• Rafa Almeida

Artigo | Enquanto isso, do lado de cá da poça...

Atualizado: Ago 30



O início (ao menos pra mim).


Definitivamente, não é o momento de tentar vislumbrar um panorama do cenário underground do lado de cá da Baía de Guanabara. Em meio à uma pandemia, apesar da irresponsável tentativa de retomada de setores da economia, não dá pra sequer pensar no tipo de cena independente que encontraremos no "novo normal".


Entre lives e lançamentos virtuais, se abre uma brecha pra tentarmos entender como chegamos até onde estávamos antes de tudo parar. Na verdade, o que vem a seguir é uma tentativa de entender como um bom momento para o meio underground, como o da virada dos anos noventa pros dois mil, de alguma alguma forma passou batido. Talvez não tenhamos conseguido reconhecer o tanto de coisas legais que tínhamos. Ou, simplesmente, foi o mundo que seguiu seu curso, deixando pra trás alguns de nós saudosos de um tempo que não volta.


Recentemente, entre postagens e links nas redes sociais, me deparei com dois perfis de bandas no Palco Mp3 e Soundcloud, respectivamente, que me transportaram pra uma época distante... Ainda antes de xerocar as primeiras cópias do FMZ...


Ambas as bandas surgiram no underground do lado de cá da Ponte Rio-Niterói. E apesar da proximidade geográfica, representam cenários bem distintos que coexistiram num determinado momento.


A primeira que encontrei foi a Abstral, da qual faziam parte ex integrantes da banda Época. Pela sonoridade, quem assistiu shows e acompanhou o Época, percebe claramente que o Abstral é uma continuidade do primeiro trabalho. Isso foi em São Gonçalo.


Cruzando a Avenida do Contorno e chegando a Niterói, semanas depois achei a Dirty Shoes. Banda niteroiense de Hardcore Melódico que habitou os palcos da cidade, com direito a um belo CD lançado, em fins da década de noventa.


Apesar da disparidade econômica e social entre os dois municípios, Niterói e São Gonçalo se unem em muitos aspectos. Também se separam por conta de outros e partilham muita coisa em comum também. E com o cenário underground não poderia ser diferente. Nunca é. Nosso meio sempre reflete a sociedade em volta de nós, por mais que muitas vezes neguemos isso.


Este fanzineiro (adoro o termo! hehe) que vos escreve, nascido em São Gonçalo, ainda criança se mudou pra vizinha Niterói. Veio a pré adolescência e a adolescência. E os discos, revistas, fanzines e livros proporcionaram-lhe conhecer a rua, o mundo. Ou, pelo menos, o que era o mundo pra ele naquele momento.


De volta à primeira pessoa. Meus primeiros passos e descobertas no underground se deram aqui no meu quintal, Niterói. Mas em muito pouco tempo já me aventurava do outro lado da Ponte descobrindo sons e lugares. Outra descoberta importante, foi que a cidade onde nasci tinha uma cena underground. E tinha mesmo!

Rock de Subúrbio e A Terra de Arariboia!


"Periferia é periferia, em qualquer lugar...", cantou alguém que não consigo lembrar agora. Mas São Gonçalo reunia todos os ingredientes necessários à uma cena independente próspera. Bandas com trabalho autoral, espaços para shows, projetos bacanas como o Off Mídia, que levava bandas ao palco do SESC local e outros. Rolavam rádios comunitárias tocando as demos e o mais importante: um público interessado em trabalhos autorais. Pessoas que saiam de casa dispostas a conhecer o novo!


Desse cenário, alguns frutos diretos. Zoeira Cultural na Parada 40, eventos no antigo Bar do Blues, Bar do Fusca, Galpão S8 (o nome era esse mesmo?) e outros espaços em diversos cantos de uma cidade que, com tradição musical, não ficava devendo a nenhuma outra da região metropolitana do Rio, quando o assunto era underground.


Em Niterói, as coisas pareciam funcionar de um jeito diferente. Enquanto o cenário gonçalense era típico de uma região periférica, em Niterói (quase) tudo apontava pra classe média, da Zona Sul da cidade. Na verdade, nem tanto, até porque o que mais se via nos shows era gente de São Gonçalo e de outras áreas da cidade.


Seja como for, Bedrock, Espaço DCE-UFF, Estação Cantareira, Pista de Sk8 de São Francisco, Gato Preto, Praia do Delírio, Rock na Calçada e Guaraná Fashion (lembram disso?) estavam, majoritariamente, localizados em bairros da Zona Sul ou Região Oceânica. E até o som das bandas remetia a algo, digamos, mais "elitizado". Não que dê pra tratar arte dessa forma, mas acho que deu pra entender...


Citar bandas é sempre arriscado nesse tipo de artigo. Mas se faz necessário para situarmos bem o período ao qual me refiro. Em Niterói, a citada Dirty Shoes dividia os palcos com as meninas da Yolk, o som industrial (dá pra chamar assim?) do Tronn, o Ska do Bendis e o Punk 77 do Nauzia entre outros!


Em São Gonçalo consegui acompanhar alguns nomes. Já falamos do Época aqui. E o som alternativo deles convivia bem com os também alternativos Boddah e Incrível Mart (foto). O HC Melódico da A Kombi que Pega Crianças, em suas primeiras formações, em tudo, despontava como aposta para alçar voos no mainstream. Filhos da Pátria, DWE, Fogo Fátuo, Frontal, Estado Livre e as Punks Indigentes e Sem Nada, entre outras do estilo que apareciam e sumiam com uma velocidade impressionante.


No que diz respeito à pluralidade de estilos, São Gonçalo sempre se saiu bem. Do Punk ao Rock Alternativo, bandas e público conviviam espantosamente bem, na medida do possível. O underground de Niterói também tinha sua diversidade. Mas aí voltamos às questões econômicas e sociais que separavam as duas cidades.


Bandas e público de Niterói, de um modo geral, desfrutavam de um padrão de vida mais alto. E não pareciam tão dispostos a interagir com os vizinhos gonçalenses. Por outro lado, como disse, era comum ver a galera de São Gonçalo dando as caras por Niterói. De novo: cena underground reproduzindo a sociedade em volta dela.

Algumas lembranças...


Como de praxe no meio independente da época, a troca de shows entre bandas de cidades diferentes era comum. E nomes de municípios vizinhos vivam atravessando a poça, ou a Niterói-Manilha! Ogiva do Caos, de Itaboraí e os cariocas da ORN (que virou Matilha) estavam sempre por São Gonçalo.


Niterói, muito por conta da Bedrock, Cantareira e outros espaços um pouco mais bem estruturados, recebia nomes em alta no underground com uma maior frequência. Planet Hemp, Raimundos, Los Hermanos, Chico Science & Nação Zumbi, Pavilhão 9, Holy Tree, os californianos da Down by Law, enfim. Nomes já com uma certa projeção no cenário nacional passavam pelos palcos da cidade.


Apesar dessa diferença na circulação de nomes de fora, trabalhos autorais pareciam despertar um interesse maior da galera de São Gonçalo. Mas não que aquele cover estrategicamente inserido no repertório não desse bons resultados em shows nas duas cidades!


É importante ressaltar que estou tentando abordar um período que se deu entre 1997 e 2002. Algo em torno disso. Por que? Explico! A partir de meados dos anos 1990, comecei a circular pelos espaços underground, como citei. Porém, só passei a organizar melhor materiais e registros e de shows, por exemplo, quando o Feira Moderna Zine começou. E nossa primeira edição saiu em janeiro de 2002. Sendo assim, muito do que citei até aqui é o que minha memória conservou ao longo dos anos.


De qualquer forma, quero reforçar esse período por um motivo: A partir de 2002, já circulando com o FMZ, com minha banquinha de materiais independentes ou mesmo produzindo shows (a partir de 2003), o cenário mudou!

"Devo ocupar! Devo produzir! Devo resistir!" *


O Convés passou a ser endereço costumeiro de shows, em Niterói. As matinês do Domingão HC, o site Rio HC e outros produtores e bandas colocaram a casa e a cidade no mapa de um cenário de Hardcore que se tornaria importante pro underground nacional a partir dali.


De volta a São Gonçalo, os espaços foram ficando escassos. Ao mesmo tempo, os shows de bandas covers, na cola da onda do New Metal ganharam uma fatia e tanto de um cenário que tinha nos trabalhos autorais, seu ponto forte. Era possível que ambos convivessem? Talvez. Mas certo é que as duas vertentes, cover e autoral, não conseguiram delimitar seus espaços na cena roqueira da cidade.


As bandas autorais continuaram a existir e surgir também, bem como espaços e eventos. Porém, com o passar do tempo, o esquema "venda ingressos e toque" (que nada mais é que um "pague pra tocar") tomou conta de quase tudo.

E vieram os roqueiros coloridos...


A geração "emo" (ou a versão tupiniquim do estilo), poucos anos depois, produziu uma quantidade enorme de bandas. Mas pouca coisa, de fato, relevante. Vieram eventos enormes, 50, 75, 120 bandas! Todo mundo tocava ao mesmo tempo, ninguém se ouvia. Quem estava ali pra apresentar um trabalho com um mínimo de seriedade, se decepcionava. Ou simplesmente não tocava. A essa altura, o ar de novidade da cena que, anos atrás, habitava a cidade, foi se perdendo.


Quase que ao mesmo tempo, Niterói caminhou pra outra direção. O bom e velho Convés, a Box 35 e iniciativas como o Arariboia Rock, mantinham um cenário um pouco diferente do que a cidade dispunha na década passada.

Era ótimo (e de fundamental importância) que bandas independentes tenham contato com uma faceta mais, digamos, profissional do underground. Forçar que esses artistas sejam responsáveis, organizados e tenham cuidado com a própria obra, no que diz respeito à qualidade dos materiais lançados, por exemplo, é importante.


Se por um lado "subir o nível" em alguns aspectos colocava Niterói na rota dos festivais independentes, muito em alta na época, por outro, uma parcela das bandas, determinados estilos e até parte do público passava a não se sentir mais como parte do cenário da cidade.


É óbvio que oferecer uma boa estrutura (desde equipamentos até assessoria de imprensa - e nisso o Arariboia Rock, por exemplo, era impecável) valoriza o trabalho e faz as qualidades de um determinado cenário saltarem aos olhos de quem olha de fora. Mas é fato que os caminhos que ambas as cenas, de Niterói e São Gonçalo, tomaram, fizeram com que a distância entre as duas cidades aumentasse.


Nesse período (na verdade, um pouco antes), o Hardcore conseguiu essa aproximação entre as duas cidades. Por muitos domingos, as matinês do Convés puseram no mesmo palco bandas niteroienses, como Seu Madruga Veste Preto e Nauzia, e gonçalenses como as citadas A Kombi que Pega Crianças e a (importantíssima) Estado Livre!


Insisto que muito desse distanciamento que, por vezes, se deu entre os cenários de Niterói e São Gonçalo se deve mais à diferenças culturais, sociais e econômicas, como coloquei aqui mais de uma vez. E mesmo que esses aspectos, às vezes, tenham mais peso que boas intenções, não dá pra falar do underground de nossa região sem citá-los.


Importante! Não estou tentando encontrar esse ou aquele culpado pra coisa alguma. Em todos os espaços, eventos e projetos (e até bandas!) há algum aspecto relevante pros rumos que o cenário independente daqui tomou (pro bem e pro mal).


Certeza é que tudo isso aí em cima é parte da história das duas cidades. E não me refiro somente ao independente. É bacana entendermos que o quê produzimos no underground de um determinado lugar, é parte do cenário cultural desse lugar. Tentar manter o underground preso nele mesmo é diminuir tudo que nele é feito.


Aliás, sobre o mundinho underground daqui: pode incluir Itaboraí, Maricá, Tanguá e Magé nessa história! Em todas essas cidades rolavam shows, bandas e público que, quando penso em Niterói e São Gonçalo, me vêm à cabeça! Tudo e todos a nossa volta são importantes!

Documentar é preciso!


É importante lembrar, também, que temos poucos registros desse cenário que, mal e porcamente, relembrei aí em cima. Niterói, por sorte, tem o "Niterói Rock Underground", livro do, jornalista e criador do Arariboia Rock, Pedro de Luna. Mas São Gonçalo, simplesmente, não tem nenhum trabalho que documente o tanto que já aconteceu na cidade.


Livros, documentários, exposições, tudo é válido. E quanto mais melhor. Cada um vai contar essa ou aquela história de um jeito. Não me parece que haja certo ou errado, só impressões diferentes, lembranças e sentimentos que só dizem respeito a quem está contando determinada história.


Há alguns anos, já num momento distinto do cenário de São Gonçalo, comentava-se sobre um documentário sobre os independentes da cidade. Infelizmente, não tive mais notícias da empreitada...

Novo normal?

Antes da chegada da pandemia, os últimos anos não foram, exatamente, animadores. A produção de artistas independentes não parou (nunca para). Mas os espaços para essa produção ser apresentada ao público eram escassos. Justiça seja feita, Rock'n'Beer e Caverna, em São Gonçalo e Niterói, respectivamente, mantiveram espaços em suas agendas para bandas autorais. Sem contar saraus e outros eventos que resistiam (alguns promovidos ou apoiados pelo poder público), até o Coronavírus chegar e tudo parar. O que vem a seguir, só o tempo dirá.


Sobre as bandas Abstral e Dirty Shoes, que serviram de ponta pé inicial para esse artigo, ouça!

Abstral / Dirty Shoes

Sobre o livro "Niterói Rock Underground", aqui.


*Trecho da letra da música "MST", da banda Dead Fish.

foto: reprodução/Facebook


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