• Rafa Almeida

Artigo | Sobre Punk Rock e posicionamentos!

Atualizado: Ago 30



Um dos fundadores do Bad Religion, e dono da Epitaph Records, Brett Gurewitz (foto) falou em entrevista recente sobre Punk e luta antirracista. Nas palavras do guitarrista e compositor: "Eu acho que a maior coisa que eu aprendi é quantos dos meus colegas da comunidade Punk Rock ficaram em silêncio quando essa grande e nobre causa surgiu. Eu acho que o silêncio é cumplicidade".


As declarações de Brett Gurewitz, além do peso que têm por vir de quem vem, levantam algumas questões a respeito da participação da cena Punk num momento de intensa atividade antirracista e antifascista ao redor do mundo!


Apesar de, com os Sex Pistols, na primeira onda do Punk, o estilo ter traduzido em cheio os sentimentos e anseios da juventude inglesa, desempregada e sem perspectivas no final dos 70's, o Punk Rock soava como música de jovens brancos.


Com o tempo, o estilo se consolidou ideológica e artisticamente. Outras vertentes surgiram, a sonoridade se desenvolveu e o discurso tomou ares mais politizados, sim. Mas fato é que, apesar de ser para todos e de todos, o Punk sempre foi, majoritariamente, uma cultura de jovens brancos ao redor do mundo.


Em outro artigo aqui no FMZ, sobre Rock e antirracismo (leia aqui), além de mencionar as origens negras do estilo, cito o fato de que as diversas vertentes do Rock, por exemplo, chegaram aqui como música de jovem branco de classe média. Mas talvez o Punk tenha feito um caminho um pouco diferente.

Como disse no outro artigo, há décadas atrás vertentes como o Rock Progressivo e o Heavy Metal, por exemplo, só eram acessíveis a quem tivesse condições de importar discos, viajar, enfim. Logo, ficavam restritas à uma pequena parcela do público.


Com o Punk Rock foi diferente. A princípio, o estilo aportou por aqui em dois cenários completamente distintos, no final dos anos 1970. A turma de Brasília (de onde surgiram Legião Urbana, Plebe Rude e outros) atendia a todos os quesitos colocados acima. Filhos de diplomatas e professores universitários, a classe média brasiliense tinha seu primeiro contato com o Punk.


Do "outro lado" do país, a periferia de São Paulo descobria, à sua maneira, os mesmos discos e o mesmo discurso do Punk. E é claro que, para um jovem de periferia, ouvir sobre desigualdade, injustiça e pobreza fazia um sentido diferente que para a "Turma da Colina", como eram conhecidos os Punks de Brasília, filhos da classe média.


Na abertura de "Botinada: A Origem do Punk no Brasil", documentário fundamental produzido por Gastão Moreira, consta a célebre frase de Chico Buarque sobre suas impressões quanto à chegada do Punk no Brasil: “Se o punk é o lixo, a miséria e a violência, então não precisamos importá-lo da Europa, pois já somos a vanguarda do punk em todo o mundo”.


Morador da periferia, Clemente, da banda paulista Inocentes, dava a também célebre declaração para a revista Galery Around na mesma época: "Estamos aqui para revolucionar a música popular brasileira, pintar de negro a asa branca, atrasar o trem das onze, pisar sobre as flores de Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer."


As duas declarações (sim, há machismo na segunda fala, bem claro.. outro assunto...rs) entrariam para os anais do Punk, e constam em uma boa quantidade de livros, fanzines e outros materiais que contaram, através do tempo, o início do Punk no Brasil. Nelas, duas realidades e visões de mundo distantes uma da outra.


É fato que as ramificações do som e da cultura Punk ao redor do mundo produziram diversas cenas. Do Hardcore Melódico, de sonoridade mais palatável às vertentes extremas. E também é sabido que em momento algum o Punk se afastou da luta política e do ativismo em suas mais variadas formas.


Tanto no Brasil como em qualquer outra parte do mundo, os squats, os coletivos de bandas e artistas, as cooperativas e a própria atividade através de fanzines, festivais e o combate nas ruas são provas contundentes de que Punk e luta política são indissociáveis!


Apesar das referências ao anarquismo estarem presentes no discurso Punk desde os Pistols, é difícil atribuir ao Punk um "rótulo político". Porém, dá pra concluir, até com certa facilidade que a aversão a regras, dogmas, segregação e autoritarismo leva o Punk pra muito longe de qualquer tipo de ideologia de direita, conservadora, ou coisa parecida. E aí chegamos onde eu queria...


Recentemente, tanto lá fora quanto no Brasil, figuras importantes pro meio Punk causaram alvoroço com declarações das mais diversas. Ou, simplesmente, se calaram diante do momento histórico pelo qual passamos. Xenofobia, racismo e outros se fizeram presentes, vindos de onde menos de esperava!


Ok... Em cada canto do mundo, uma realidade diferente. Então, vou me ater ao Brasil por enquanto. Mesmo levando em conta a desigualdade e a falta de oportunidades pra uma parcela considerável da população, é difícil entender como pessoas que vivenciaram a cultura Punk ao longo da vida, ainda se mostram preconceituosas e reacionárias.


Independente de subgênero ou vertente que conserve em si as raízes libertárias do Punk, causa estranheza que certos pensamentos ainda persistam em algumas pessoas. Alguém que passa a vida gritando por liberdade, não conseguir se livrar de suas próprias amarras, é triste. E infelizmente, não são poucos nessa situação.


Indo um pouco mais fundo. . Pra muitos jovens de periferia, que entre o final dos anos 1970 e o começo dos oitenta descobriram no Punk Rock um canal para protestar contra injustiças e extravasar angústias e frustrações, a cultura Punk abriu portas, possibilitando uma perspetiva de mundo mais ampla. Ou seja, o Punk cumpriu o seu papel.


Infelizmente, há os que não conseguiram absorver e aplicar à própria vida as letras que cantaram, o que leram e escreveram nos fanzines, e o que representavam os bottons e patches que carregavam no visual.


Pra esses, o discurso engajado não descia do palco e ia pra dentro de casa, nem pro dia a dia. A cena Punk funcionava tão somente como uma válvula de escape. Terminado o final de semana e despidos da indumentária Punk, o que se via era o tal "cidadão de bem".


Dá pra compreender que quem venha das classes menos favorecidas, em algum momento tenha "mais o que fazer". O capitalismo arranca dessas pessoas sua vida, seu dia a dia, seu tempo, seus pensamentos. E com essas, faz de forma ainda mais cruel. A prioridade é sobreviver e... lembram da música do Replicantes? "Resolver os problemas do mundo, é coisa de vagabundo."


O problema é que, a partir do momento em que identificamos no Punk uma voz para oprimidos, invisibilizados e marginalizados, é triste e doloroso perceber que até no seio da cultura Punk, o capitalismo é capaz de se infiltrar e cegar.


Voltando à entrevista de Brett Gurewitz, que deu inicio às reflexões deste que vos escreve: há dois anos atrás, passamos pelas eleições mais surreais que este país já teve notícias. E nem preciso falar do resultado e tudo que ele desencadeou, certo?


O fato é que, em 2018, uma linha muito clara foi traçada. Era a luta antifascista batendo na porta e cobrando posicionamentos. E foi justo nesse momento que muitos da cena Punk (e de outros cenários também) sob a desculpa do "nem direita, nem esquerda" ou "sou contra toda forma de governo", se calaram, subiram no muro.


Acho que era a isso que Brett Gurewitz se referia. Um momento no qual se espera muito de algumas pessoas, é quando justamente elas se calam.


Em algum momento a ideia do "Punk pra Punk", apesar de refletir o anseio por um ambiente seguro na cena, também criou uma espécie de redoma pra alguns, dificultando a esses olhar pro mundo ao seu redor (seja na periferia, seja na classe média). O mundo muda, as lutas se transformam.


Não importa, no final das contas, como o Punk Rock chegou por aqui. A periferia se apropriou do Punk com todo o direito e fez dele mais uma entre tantas outras vozes que gritam por justiça social, por igualdade e respeito às individualidades e diferenças.


Pra quem vive no conforto da classe média, e ainda assim tem no Punk fonte de valores importantes a serem levados pra vida, cabe contribuir, apoiar e admirar a luta dos que vem de baixo.


Ninguém tem mais propriedade pra cantar a plenos pulmões no palco, no pogo e nas ruas canções como "Subúrbio Geral" (Cólera), "Rock de Subúrbio" (Garotos Podres), "Kill the Poor" e "Holiday in Camboja" (Dead Kennedys) ou qualquer uma do Bad Brains, do que quem de fato é vítima do capitalismo (ok, todos somos...).


E mesmo este fanzineiro aqui, cheio de privilégios ao longo da vida e fã de Bad Religion (sim, uma banda formada por brancos, estudados e de classe média) consegue entender quando tem ou não propriedade pra tomar pra si essa ou aquela bandeira.... Mas me calar, jamais.


Eu sei que, pra variar, saí do tema. Mas tem muita coisa por trás de refrões, camisetas de bandas, guitarras e noite. E é natural esperar que quem teve contato com as mesmas coisas que nós, entenda seu papel e sua responsabilidade da mesma forma que nós.


E no final das contas os que, por ignorância ou maldade, acabam falando bobagens, me soam menos perigoso (e decepcionam menos) que os que se omitem num momento em que um país e um planeta gritam por mudanças.


Sobre a entrevista de Brett Gurewitz no Tenho Mais Discos que Amigos, aqui.


foto: Epitaph Records


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