terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Sangue Azul Na Praça Vermelha :: Provisório

por: Rafael A.

Provisório

Faz calor por aqui nessa época do ano. Mas não pouco calor. Muito, muito calor mesmo! Nem o vento que sopra frio do mar diminui a sensação térmica de mais de cinquenta graus, já no meio da manhã. Ciclistas, banhistas, atletas, os empregados que chegam nos ônibus cheios pra ocupar seus postos de trabalho, todo mundo passa reclamando do calor. Ainda assim, todo mundo passa. Enfim, uma hora o calor também passa.

No meio da paisagem, do ir e vir cotidiano, nenhuma cena chama a atenção de quem passa por ali todo dia. O mercado que abre, os jornais ainda empilhados ao lado da banca, os velhos se exercitando na praça. Os moradores de rua que chegam e, semanas depois, somem... Alguns vem pra (tentar) ficar. Outros, passam. Há os que foram arrancados de suas casas em nome do progresso, algum BRT (especulação imobiliária, né?) que precisava passar, enfim. Há os que, de fato, só estão ali de passagem. Um alerta de ressaca e, pronto: a praça em frente à praia recebe novos inquilinos à caça de algo de valor que o mar esqueça na areia. Esses últimos, invariavelmente (e por vontade própria), passam. Outros, não.

Após semanas de residência ali fixada, a garotinha já faz parte da paisagem. Sem obrigações escolares, não acorda muito cedo. Mas cumpre seus afazeres religiosamente. Escova os dentes, vai ao banheiro num canto debaixo do calçadão, arruma os brinquedos na mureta da praça... Cumpre sua rotina, toca a vida. Ela e seus brinquedos. A mãe ainda dorme. Os trapos mal lhe cobrem as pernas. O calor da manhã traz as moscas, que se amontoam por entre as coxas da mulher que, aparentemente, dorme sem se sentir incomodada com aquilo. A garota espanta as moscas, ajeita os trapos que cobrem a mãe e volta a brincar.

As madames que passam na direção da praia, preocupadas em não perder nem um minuto de sol, estão muito ocupadas pra notar. Quem passa de terno e pasta em punho, também. Mas a garotinha nota: sua mãe não se levanta, como de costume. Já passa da hora. A moça que deixa o copo de suco pro café da manhã já passou por ali. O café está servido e a mulher não se levantou ainda. A garota toma sua metade do copo de suco e cobre, cuidadosamente, a outra metade ainda no copo pra quando sua mãe se levantar.

A moça da prefeitura que cuida da praça (talvez menos preocupada com o próprio umbigo) percebe que alguma coisa não acontece como de costume, naquela manhã quente. Puxa papo com a garotinha. Instantes depois, tenta falar com a mulher deitada. Nada. Os idosos caminham pro outro lado da praça para seus exercícios, mas uma senhora percebe o que se passa. Se junta a funcionária da praça na tentativa de despertar a mulher que, a essa altura, já estaria coberta de moscas, não fossem os cuidados de sua filha. Mais um senhor chega e se junta às duas mulheres na tentativa de ajudar.

Já certos de que a mulher em trapos no gramado do canteiro sofre de algo, os três concluem que a melhor (ou única) opção é acionar um resgate. A garotinha percebe e se preocupa. Antes aparentando calma, a garota se agita e começa a andar de um lado pro outro. Dá a nítida impressão de não gostar da ideia. Quer resolver a questão ali. Da forma como for possível. A possibilidade de qualquer tipo de intervenção, ou de autoridade por ali, a deixa tensa.

Já não podia fazer muita coisa. O senhor, de telefone nas mãos, já discara o número da emergência. A senhora havia conseguido água, mas a mulher sequer tinha forças pra segurar um copo, ou coisa parecida. Nada de multidão. O bairro, assim como a cidade, tinha a capacidade quase instintiva de ignorar o que não lhe dizia respeito. Qualquer cidade talvez seja um pouco assim. Mas por aqui, enxergar o outro era das tarefas mais árduas. E ninguém tinha tempo a perder numa manhã de sol e calor como aquela. O calor ia passar. E qualquer vestígio de culpa também.

O senhor andava de um lado pro outro, gesticulava. Parecia ter avistado um resgate, mas o carro não chegava na praça. Havia pego outra rua. Talvez atendendo outro chamado. O vendedor de coco havia dado gelo pra água. Ofereceram à garotinha, mas ela já não queria nada que não fosse impedir a chegada de uma ambulância na praça. Sentaram a criança num dos bancos da praça. Outra senhora, após concluir sua série de exercícios, se dispôs a conversar e tentar acalmar a garota.

O dilema da criança era: se levam sua mãe para um hospital, seu destino seria um abrigo, ou coisa parecida. Vivendo na rua, dificilmente aquela mulher conseguiria ter sua filha de volta. E diante da possibilidade de ser tirada de sua mãe, nem mesmo o estado de saúde dela justificaria uma intervenção do Estado naquela história. Ninguém pareceu dar muita importância pro desespero da criança. Afinal, a vida da mulher estava em risco. Do que valeria, àquela altura dos fatos, o parecer de uma criança? Mesmo que a criança já conseguisse vislumbrar seu destino a partir dali.

O socorro não chegava. Quem passava, ignorava. Ou olhava com nojo, desprezo ou qualquer outro sentimento típico do povo daqui, quando não afeta suas vidas, sua rotina, seu bolso... O velho de peito estufado com pinta de militar, a madame voltando do banho de sol na areia imunda da praia, a jovem com a cara enterrada na tela do celular, o jornaleiro, o garoto com camisa de banda Punk, enfim. No fundo, ninguém se importava. Quem parou pra ajudar também tinha mais o que fazer. A boa ação do dia estava feita. Dever cristão cumprido! A preocupação, aquela pontinha de culpa por não fazer mais? Tudo isso ia passar..

Mais fácil pensar que o Estado dispõe de mecanismos pra cuidar da saúde daquela mulher e garantir um bom futuro pra sua filha. Afinal de contas, o cidadão de bem paga seus impostos, bate suas panelas e faz micareta a beira mar pra isso, não? Qualquer coisa que fuja a seus umbigos, não é problema deles. O Estado resolve! E, em último caso, a garotinha poderia se tornar cantora de Funk, e encontrar a mãe em algum programa de TV, anos depois. Belo e emocionante programa de domingo pras massas! Uma história daquelas na TV! Imagina!? Até a madame do banho de sol ia se emocionar!

Há uma infinidade de possibilidades garantidas pela constituição, mesmo que se insista em rasgá‐la em nome do cidadão de bem, do lucro, ou de um bem comum que nunca se vê (ou por pura maldade, vai saber..). E até a boa intenção, a solidariedade, a consciência tranquila, a boa ação do dia, os valores cristãos (seja lá o que for isso)... tudo isso passa. E passa rápido. Tudo isso é provisório.

A ambulância veio. A mãe não sobreviveu ao Estado. A garotinha, tempos depois, fugiu do Estado. Mas depois, virou um problema pro mesmo Estado. Número, estatística... Em uma semana, outra família já ocupava o canteiro daquele canto da praça.

Trliha sonora:
Radiohead :: “Kid A”
Violeta de Outono :: “Espectro”
Dag Nasty :: “Can I Say”

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