artigo:


Bad Religion:

Plebe Rude:

Pavilhão 9:

Ilustração: Carlos Ruas (Um Sábado Qualquer)

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