segunda-feira, 23 de setembro de 2013

E enquanto isso, no Rock in Rio...



Não é papo de velho, mesmo. Havia tomado a decisão de não ir mais a festivais como o Rock in Rio. Seja pela idade, situação financeira pouco favorável, pela paciência que (com a idade) vai pro espaço, enfim. Nem mesmo Sr.Marky Ramone foi capaz de despertar aquela pontinha de vontade que, muitas vezes, te faz comprar o ingresso e se arrepender dias depois. Iron Maiden, Sepultura, Metallica, Helloween, Viper, já vi esse povo todo (ao menos os que me interessavam).... Talvez o Black Sabbath na Apoteose me fizesse abrir uma exceção. Mas de uma forma geral, a decisão estava tomada: Rock in Rio não rola mais. Foram três dias na edição de 2001 e, definitivamente, não me imagino repetindo aquela maratona agora que passei dos trinta.

Pode até ser que essa sensação passe. É possível que daqui há um tempo consiga me relacionar melhor com adolescentes histéricos (nunca fui um desses, sou chato desde criança) perdidos no meio do tiroteio, gritando e aplaudindo qualquer coisa que se mexa e faça barulho na frente deles. E venhamos e convenhamos? R$9 a cerveja é covardia. Não me imagino chegando lá e dando de cara com um 'cardápio' desse naipe. Ok, não era pra parecer papo de velho... Enfim: A próxima edição do Rock in Rio está prevista para 2015. Até lá, pode ser que eu mude de ideia, vai saber... Mas por enquanto me mantenho firme em minha decisão de não passar nem na porta de eventos deste porte.

Porém, nada me impede de acompanhar a parada via internet, TV, certo? Mais ou menos. Não gosto muito de transmissões televisivas quando o assunto é Rock (como disse, sou chato). Os apresentadores, repórteres, comentaristas/comentários quase sempre beiram o esdrúxulo. Como se fosse proposital escalar alguém pra falar sobre um assunto que não domina. De qualquer forma, hoje em dia é impossível ficar alheio a um evento deste porte. As redes sociais não te deixam esquecer que 'aquilo' está acontecendo naquele exato momento. Sendo assim, lá fui eu procurar na internet algum lugar onde pudesse acompanhar os shows do Rock in Rio livre de comentaristas, apresentadores e coisas do tipo. Achei. Não deu pra acompanhar absolutamente tudo, claro. Mas algumas considerações e conclusões são inevitáveis.

Em primeiro lugar, me parece que esses festivais gigantes tem lá suas singularidades no que diz respeito à impressões de quem assiste no conforto do lar e de quem está lá, no meio da confusão. Ao mesmo tempo que quem vê de casa tem a seu favor o citado conforto, perde o clima, a cerveja, a empolgação dos fãs de determinado artista se esgoelando bem a seu lado, enfim. Porém, não sei até que ponto o cara que está lá consegue tirar conclusões friamente. Som, luzes, tudo funciona pra cativar o espectador. E estamos falando de um evento onde uma penca de nomes consagrados praticamente se revezam no(s) palco(s), um atrás do outro! Logo, é difícil não deixar o lado fã aparecer, nem que seja só um pouquinho. Bom, dessa vez eu serei o cara confortavelmente instalado na frente do computador. Vamos lá:

Do time brazuca vi muito pouco. E gostei de muito pouca coisa também. O tributo ao Cazuza me pareceu muito... mais ou menos. Isso, mais ou menos. Não curti a roupagem dadas às canções, senti falta de algumas músicas, enfim. Não rolou. A parte (muito) boa foi: no meio disso tudo ter a oportunidade de assistir ao Sr. Ney Matogrosso colocando no bolso a 'nova MPB'! Uma aula de interpretação, emoção pura! Tesão de estar no palco! Nem sempre pular de um lado pro outro e jogar pra torcida resolve. Quando se mistura competência e (principalmente) emoção, não tem pra ninguém.

Marky Ramone, devidamente acompanhado de Michale Graves (que dupla, não?), fez uma das melhores apresentações dentre as que conferi nesta edição do festival. Clássico pra tudo quanto é lado! Até set acústico rolou! Punk Rock empolgante, que te faz cantar junto no show, em casa, no banheiro ou em qualquer lugar! Fala sério! Era um Ramone sentado naquela batera, impossível não ser bom..hehe!!! Já disse que sou chato, né? Então: minha chatice aparece com certa veemência quando o assunto é Offspring. Embora ache muito bacana ver a turma do HC 90`s num evento desse porte no Brasil, não consigo não lembrar que com o lançamento do Americana passei a não dar bola pra banda (ignorar mesmo, birra, implicância). Não adianta tentar me convencer do contrário, com Offspring paro no Ixnay on the Hombre e ponto final. Mesmo assim assisti boa parte da apresentação e gostei de alguns momentos.

Não tem como não falar do tal do Ghost (foto). Sendo assim, vamos a eles! Uma coisa não tem como negar: no que diz respeito a marketing, os caras deram uma cartada e tanto! Foram praticamente apresentados ao publico brasileiro no palco principal do maior festival que temos por aqui, na mesma noite do Metallica (de quem já andaram abrindo shows por aí) e, no dia seguinte, estavam na capa d`O Globo e de mais meia dúzia de jornais... Musicalmente? O que vi foi uma banda super competente, de melodias e arranjos bem cuidados. Claro, se tirarmos os recursos cênicos, visual e temas abordados nas letras é bem provável que passasse batido pela maioria (incluindo este que vos escreve). Mas o que seria do Rock sem todos esses recursos? É clichê? Nem tanto. Venhamos e convenhamos não é lá muito comum ver alguém exaltando o coisa ruin (ou seja lá o que for) com aquela sonoridade e falando pra uma audiência como a do Rock in Rio. No underground provavelmente passaria batido. E me arrisco a dizer que despidos de toda a parafernália, o tal do Ghost acabaria soando meio que inofensivo (ao menos pra quem não sacasse do que tratam as letras, enfim). Seja como for não me causou a ojeriza que notei na maioria das pessoas. Confesso que em alguns momentos até curti..rsrsrs!

Sabe quando você começa a ver um bando de criaturas com camisa de uma mesma banda circulando por aí? Eu geralmente fico meio desconfiado quando rolam esses surtos. E geralmente vou ouvir a tal banda com os dois pés atrás. Então... tem o tal do Avenged Sevenfold (escrevi certo?)... Poucas vezes na minha vida fui exposto a uma quantidade tão grande de clichês amontoados, empacotados e embrulhados cuidadosamente pra presente! Sério! Tudo soa clichê demais no show e no som dos caras! Visual, presença de palco, riffs, melodias, refrões, postura, gestos, cenário. É como se alguém saísse catando uma penca de coisas que já deram certo com outras bandas , em determinadas épocas e/ou vertentes roqueiras, encaixasse uma na outra, passasse uma fita bonitinha e oferecesse ao público. Previsível, chato, bobo, pop (no sentido negativo da coisa), róqui pra xuta-licho, róqui pra quem não curte Rock, certinho, planejado, sem sal demais pro meu gosto. O pouco que tinha ouvido da banda já havia me dado uma ideia do que se tratava. Só confirmaram, no palco, as expectativas.

Ok, sou fã de Metallica, conheço a discografia e tal (um fã estranho, já que curto as diversas fases da banda, incluindo Load, Re-Load ...). Só o que me incomoda é que nas duas últimas edições do Rock in Rio (contando com essa, claro) os caras fizeram belas apresentações e eu vi pela TV. Quando fui ver os caras em 99 na Gávea, ainda com Jason Newsted no baixo: show morno. Devidamente engolidos pelo Sepultura estreando o Derick nos vocais! Vai entender... deve ser comigo a parada. De qualquer forma, é sempre bom ver os caras atacando com “One”, “Batery” e outros clássicos. E até coisas do Black Album, por incrível que pareça, me soaram bem ao vivo (sempre preferi os sons desse disco em estúdio, nem sei bem o porquê)! Nunca fui lá muito fã de Slayer e, embora ache legal, não sou profundo conhecedor da obra dos caras, admito.... De qualquer forma, gostei dos shows de ambas as bandas. Fizeram, creio eu, o que se esperava delas: Shows competentes, à altura do nome que tem.

Maiden é Maiden. Não tem jeito. São imbatíveis no palco! Conseguem segurar a galera, manter o controle da multidão com seu arsenal de clássicos e “ôÔôôÔôs”. Mesmo em casa e “analisando friamente” é impossível ignorar que eles estão no palco! Não tem como ficar parado, não cantar junto, ou se impressionar com a energia de Bruce Dickinson & Cia.! Os caras já devem estar pra lá dos cinquenta e mantém o pique! A bola não cai em momento algum! Já pro final da apresentação, me peguei pensando: “bom, já tocaram tudo, não sobrou nada pro bis...” Então tá... Ainda tinha “Aces High” e “Iron Maiden”! Como pude esquecer??? Voltaram ao Brasil pela milhonésima vez e trouxeram sua Maiden England Tour! Um show recheado de sucessos e baseado no clássico álbum Seventh Son of a Seventh Son! Vi ao vivo duas vezes e nunca me canso da banda! E, ainda sobre clichês: Sim, um show do Iron Maiden é cheio deles. Mas digamos que são clichês próprios... Se repetem a fórmula, estão repetindo uma fórmula que eles mesmos criaram. E apesar de soar repetitivo pra alguns, se garantem no fato das novas gerações do Heavy Metal não produzirem nada a altura há muito tempo. Não vejo ninguém com o poder de palco dos caras pra bater de frente. Talvez o Sabbath, o próprio Metallica, ou o Slayer...? Sei não... São todos monstros, mas tem alguma coisa que rola quando Bruce e seu pessoal tomam conta do palco. Como disse: Maiden é Maiden.

Um show que queria ter conferido foi o do Go Go Bordello (banda muito legal!!!). Queria muito ter assistido também Viper, Autoramas & B.Negão, o encontro de Zé Ramalho com Sepultura, Helloween e outros que acabei não assistindo. Agora é ir atrás no Youtube... Nem precisa falar que fugi do lado 'micareta' do festival, né? Sem chances. Aliás, é bacana frisar que estamos falando de um mega festival de proporções olímpicas! É algo muito grande e que, desde seu surgimento, tem um apelo popular fortíssimo. É óbvio que artistas populares iriam dividir os holofotes com o povo do Rock (e do róqui também). Sempre foi assim, em todas as edições. Chamar de Pop in Rio, ou qualquer outra piadinha fica meio sem sentido se olharmos a história do evento e as edições que rolam lá fora (com muitos dos nomes brasileiros e gringos que tocam aqui participando lá fora também). Mas aí é outra discussão, né?

De volta ao Ghost (e encerrando): muitos dos clichês, por assim dizer, explorados pelos caras, como caracterização, temática e tal, já foram usados ao longo dos anos por outros artistas. Porém, há de se notar que geralmente temas mais sombrios, vem acompanhados de distorções, vocais sujos e por aí vai. Não é caso dos caras. A sonoridade aponta pra outra direção. Soa mais sóbria. Soturna, pesada e ainda assim sóbria. E aí talvez esteja o grande lance deles. Dá pra imaginar um monte de gente tocando fantasiada, mascarada ou explorando certas temáticas, mas não com a sonoridade que o Ghost apresentou. É, indiscutivelmente, diferente. Surpreendente até. E ser surpreendido por uma banda da qual nunca ouvimos falar é sempre bom, né? De algumas forma, o Ghost acabou sendo a surpresa dessa edição do Rock in Rio (positiva ou não, vai de cada um). Na verdade, o Ghost e as camisas dos Ramones...

Rafael A.


Foto: Ricardo Matsukawa / Terra

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