segunda-feira, 15 de junho de 2020

Entrevista :: Alexandre Bolinho (Fuck Youth)


por: Rafa Almeida

Esta é a primeira entrevista em um bom tempo aqui no FMZ. Na verdade, é quase uma desculpa pra bater papo com um amigo de longa data, em tempos de isolamento. E na impossibilidade de uma mesa de bar neste momento, que a tecnologia trate de nos manter próximos aos nossos, certo? O vocal e guitarra da Fuck Youth (e de mais um monte de bandas) fala de som, isolamento e cena underground em tempos de pandemia. Difícil imaginar melhor forma de voltarmos com as entrevistas aqui em nosso fanzine! Confira!

FMZ: Desde nossa última entrevista se passaram uns bons anos. Você ainda estava com a Kopos Sujus e sequer imaginávamos o que enfrentaríamos nos últimos três meses. O que andou fazendo no underground?! De cabeça lembro de umas duas bandas, de lá pra cá, pelo menos...

Bolinho: Bicho, tenho a impressão, às vezes, que 2020 já tem 19 meses... muita coisa. O Kopos Sujus não chegou a “acabar” oficialmente, né? Foi deixando de tocar, mas seguimos nos falando. Quando o Marcelo saiu, o Davi viajou, passou um tempo fora e quando ele voltou ainda tentamos um tempo com o Rafael Pocket (Gambrinus 74). Mas eu tava meio desanimado e não foi pra frente. Este ano lançamos quase tudo da banda nos serviços de streaming.

Daí durante os atos do “Fora Temer” o Vital (Jason/ Poindexter) me chamou pra montar uma banda de Punk Rock de combate, falando dos dias atuais. Nasceu o Cidade Chumbo que em um curto espaço de tempo lançou dois álbuns (também disponíveis nas plataformas de streaming), fez uns shows bem divertidos e me trouxe de volta ao prazer de só tocar, sem cantar. Com a ida do Barba pra Bahia e a entrada do Vital no Matanza, a coisa ficou fria e a banda tá de molho. Mas quem sabe?

E há dois anos e meio tô enfiado de cabeça no Fuck Youth, que é um power trio Garage Punk e uma das bandas mais criativas e “livres” em que já toquei. Tem sido um grande barato até aqui e na semana em que tudo isso explodiu, iríamos entrar em estúdio pra gravar nosso terceiro álbum (os dois primeiros também estão disponíveis nas plataformas de streaming).


FMZ: O último trabalho é a Fuck Youth, que já tem material lançado, inclusive! Conte um pouco de como a banda surgiu, e o que já rolou até aqui.

Bolinho: Bicho, foi uma brincadeira que se tornou muito bacana. Começou super despretensiosamente. Em uma noite, li uma entrevista do Cramps falando sobre movimento minimalista, Rock De Garagem dos 60’s e na hora me bateu um estalo de fazer algo básico, minimalista. Escrevi para o Jean na hora e ele topou de cara. Logo em seguida pensei no Leandro e na semana seguinte já estávamos ensaiando, com 4 músicas compostas. A coisa fluiu fácil demais, em 4 meses já gravamos nosso primeiro EP. De lá pra cá fizemos algumas dezenas de shows, viajamos, fizemos amigas e amigos pra caramba e temos tentando manter uma atividade constante, compondo, gravando e marcando shows com periodicidade. Tem sido uma jornada bem divertida até aqui.


FMZ: Há três meses atrás, ainda conseguíamos ir a shows, tínhamos um ou outro espaço rolando pras bandas aqui no Rio, enfim. O que acontece a partir daqui com o cenário underground do Rio?

Bolinho: Sinceramente, não tenho a menor ideia. Acho que ninguém tem. Em Janeiro fizemos um fim de semana de três shows (sexta, sábado e domingo) em três lugares e regiões da cidade e tinha, naquele momento, a impressão de que seria um tremendo ano: públicos diferentes em cada lugar, bandas se movendo juntas, boas estruturas. Agora tem mil cenários e nenhum me parece animador. Muitos lugares terão dificuldades em se manter abertos. A crise afeta diretamente a capacidade financeira da galera de ir aos shows também. Mas, toda crise da humanidade produziu muita criatividade nos artistas de sua época. A conferir.


FMZ: E o que acha que acontece com a música de uma forma geral, até podermos "nos aglomerar" novamente? Dá pra imaginar Rock sem plateia?

Bolinho: Cara, não dá pra imaginar o que virá, mesmo. Por algum tempo, a limitação dos shows terá que ser reduzida e com o mínimo de contato. Como fazer isso no underground? Como fazer um show de Hardcore sem mosh, stage dives e afins? Ao mesmo tempo tenho sentido que as “lives” tem produzido esse sentimento que a música é “O” show, a presença, o encontro. O que mais ouço sobre as lives é que “enche o saco”, “não é a mesma coisa”... e não é mesmo. Houve um momento da crise que cheguei a imaginar um cenário positivo, de pessoas ávidas por shows no pós pandemia, enchendo de novo as gigs e apoiando as bandas. Hoje não sei mais. Muita coisa terá que ser criada, reinventada, remodelada. E não podemos precisar “o que” nem “como”, ainda.


FMZ: Ainda sobre aglomerações e encontros. O underground, assim como qualquer outro meio ou cena, sempre se manteve, ao menos localmente, com o encontro das pessoas. Ou seja, ir aos lugares sempre foi importante. Como fazer pra manter (ou resgatar) o que entendemos como cena? Não só pra bandas ou espaços de shows, mas com relação às pessoas.

Bolinho: Em um dos textos que tenho lido, o Mbembe, que escreveu e desenvolveu o conceito de “necropolítica”, fala que o maior desafio da pandemia é reconstruir um conceito de comunidade, destruído em um período em que sequer podemos enterrar nossos companheiros e companheiras. Acho que, ao mesmo tempo em que estamos todos ansiosos por reencontrar as pessoas que amamos e em quem confiamos, nossas comunidades, também passamos a partilhar desse medo do outro. Medo do contágio, medo da morte. Oscilo entre uma esperança que tudo isso poderá reforçar os laços e elos entre pessoas que compartilham de valores e visões de mundo comuns, como nos caso das cenas do underground; e, por outro lado, acreditar que podemos começar a criar uma cultura de afastamento e impessoalidade, da ausência da necessidade do outro. Toda noite, toda, sonho como será um show do Fuck Youth assim que for possível. E não consigo visualizar nada concretamente. Porque, com certeza, não será como foram os shows de Janeiro. Serão outros contextos e modos de estar juntos que teremos que criar.


FMZ: Mudando um pouco, mas sem sair do tema. Como faz pra dar conta de passar mais de três meses trancado em casa? O que tem feito pra ocupar a cabeça?

Bolinho: Primeiro, ficar em casa deveria ser um direito de toda classe trabalhadora, garantida pelo Estado. Um Estado que assume sua responsabilidade frente a seus cidadãos e membros. Mas tem sido um privilégio, de poucos. A estes poucos, mesmo reconhecendo todas as dificuldades e desafios (dividir espaços, cuidar de crianças e velhos, abrir mão dos encontros, enfrentar a inexorável solidão, conviver com o silêncio, conviver com o desgaste de casal, etc), sempre convoco a pensar que adoecer e morrer são os piores problemas. Vivos e saudáveis podemos dar conta de todos os efeitos do isolamento, em especial os efeitos para a saúde mental.

Para mim não tem sido um processo linear, mas de altos e baixos. O que mais tem me doído e atormentado é a falta da rua. Não da rua da festa, dos bares, mas da rua como campo de enfrentamento político. Sob condições normais deveríamos estar tomando as ruas com protestos e manifestações, o país deveria estar pegando fogo. As ruas são a tela onde se pinta a revolta popular. E sem as ruas tenho sido tomado por uma imensa e intensa sensação de impotência.

De resto, no dia a dia, tenho trabalhado muito, graças ao direito de ser professor de universidade pública com acesso ao trabalho remoto. Mantido uma rotina de horários, lido muito, escutado MUITA, mas MUITA música. Descobri trocentas bandas incríveis novas, compus muito e lancei três sons solo, em um projeto chamado “memórias de quarentena”, que podem ser acessados no meu bandcamp. São musicas bem diferentes de tudo que já fiz e o isolamento tem me feito compor e tocar muito. Também retomei uma ideia de rever clássicos do cinema, que tem sido uma delícia. E tentado injetar uma grana para os entregadores, além das tarifas de entrega, reconhecendo que é uma das categorias mais sensíveis, exploradas e expostas aos riscos neste período.


FMZ: Enquanto ficamos trancados em casa um turbilhão de coisas acontece no país. Ameaças à democracia, negação da ciência e absurdos afins. Como acha que chegamos até aqui?

Bolinho: Putz, bicho. Essa pergunta daria um tratado. Mas primeiro, reconhecer que vivemos algo que faz parte de um processo global. O capitalismo chegou a um limite em que sua sobrevivência não se dará mais pela “doce sedução” de uma sociedade equilibrada entre exploradores e explorados, como a social democracia tentou fazer crer por mais de 40 anos. A força bruta e ações explicitamente violentas e retrógradas são efeitos de uma demanda do capital para manter-se vivo e operativo. Por outro lado, os vírus que produziram Bolsonaro e sua corja estavam infectando nossa débil democracia deste a anistia, que criou um falso princípio de equivalência entre assassinos e resistências, não puniu os torturadores e genocidas e permitiu que seguissem em nossa vida política e institucional. Por fim, as (falsas) promessas neoliberais de que o consumo libertaria e traria igualdade as populações proletarizadas, não se consumou, gerando um imenso e transversal ressentimento com parte da política. Isso permitiu que figuras abjetas que se apresentam como “anti-sistema” ganhassem fôlego e construíssem um séquito de cegos e surdos. TUDO isso acima é bastante superficial e raso para analisar uma realidade tão complexa como a que temos vivido, mas é para mim o início de um processo de organização das resistências que teremos que mobilizar.


FMZ: O papel das Organizadas nas últimas semanas, indo pra rua e levantando a bandeira antifascista, pela democracia, te surpreendeu?

Bolinho: Primeiro é importante situar que estas disputas também se dão no interior destes grupos. As torcidas organizadas são múltiplas e complexas em seu interior, com disputas sobre seu caráter e orientação, desde sempre. O papel das torcidas antifascistas é dar visibilidade a esta diferença. E tem sido importante. Não me surpreendeu porque venho acompanhando de perto o crescimento deste movimento no país a, pelo menos, cinco anos. Mas é animador. E uma centelha de esperança. Mas a grande força motriz de resistência vem, de fato, dos movimentos de mulheres. É dali que vemos com mais contundência a resistência e as estratégias de luta.


FMZ: E em nosso mundinho underground? Entre antifas e "eu só curto o som", acha que o cenário se engajou na luta como era de se esperar?

Bolinho: Se tem ALGUMA coisa boa nisso tudo que vivemos desde 2015 é que as bandas passaram a assumir posicionamentos mais explícitos e as cenas tornaram visíveis seus micro-núcleos reaça, tornando inclusive a presença desses sujeitos algo indesejável – lembrando que por muito tempo muita gente dúbia e suspeita foi aceita em algumas cenas em nome da tal “brodagem”. Não só no Hardcore, com movimentos como o “Hardcore Contra O Fascismo” e com discos incríveis que saíram deste período (“Contrariedade”, do O Inimigo; “Libertatem”, do Questions; “Ponto Cego” do Dead Fish). Mas também dentro do Indie em suas diferentes vertentes e até no metal, que sempre foi um nicho de gente mais conservadora, é visível o crescimento da reação à presença de conservadores e fascios em geral. Tenho ficado muito regozijado com muita coisa que tenho visto e escutado vindo do underground. E com muita esperança também.


FMZ: Pra finalizar, o que esperar do mundo pós-coronavírus?

Bolinho: Sobreviver. E lutar por outro mundo. Porque o velho mundo irá retornar com mais força, mais fome de sangue e carne pobre e preta, mais sanha assassina. Espero que tenhamos força e gana para os enfrentamentos que virão. E espero encontrar com vocês nas trincheiras.


Conheça as bandas: Fuck Youth :: Cidade Chumbo :: Kopos Sujus


foto: divulgação

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