• Rafa Almeida

Artigo | O universo dos fanzines deste lado da Baía de Guanabara!



Antes que me perguntem...

Até meados da década de dois mil, ao passo que a internet se popularizava, os fanzines ainda eram uma importante ferramenta de comunicação no underground. Anos antes da grande rede atropelar até mesmo o mercado dos grandes veículos impressos, os fanzines, ou simplesmente zines, faziam as vezes de protagonistas na disseminação de informação entre fãs de temas ou culturas do universo alternativo. Ok, a pergunta de sempre: O que é um fanzine!?

Antes de entrar no tema propriamente dito, vale responder à pergunta que todo fanzineiro ouviu ao longo da vida. E que sempre nos deixava com a sensação de que poderíamos tê-la respondido melhor (o mesmo valendo para “o que é underground?”). Em linhas gerais: fanzines são publicações independentes produzidas por fãs de determinado tema, geralmente ligados ao universo das artes e cultura underground. Não é, nem de longe, errado traçar um paralelo com nossa literatura de cordel, inclusive! A grosso modo, é isso. Sobre o nome e suas origens? Então...

O nome é a parte mais fácil de explicar: Fã + Magazine (revista) = fanzine. Algo como “revista de fã”. Ou seja, uma revista feita por fãs de determinado assunto. Há quem trate o termo como “revista para fãs”. Porém, o “para” no lugar do “de” tira dos fanzines o caráter D.I.Y (do it yourself, em português “faça você mesmo”), lema Punk presente não só no universo dos zines, mas no meio underground de uma forma geral. O que seria um contrassenso, uma vez que a ideia é que qualquer pessoa possa colocar suas ideias no papel e fazê-las circular (ou empunhar uma guitarra e fazer o mesmo).

Já a origem, é mais difícil de explicar. Na verdade, de estabelecer. Nos Estados Unidos do final do século XIX havia publicações amadoras produzidas por grupos de escritores e poetas com o intuito de divulgar suas obras. O mesmo fenômeno se viu por lá na década de trinta, também. Na França, no maio de 68, estudantes eleboravam manifestos e publicações em diversos formatos para difundir suas pautas. Todos estes, possíveis antepassados de nossos fanzines. Já no universo dos mangás, atribui-se às publicações japonesas a origem do que viria a se tornar os fanzines no ocidente, os fãs de ficção científica têm outra teoria e por aí vai...

Seja como for, o modelo de fanzine difundido e seguido no meio underground, desde o final dos anos 1970, ainda é o que surgiu junto com a Cultura Punk. Mais precisamente, pelas mãos do músico e escritor Mark Perry, em julho de 1976. O Sniffing Glue (referência a "Now I Wanna Sniff Some Glue", canção dos Ramones) surgia para documentar a, então emergente, cena Punk. O “nascimento” de Sniffing Glue é mostrado em “CBGB: O Berço do Punk”, filme de 2013.

Nos anos 1980, surgiria o Maximum Rock’n’Roll, fanzine californiano também dedicado à cena Punk. Outra referência no mundo dos zines! Em 1996, o livro “Mate-Me, Por Favor”, de Larry "Legs" McNeil e Gilliam McCain tratou do mesmo momento em que o Punk surgiu, e se tornou documento fundamental para entender o cenário que deu origem aos fanzines Punk!

Seja em formato de revista, jornal, a base de colagens, escrito a mão, manifesto, um cartaz, ilustrações, não importa! Os diversos formatos de fanzines se confundem, se misturam. O que nos remete a uma das melhores coisas de se ter um zine: Você pode fazer o que quiser, do jeito que quiser! E distribuí-lo da forma que quiser também! Tudo é permitido!

E assim, os fanzines se proliferaram e foram espalhados para muito além das fronteiras do universo Punk! Na verdade, para muito além do underground. Alguns viraram revistas até! Como a brasileira Rock Brigade, que começou como um fanzine de Heavy Metal e se transformou numa das maiores publicações do gênero no continente. Mostras, feiras e até zinetecas surgiram e estão espalhados por aí.

Há anos a produção de fanzines deixou de ser exclusividade de Punks, roqueiros e poetas. O tema O Fanzine na Educação já é discutido no meio acadêmico e trabalhado com crianças de várias idades em sala de aula e oficinas de zines. Há até o Dia Nacional do Fanzine (12 de outubro)! Um universo vastíssimo que merece a atenção de todos que se interessam por cultura, comunicação e educação.

A ideia aqui é falar de fanzines de nossa Região. Mas, para isso é preciso citar um outro aspecto inerente ao mundo antes da internet: a correspondência! Boa parte da distribuição de fanzines, até por volta de 2004 e 2005, se dava através de cartas! Outra coisa bacana de se ter um fanzine era a sensação de que você não precisava ter contato com seu público pessoalmente. Bastava colocar uma cópia numa carta e enviar seu zine para qualquer lugar do mundo. Logo, um fanzine carioca podia passar incólume pelo underground do Rio e ter um grande número de leitores em São Paulo, ou no Nordeste, por exemplo.

É bem verdade que a internet reforça essa não dependência de um público local para que uma publicação tenha êxito, mas a troca de material via cartas dava ao universo dos fanzines impressos um ar muito diferente! Não tinha a ver com uma disputa entre influenciadores, muito menos envolvia aspectos comerciais. O fato de serem publicações, majoritariamente, artesanais e de pequenas tiragens criava um laço muito íntimo entre editor e leitor. Quase uma relação de amizade. E em muitos casos, correspondentes acabavam se tornando amigos. Mesmo correndo o risco de jamais virem a se conhecer pessoalmente!

Sempre insisti que a maior parte do público que acompanhava o Feira Moderna Zine, em suas edições impressas, era de fora do Estado do RJ. Na verdade, de fora da Região Metropolitana Fluminense. Já que, mais para o interior do Estado, sempre tivemos bons parceiros e contatos. Inclusive por isso, era sempre motivo de grande alegria quando chegavam fanzines com endereços de Niterói, São Gonçalo ou municípios vizinhos na Caixa Postal!

Pegando A Ponte (ou “já tô na Barca!”) ...

Não tenho a pretensão de traçar um panorama da produção de zines aqui na região num determinado espaço de tempo. Muito menos através das décadas! A Praça da Cantareira, por exemplo, já foi um ponto importante na circulação de informativos culturais e fanzines de poesia. No período que este artigo tenta abordar (entre o fim dos anos 1990 e começo dos 2000) era comum ver banquinhas com materiais independentes nos shows. E sempre havia algum zine dando sopa! Isso sem falar no tanto de materiais que circulavam em saraus, eventos culturais de todo tipo, bares, festas, enfim!

Recentemente, pusemos no ar o Instragram do Feira Moderna Zine (veja aqui). Além de chamadas para atualizações aqui do site, a ideia também é criar uma espécie de mural com fanzines que recebemos ao longo dos anos. E revirando o que sobrou dos arquivos de demos e zines do FMZ (muita coisa foi passada adiante por uma questão de espaço e sanidade mental), uma boa quantidade de materiais produzidos em nossa cidade (e arredores) apareceu!

Um dos trabalhos mais legais que rolava por aqui era, sem dúvidas, o fanzine A Goiaba! Circulava apenas por correspondência. Poesias e tirinhas em treze números caprichosamente embalados (a edição #16 também estava guardada junto, mas o envelope indicava “do #1 ao #13”)! Trabalho do mais alto nível, editado em formato tabloide, o HUM Eletrônico registrou e resenhou o que rolou no universo Indie Rock em sua época! Cartas de Um Amador foi editado pelo “outro FMZ” (dos mesmos criadores do Caravana do RPG), entre Niterói e Qingdao, na China!

O xerocado Go Girl! abordava feminismo e Punk Rock! Recheados de contos, entrevistas e poesias, também apareceram por aqui o clássico Reboco Caído Zine, assim como uma edição do fanzine O Berro! Sem esquecer de mencionar o zine Shape A, dedicado ao universo do Skate e produzido pelo jornalista Pedro de Luna!

Chegando a São Gonçalo, aqui ao lado, o primeiro fanzine que aparece é o xContravenenox, dedicado ao Hardcore Straight Edge! Sobre a cena Rock e o Skate da cidade, tinha o Romures Zine. Na mesma onda, o Fórum Zine também circulava por lá! Outro que circulava pelos shows da cidade era o Zine 15. Falando de Hardcore, tinha o zine Os Pirata!

É legal citar que algumas dessas publicações seguiram com versões online! O Hum Eletrônico, se bem me lembro, já nasceu com endereço na web. O Shape A, através de seu criador Pedro de Luna, foi parar no extinto site www.sk8.com.br, assim como o xContravenenox reapareceu anos depois como o blog Contraponto. Os Pirata! foi pra rede como o site RioHC e o Reboco Caído passou a ser distribuído em pdf, via e-mail!

E este fanzine aqui fez parte desse cenário. De alguma forma, fizemos o trajeto de algumas das publicações citadas, e de outras espalhadas por aí. O começo com pequenas tiragens e edições xerocadas. A ida para o formato tabloide e, no caso do Feira Moderna Zine, a saga até chegarmos a uma versão online da forma que queríamos (ao menos isso, acho que agora acertamos...rs). As capas dos números lançados estão na seção FMZ Impresso, neste site (confira aqui).

Documentar é preciso, sempre!

De volta ao universo dos fanzines de uma forma geral. Essas publicações constituem um universo rico e diverso. Mas apesar de contarmos com gente abnegada que se dedica a manter a cultura dos fanzines viva, a tendência é que boa parte disso tudo se perca com o tempo. Sendo assim, é importante conhecer, pesquisar e documentar o máximo possível! Um nome importantíssimo no cenário dos fanzines no Brasil, por exemplo, é o paulistano Marcio Sno (mais sobre ele aqui). Fanzineiro de longa data, Sno produziu o documentário “Fanzineiros do Século Passado” e lançou o livro “O Universo Paralelo dos Zines.”

Do lado de cá da Ponte Rio-Niterói, ainda há muito o que se (re)descobrir e documentar. Em artigo sobre o cenário de bandas e espaços no mesmo período tratado aqui, lembrava da escassez de registros sobre o underground em nossa Região (leia aqui). Como mencionei no artigo, um bom pedaço da história da cena de Niterói foi contada no livro Niterói Rock Underground (1990-2010), do já citado Pedro de Luna (mais sobre o livro aqui). É ótimo, mas é pouco. Já São Gonçalo e municípios vizinhos, apesar de terem, sim, contribuições relevantes para o cenário, nem isso!

Como mencionei à certa altura, este artigo não tem a pretensão de cobrir nem uma pequena parte do que se produziu de fanzines aqui na região. Há muito mais coisas que foram feitas. Há muito mais coisas sendo feitas nesse exato momento, inclusive (sempre tem)!

Quando vemos a produção de fanzines sendo aplicada na educação, trabalhos de conclusão de curso (não só sobre zines, mas sobre o meio alternativo de uma forma geral) e o tanto que nosso “mundinho underground” tem para contribuir com o todo à nossa volta, percebemos o valor que tudo isso tem. E quanto mais gente disposta a preservar a memória de toda essa produção, melhor!


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