domingo, 26 de março de 2017

Sangue Azul Na Praça Vermelha :: Domingo

por: Rafael A.

Domingo gelado, de chuva fina. Frio incomum pra época do ano. Mas há quem goste. O frio era desnecessário, mas lhe faziam falta uns domingos como aqueles, vez ou outra. Manhã cinzenta que lembra Radiohead, Siouxsie & The Banshees e umas bandas meio obscuras dos 90's. Fica tudo meio que preto e branco. E, claro, não seria tao legal não fossem as ruas vazias e silenciosas de pano de fundo pra música que sai dos fones de ouvido. O sábado tedioso já passara; rápido, veloz e quase imperceptível. O silêncio de depois do almoço empurra pra rua.

Era reconfortante vagar pelas ruas do bairro naquele horário. Ninguém parecia querer ir pra rua com o tempo daquele jeito. Alheio à pizza, ao chopp do começo da noite, à festa e ao tédio da contagem regressiva pra outra semana começar, foi pra rua. E teve o conforto de que precisava. O povo da Califórnia não parecia encaixar com a paisagem vazia, morta. Melhor voltar pros ingleses! Em determinado ponto do caminhar sem destino,.os passos cansados de nada perdiam um pouco do sentido. Melhor procurar um bar. Melhor ir pra longe.

Tentando forçar resoluções pra semana, pro mês, pra vida, achou melhor esperar. Lembrou que não se deve tomar decisão alguma antes da primeira cerveja chegar, do brinde solitário na garrafa e do primeiro gole. No final das contas, esse tipo de resolução quase sempre sofre alterações com o acumular de garrafas na mesa. E quase sempre se abandona o planejamento, por fugir demais da ideia original. Era carnaval, ou o final dele. Aquele final de semana depois da quarta-feira de cinzas. Quando ainda tem gente tentando salvar o feriado, forçar um pouco mais do êxtase coletivo, ou forjar uma recordação pro decorrer do ano.

Nem havia percebido o quanto havia andado. Estava longe de casa e seu time jogava na TV. Boa desculpa pra permanecer em sua mesa. Terminada a partida, era hora de voltar a seus pensamentos, observar o bêbado de lugar cativo no bar, a aposentada, a solteira, os ativistas aos berros entre brindes, e os foliões atrasados que preferiam se manter bêbados, se agarrando ao último fio de felicidade. Uma felicidade que só voltaria daqui a um ano. Mais uma saideira! Nem que fosse pra esquecer que, no fundo, fazia o mesmo que os bêbado que passavam. Só o fio de felicidade (ou seria de paz?) que, no seu caso, tinha um prazo mais curto (afinal de contas, em uma semana, outro domingo chegaria).

Fim da transmissão na TV, voltava a programação de domingo. Preferiu voltar pro seu Radiohead. Mas não sem antes perceber que a mesa do pessoal politizado, ao seu lado, já havia sido tomada por acusações, dedos apontados e teorias das mais diversas e, por vezes, estapafúrdias. Até tinha um lado pra abraçar na discussão, mas não ali, não depois de tantas cervejas já terem passado por sua mesa. Um pouco de notícias? O rádio ainda repercutia o pacote de medidas covardes do governo que tomara o poder a força, meses atrás. Em meio à folia e analises parciais dos comentaristas, era como se boa parte das pessoas passando por ali não se importasse. Mas quem poderia saber, né?

O “Kid A” ainda parecia a opção mais razoável pra acompanhar a saideira. A terceira ou quarta, algo em torno disso. A morbidez da paisagem da tarde já desaparecera há tempos. A noite de domingo era a última chance pra alguns. E apenas mais uma noite de domingo pra ele. Lembrou da falta de perspectiva de um país entregue ao inimigo. Pensou na covardia de uns, na cara de pau de outros, em sua própria ignorância e impotência diante da realidade que passava trocando as pernas a sua frente.


Afinal de contas, basta baixar a cabeça e tomar pra si as rotinas de um futuro que não se escolheu. Basta confiar no cara da TV, no Estado, no salário que o patrão paga ou seja lá no que for, e seguir em frente. Basta se entregar ao processo, e acreditar. Seguir viagem. Impotente, impassível e adaptado à rotina da realidade que lhe cabe. Mas pra ele (e, quem sabe, pros foliões combalidos na calçada), ao menos ali, naquela mesa, nos seus fones, na paisagem moribunda daquela tarde, naquela realidade inventada e friamente calculada, era ele quem mandava.

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