• Rafa Almeida

Artigo | 1917, lembranças e algumas considerações


Agathocles | foto: reprodução/internet

Variações do mesmo tema ou “como foi que chegamos até aqui?”

Por mais que nos parecesse lugar comum entender o Rock e suas vertentes como cultura de raízes libertárias, é fato que o underground, de uma forma geral, fechou os olhos para manifestações de cunho preconceituoso ao longo do tempo. Não que não houvesse pessoas vigilantes, atentas a detalhes que apontavam para uma descaracterização da revolta contida nos refrões gritados a plenos pulmões, nas rodas de pogo ou nos riffs entoados em “inferninhos” e garagens, Brasil e mundo afora.

Talvez tenha sido um erro atribuir o “fascismo na cena underground” a um ou outro grupo, ou subgênero. Na verdade, foi um erro, sim. E quando olhamos o cenário Rock (underground ou mainstream) e nos surpreendemos com pessoas preconceituosas, conservadoras ou os “isentões”, confirmamos que em algum momento a coisa saiu dos trilhos. Quanto ao mainstream, é natural. O capitalismo se encarregou de “embranquecer” e elitizar o Rock (não deixa de ser um produto a ser vendido, não podemos esquecer disso também).

Em nosso “mundinho underground” as coisas pareciam diferentes. Até certo ponto, claro. Porém, até a forma de se manifestar, questionar e instigar reflexões precisou ser revista. O discurso precisou ser mais direto e claro. Ok, todo mundo tem direito ao aprendizado. E aprendemos muito nos últimos anos (ao menos este que vos escreve, sim...rs). Mas, se recusar a evoluir, definitivamente, não me soa cabível (ao menos a quem sempre desfrutou de privilégios no acesso à cultura e informação). E, a partir daqui, quero me concentrar (ou, pelo menos, tentar) no que rolou no Brasil de uns anos pra cá. Ou, ao menos, no underground daqui.

Somos obrigados a concordar que o discurso de protesto se descolou do Rock e a função de contestar foi abraçada pelo Rap e outros estilos. Assim como o Punk encontrou eco nos subúrbios brasileiros há décadas atrás, a cultura hip hop floresceu da mesma forma nas periferias. O fato do Rock ter chegado aqui como música de jovens brancos de classe média não justifica muita coisa. Afinal, a dificuldade de acesso a música e cultura sempre foi a tônica nos subúrbios. O que não impediu que jovens periféricos encontrassem no Hip Hop, por exemplo, um canal para se expressar.

A impressão é que tanto o Hip Hop quanto outras manifestações artísticas mais enraizadas na cultura brasileira, em seus cenários, souberam (ou aprenderam a) se preservar quanto a manifestações racistas, machistas e homofóbicas. Com o underground roqueiro, ao que parece, foi diferente. E nem a facilidade de acesso à informação promovida por conta da tecnologia foi capaz de desfazer certas características impostas ao universo do Rock, pelo capitalismo, lá no início, pra fazer do Rock um produto vendável (música de homens, brancos... Elvis com certeza vendeu mais do que Little Richards seria capaz de vender...).

De volta ao Brasil dos últimos anos (a ideia era falar disso nesse começo..rs): o que resultou na chamada polarização política, envolve necessariamente uma classe média conservadora e preconceituosa (e hipócrita também). E o Rock, apesar de ser consumido, desde que aqui chegou, por essa mesma classe média, em tese, deveria repudiar qualquer pensamento retrógado. Assim pensávamos. Ou achávamos que pensávamos. Discussões como xenofobia, machismo e outros acabavam ficando restritos a pequenos grupos. As pautas feministas, por exemplo, eram discutidas por mulheres, e só por elas, na maioria das vezes. De alguma forma, reproduzíamos os mesmos aspectos do mainstream (guiado pelas diretrizes do capitalismo). O mesmo capitalismo que, nas letras, palavras de ordem e em nossos fanzines, repudiávamos.

Isso não é regra. Sempre houve quem gritasse a plenos pulmões o que varríamos pra debaixo do tapete (alguém aí lembrou do Redson?). Conversando com um amigo, pós golpe de 2016 e já caminhando para as eleições de 2018, concordamos com um triste fato: as bandas que ouvimos e as coisas que lemos, desde sempre, estavam nos falando sobre tudo o que hoje entendemos como valores necessários e que merecem ser defendidos...

Por sorte, a tragédia que se abateu sobre o país a partir do golpe de 2016 também serviu para que, no underground roqueiro, uma série de reflexões nos fossem impostas. Quem aplaudiu (em nome do combate a seja lá o que for – contra corrupção que não era...), quem se calou, se declarou isento... Ou a turma do “contra tudo e todos”, mesmo diante de uma ameaça fascista. Enfim, todo esse povo pôde ser identificado. Ódio, desprezo pela vida, preconceitos. Tudo exposto e amparado pelo mais absoluto silêncio (e ratificado em 2020, com o descaso dessas mesmas pessoas diante da pandemia de covid-19). É triste saber que, a partir daqui, não poderemos estar com pessoas de quem gostávamos, com quem dividimos momentos, shows, mesas de bar e até o palco. Mas, como disse, serviu para alguma coisa. Sabemos quem é quem (vale pra 2016, 2018 e 2020).

Agora, sim. Cheguei onde queria (rssrs)! A parte boa de todo esse mar de decepção, desconstruções (ou eternas tentativas de) e reflexões pelas quais passamos, é que aos poucos fomos nos reencontrando. E foi o mesmo underground onde crescemos e que nos afastou de quem tinha de ser afastado, que nos brindou com formas de resistência e com a certeza de que, apesar dos pesares, nos mantivemos do lado certo da história. Você não precisa ter formação política, ser filiado a um partido (pra mim, por exemplo, não rola) nem nada do tipo pra se perceber em um momento histórico onde os valores mais básicos para a vida em sociedade estão sob ameaça, e se levantar contra isso!

E no meio de tanta coisa legal sendo arquitetada e lançada, gente se encontrando (mesmo que virtualmente, em tempos pandêmicos) e produzindo arte, cultura e potencializando formas de resistência das mais diversas, quero falar de um lançamento em especial, que me trouxe algumas lembranças e serviu de fio condutor para falar sobre tudo isso aí em cima!

1917 e o underground do lado certo da história

O blog NoiseRed é uma iniciativa que não esconde suas raízes e seus valores. Tem orientação marxista, se dedica a disseminar informação e música pesada e trata o underground como o que ele é: foco de resistência! E em meio a pandemia, o blog foi responsável por mais um grito de resistência em tempos tão sombrios! A coletânea 1917: O Ano que Não Acabou. O título faz referência às greves de operários no Brasil, no início do sáculo XX. E o time escalado é da melhor qualidade!

Sobre lembranças: este fanzine já teve sua coletânea virtual. A Patch (isso, de patches, retalhos e tal..). Era muito legal ter a sensação de estar promovendo não só o encontro de artistas independentes com novos públicos, mas também com outros artistas! Conseguimos reunir bandas do Brasil, de outros países da América Latina, enfim. Reunimos bandas e sons que dificilmente se encontrariam por aí. No caso da 1917, o foco é o som pesado. Heavy Metal, Grindcore, Hardcore e por aí vai. Mas o espírito é bem parecido!

Outra lembrança tem a ver com a participação dos belgas da banda Agathocles, na coletânea do NoiseRed. Há tempos atrás, este fanzine participou da produção do show da banda no Rio, em sua primeira passagem pelo Brasil. E mais legal que contribuir para que uma verdadeira lenda viva do underground subisse ao palco em terras cariocas, é constatar que os valores defendidos pela banda ao longo das década se mantém intactos (geralmente, nesses casos, são pequenos detalhes dos bastidores que nos fazem admirar mais determinados artistas)!

Sobre a escalação de 1917: O Ano que Não Acabou, aí vai uma parte do time: Voland (Itália), S.U.C (Brasil), Stanfield (Reino Unido), Eletrikeel (Espanha), Hidstein (Dinamarca), Boçal (Brasil), Operation Volkstod (Alemanha), Carnissa (Brasil), Rattenkrieg, as clássicas Macakongs 2099 (c/ Dino Black) e D.F.C (de Brasília/DF) e Turba Violenta (Brasil) entre outros! São ao todo quarenta e três artistas gritando contra o fascismo e fazendo som da melhor qualidade! As audições estão liberadas no Bandcamp do NoiseRed e no app do selo Tocaia, outro projeto muito bacana, do qual já falamos aqui no FMZ!

Me soa natural que um lançamento como a 1917: O Ano que Não Acabou sirva de fio condutor para falar sobre outras questões inerentes a nosso “mundinho underground”, como disse. Afinal, chegamos a um ponto onde se fez necessário defender o óbvio e sintetizar o discurso para que certos valores fossem compreendidos. Há outras iniciativas, como a do NoiseRed, pipocando por aí! E, num momento como esse, todo apoio a esse tipo de projeto é importante! E que venha outros! E cada vez mais!

E apesar deste fanzine não ter autoridade para determinar coisa alguma, alguns valores básicos (como já mencionado) serão sempre defendidos neste espaço. Fazer arte é um ato político, sim. Se arte e vida se confundem e se refletem, não dá para dissociar a arte que produzimos e consumimos de nossos posicionamentos e dos valores que carregamos.

Ouça 1917: O Ano que Não Acabou em: Bancamp | Tocaia

Conheça o blog NoiseRed aqui.

Conheça o selo Tocaia aqui.

Sobre o Tocaia aqui no FMZ.

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