• Rafa Almeida

Artigo | Rock e luta antifascista?!

Atualizado: Ago 30



Em tempos de pandemia e isolamento, crise e acentuação de desigualdades, cada vez mais se cobra posicionamento político de artistas e, principalmente músicos. A política aqui vai muito além de preferências partidárias, claro. E não é à toa que declarações e postagens de figuras do nosso mundinho roqueiro, vez ou outra, causem espanto e decepção. Mas apesar de soar estranho pro grande público, há sim uma lógica na cobrança que fazemos aos músicos que admiramos.


Afinal, dá pra exigir que este ou aquele artista se posicione de maneira coerente e sensata? O fato da pessoa ter feito, ou fazer parte, de uma banda de Rock confere a ela automaticamente um lado na luta política?


Quando voltamos no tempo e entendemos as origens do Rock, percebemos que o estilo tem raízes em ritmos africanos. Desde os Spirituals (cantos dos escravos americanos que, além do caráter religioso, continham códigos que guiavam outros escravos durante as fugas), responsável direto pelo nascimento do Blues. Passando, claro, logo em seguida por Robert Jhonson (foto) até o surgimento dos mais diversos subgêneros nas décadas seguintes, o Rock tem a música negra em seu DNA.


Mais que aspectos rítmicos, o surgimento do Rock está carregado de luta anti racismo na sociedade e indústria fonográfica americanas. E quanto ao que se seguiu, não era Elvis Presley desafiando os bons costumes e chocando a família tradicional com suas performances?


O estilo quebrou paradigmas, desafiando convenções e colocando jovens brancos e negros pra dançar nos mesmos clubes, algo impensável nos EUA nos 50/60's. E não eram os Beatles dando o exemplo e se recusando a tocar em lugares que proibissem a entrada de negros, em sua primeira turnê norte-americana?


O Rock virou música de massa. E como toda música popular, refletiu ao longo do tempo características da sociedade que o produziu. Uma dose extrema de machismo, elitismo e uma cara, digamos, branca demais nos dias de hoje. O estilo não ficou imune ao mundo em que surgiu, ao mercado, ao capitalismo. Na verdade, nunca esteve.


Porém, não dá pra tirar do Rock seu caráter contestador e revolucionário no que diz respeito a costumes. O Movimento Hippie, o discurso antifascista nas letras de Roger Waters, desde sempre, no Pink Floyd e a ativa participação da cena Punk/Hardcore na luta anticapitalista ao redor do mundo, entre outros exemplos.


Não é difícil associar o Rock a um lado nessa história! Mesmo que haja bandas e artistas que se abstenham da discussão política, ou que vertentes do Metal Extremo e essa ou aquela banda de Hardcore flertem ou sejam abertamente fascistas. Não importa. O Rock'n'Roll tem sua história, e ela não pode ser ignorada (muito menos apagada).


E por mais que o "Anarchy in the UK" dos Sex Pistols não fosse fruto de estudos anarquistas (nem de longe...), a revolução promovida pelo Punk no final dos anos setenta na musica pop e na cultura jovem rendeu frutos politizados como The Clash, Dead Kennedys (Jello Biafra, né?), Bad Brains, Bad Religion e outras lindezas!


Por falar em Punk Rock, foi a cena HC de Washington que nos apresentou as meninas do Bikini Kill, banda responsável por trazer pautas feministas pro underground roqueiro.


Ok... De alguma forma Janis Joplin, Joan Jett, Siouxsie Sioux, nossa rainha Rita Lee e outras já denunciavam e contestavam o machismo no Rock. Mas foi a geração Riot Girrrl, de Bikini Kill e outras, que trouxe de forma mais, digamos, incisiva a discussão sobre o papel da mulher na cena Punk/Hardcore e, consequentemente, no Rock!


Mesmo nomes que mexem com grandes cifras, ou seja, o time dos que lotam estádios mundo afora (algo próximo do tal "Rock de Arena" nos dias de hoje), o discurso anti fascista sempre esteve lá! Do já citado Roger Waters e U2 a Pearl Jam, Radiohead e por aí vai. Todo mundo devidamente "posicionado" (como se precisasse, no caso desses aí...rs)!


No Brasil, me parece óbvio que distorções sejam cometidas. Um aspecto crucial pra entender a visão que alguns (muitos) fãs e músicos brasileiros de Rock e suas vertentes têm, está na chegada do estilo por aqui.


Nossa indústria fonográfica nunca pareceu ser lá muito inteligente, digamos. Salvo "Mirandas" e "Midanis" ao longo do caminho, números sempre foram o norte dos lançamentos musicais por aqui. Não parece que, de fato, em algum momento se tenha pensado em formar um público consumidor e conhecedor de música pra além de sucessos populares em trilhas de novelas e êxitos radiofônicos.


O Rock, apesar de popular ao redor do mundo, demorou a figurar nas prateleiras de discos brasileiras. Sendo assim, até meados dos anos oitenta, quem quisesse se inteirar minimamente quanto às novidades do estilo tinha necessariamente que importar discos. Ou conhecer alguém que viajasse com uma certa frequência e trouxesse os últimos lançamentos. Resumindo: o Rock chegou aqui como música pra classe média branca, simples assim.


O mais próximo de uma popularização do estilo que tivemos foi com o "combo BRock80 + Rock in Rio I" nos oitenta, e um momento nos noventa onde bandas de Rock se aproximaram do mainstream. Porém, nada comparado à década anterior! Muito menos a estilos populares nos noventa como Pagode ou Axé Music.


Sim, precisamos falar sobre o BRock 80... Mesmo tendo como símbolos gente do naipe de Renato Russo e Cazuza, a imagem do roqueiro por aqui sempre foi a do rebelde sem causa. O que prova que prestou-se pouca atenção ao que os dois aqui citados estavam cantando/dizendo.


Há de se levar em conta o seguinte: o Rock invade as rádios e mentes por essas terras no mesmo momento que se dá a abertura política. Havia apenas uma pauta, uma bandeira: o fim da ditadura militar e eleições diretas para presidente. E, a não ser que o sujeito fosse (além de fascista) masoquista, não tinha muito do que discordar.


Quando percebemos os aspectos citados aqui a respeito do Rock no Brasil, não é de se espantar que muitas figuras desse momento tenham envelhecido mal. A geração BRock 80 era parte da mesma classe média que hoje está na rua revindicando absurdos em meio à maior pandemia do século!


Nada mais natural que quando atingissem a idade de seus pais, muitos músicos e fãs da rebeldia característica do Rock'n'Roll, que transbordavam transgressão nos anos oitenta, se tornassem velhos conservadores.


Concordo, também não ajuda muito a mania de tudo que se refere à história do Rock brasileiro remeter aos anos oitenta (sim, a fase mais importante). Tem mais coisas relevantes, antes e depois da referida década, pra entendermos o Rock por estas terras.


É obvio que há muito mais a ser considerado, investigado e estudado desde que Robert Johnson foi até aquela encruzilhada e pavimentou o caminho para as próximas gerações do Blues! Brincadeira, calma (rsrsrs)...!


Mas em tempos de internet e informação a balde, não tem mais espaço para a desculpa do "eu só curto o som" e "blá blá blá"... Ou, na pior das hipóteses, não dá pra cantar "Que País é Este?" (Legião) e "Brasil" (Cazuza) ao mesmo tempo que se pede intervenção militar. Simplesmente, não dá.


Toda forma de manifestação artística é uma reação (ou reflexo) às condições sociais e políticas sob as quais se deu sua gestação. Nem sempre é fácil de decodificar certas informações. Mas é certeza que quem faz arte, querendo ou não, também está fazendo política no sentido mais amplo e rico do termo.


Por fim. Não acho mesmo que alguém precise percorrer todo o caminho (mal) traçado até aqui nesta postagem pra perceber o quanto conservadorismos, racismo, homofobia e outros males de nossa sociedade são antagônicos ao Rock'n'Roll, desde o seu surgimento.


Há sim, no Rock, artistas e cenas que ao longo do tempo flertaram ou eram assumidamente fascistas. Também soaria simplista demais tentar associar, mesmo vertentes mais politizadas (como o Punk e o Hardcore), necessariamente, à esquerda ou ao anarquismo, por exemplo. Mas, definitivamente, é a bandeira antifascista que tremula ao som de nossas guitarras!

foto: reprodução/internet 


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