• Rafa Almeida

Artigo | Dia "Mundial" do Rock?

Atualizado: Ago 30



Segunda semana de julho e o fã de Rock, em tempos de redes sociais, já se prepara pra uma enxurrada de postagens, memes e vídeos compartilhados celebrando o Dia Mundial do Rock. A origem da data é relativamente conhecida. Mas há muito mais a ser investigado num universo tão vasto! Principalmente no Brasil...


Vamos lá! A origem do Dia Mundial do Rock, talvez, você já saiba. Em 13 de julho de 1985, capitaneado pelo musico irlandês Bob Geldof, o concerto Live Aid foi transmitido pra mais de dois bilhões de pessoas ao redor do mundo. O evento realizado em cidades como Londres, Filadélfia e Moscou, simultaneamente, tinha o objetivo de arrecadar fundos para combater a fome na Etiópia.


Tem um artigo muito bacana no portal Roadie Metal, do ano passado, contando a história desse tal Dia Mundial do Rock (leia aqui). Nele, o estudante de História Flávio Farias traz detalhes importantes de como a data em que o Live Aid foi transmitido pro mundo se transformou no Dia do Rock. Tem coisas lá que eu não fazia ideia! Por exemplo, o fato da data ter sido uma espécie de sugestão (ou desejo) do, ex-Genesis, Phil Collins!


Aqui, eu queria tratar da data no Brasil. E por um motivo muito simples: é só no Brasil que se celebra o "Dia Mundial do Rock". Ou, pelo menos, se comemora com o fervor do roqueiro tupiniquim! Tem explicação. E ela está no artigo da Roadie Metal que citei.


Uma parte dessa história eu já sabia, mas ficou mais claro pra mim ao ler o artigo do Flávio! Foram rádios paulistas que passaram a comemorar a data. A partir daí, e sendo que São Paulo sempre foi uma espécie de capital do Rock no Brasil, não foi difícil o Dia Mundial do Rock se espalhar por todo o território nacional.


A data tem, sim, uma finalidade comercial. Numa época em que se via lojas e casas de shows "especializadas" em Rock, é natural que haja uma data pra dar uma aquecida num mercado que, mesmo que nunca tenha rendido fortunas por aqui, sempre resistiu bravamente. Ou até a internet chegar e complicar tudo.


O que me interessa nesta reflexão é chegar no que, de fato, esse tal Dia Mundial do Rock, que só parece ser levado a sério no Brasil, representa.


Tudo bem! Em alguns Estados e Municípios brasileiros temos o "Dia do Samba", "Dia do Reggae" e por aí vai. Em todas essas datas, há um esforço dos envolvidos no respectivo meio para associar e reforçar a importância de sua cultura pro nosso país.


Concordo que reivindicar a atenção do Estado ou do mercado pra um estilo (ou cultura) que tem em suas raízes a contestação de valores, costumes e, por vezes, um discurso revolucionário e de ruptura com o socialmente aceito, como o Rock, soa até meio inocente.


A saber: aqui em Niterói/RJ temos um Dia Municipal do Rock, 4 de dezembro. E é claro que é válido quando o poder público reconhece uma cultura como relevante o bastante para promovê-la, mesmo que só por um dia. Mas não desconsideremos os aspectos citados no parágrafo anterior, certo?


Como citei em artigo recente, sobre as origens antirracistas do Rock'n'Roll, não dá pra ignorar que o estilo chegou no Brasil, a princípio, para jovens de classe média devido ao difícil acesso a discos, livros e outros artigos relacionados ao gênero.


Ao mesmo tempo, não há como não notar que, ao longo das décadas, o estilo se fundiu com nossa cultura. Melhor exemplo (e que Suassuna me perdoe) que o Mangue Beat de Chico Science & Nação Zumbi (foto) e Mundo Livre S/A, não haveria de ter!


Se essa integração é suficiente para, um dia, encararmos o Rock Nacional como um gênero musical estabelecido como parte de nossa cultura, é outra história! E não me refiro à versão tupiniquim da New Wave que vimos por aqui, a tiracolo do BRock 80.


Me refiro à adaptação precisa do português à métrica e melodia, comuns ao estilo, praticada por Renato Russo em suas composições. À produção artística e cultural na periferia de São Paulo, no fim dos anos setenta e início dos oitenta, recriando sem perceber o (recém chegado por aqui) estilo Punk. Também à releitura e mesclagem do ritmo americano com ritmos regionais. Como o citado Mangue Beat no Nordeste e o Rock Gaúcho, no Sul. E claro, à Tropicália de Mutantes (fundamentais pra pensarmos Rock no Brasil), Gil e Caetano!


Se uma cultura pode ser difundida, consumida, defendida e celebrada. Se essa mesma cultura gera empregos, sustenta negócios e se faz presente no mercado e numa fatia da economia, é justo que ela seja encarada com um pouco mais de atenção e cuidado. Ao invés de ser resumida a camisetas com estampa de bandas, pulinhos, gritinhos e palavras de ordem absolutamente vazias, e sem o menor sentido.


Há produção acadêmica sobre Rock, Punk e Underground no Brasil. É bem comum (e muito bem vinda) entre estudantes de jornalismo, história e afins. E há livros (ainda é pouco, mas há) tratando do estilo sob os mais diversos aspectos também - a coleção Ouvido Musical, da Editora 34 é espetacular e recomendadíssima, inclusive!


E não estou dizendo que não temos mais com o que nos preocuparmos, ou compreendermos em nosso país, sociedade e nossa história. Mas olhar todo um universo, toda uma produção artística (qualquer que seja) de forma superficial é, definitivamente, um desperdício.


Não dá pra exigir de ninguém esse tipo de olhar sob um estilo elitizado e muitas vezes "arredio", das mais diversas formas. Mas se o que está (mal) escrito aí em cima te levou a algum tipo de reflexão, já tá valendo!


A questão não é celebrar ou não o Dia Mundial do Rock, ou Dia do Rock. Mas entender que a questão merece uma análise muito mais profunda. Quando resumimos a coisa a um "Viva o Rock'n'Roll", "Feliz Dia do Rock" ou "Uhull" (seja lá o que for isso), transformamos muito em pouco, um todo em nada.

foto: divulgação


#feiramodernazine #artigos #diamundialdorock

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