• Rafa Almeida

Artigos | MusiKaOs: E viveram os anos dois mil...


Musikaos | foto: reprodução/internet


O underground e a TV


Aqui no Feira Moderna Zine, sempre insistimos na importância da preservação da memória, da história e de tudo de importante que foi feito até aqui. Isso vale pra cultura popular, pras batalhas travadas através das décadas e séculos no campo político e, claro, pro nosso "mundinho underground".


Em outros artigos, este que vos escreve já fez uso deste espaço para falar das raízes antirracistas do Rock'n'Roll, da cena independente e dos fanzines impressos em Niterói e São Gonçalo na virada dos 90's pros 00's, e do clássico programa RoncaRonca, de Maurício Valladares! Hoje, vamos dar um passeio pelo SESC Pompeia, em São Paulo...


Mais uma vez, estamos aqui falando da mesma época: a virada entre os anos 1990 e os 2000. Num momento em que a internet passava por cima de tudo e todos e reconfigurava a comunicação de massa, o underground se equilibrava entre as novas facilidades oferecidas pelo mundo virtual e as velhas formas de se ter acesso a música e arte.


Mesmo com a antiga MTV completando uma década no ar, e a lembrança de antigos programas da TV aberta, como os clássicos Matéria Prima e Fábrica do Som (entre outros que minha geração só viria a conhecer, de fato, anos depois no YouTube), ver o underground na TV era algo raro. Alguns artistas e bandas, pra muitos, ainda eram nomes distantes ou fotos em páginas de revistas.


Parece estranho, mas ainda não era exatamente comum ter contato com som e imagem simultaneamente, principalmente no underground. A MTV foi a responsável pela linguagem do video clipe se popularizar, definitivamente. Só que por mais que víssemos bandas independentes com seus demo clipes na programação da emissora paulista, o underground ainda se acostumava com a ideia de se ver e ouvir ao mesmo tempo!



E vieram os anos dois mil


De volta ao SESC Pompéia, palco do já citado programa Fábrica do Som, a mesma TV Cultura que levou ao ar a atração comandada por Tadeu Jungle, no começo dos anos oitenta, abrigaria um dos capítulos mais bacanas do underground nacional!


No dia 19 de fevereiro de 2000, num sábado, às 19h, ia ao ar a primeira edição do Musikaos, pela TV Cultura! Com direção de Pedro Vieira (Fabrica do Som), produção musical de Clemente (banda Inocentes) e apresentação do ex-MTV Gastão Moreira, o programa reunia ao longo de suas edições um elenco de atrações que, por fim, mostravam a "fuça" do underground na TV!


Além do time citado no parágrafo anterior, outros nomes de peso figuravam no Musikaos. Um dos artistas mais importantes pra contracultura deste país, o escritor Antônio Bivar era um desses nomes. A saber: Bivar, além de autor do livro O Que é Punk, da Coleção Primeiros Passos (editora Brasiliense), foi um dos responsáveis pelo festival O Começo do Fim do Mundo. Ambos importantíssimos para a cultura Punk em território brasileiro.


Outra lenda da contracultura nacional a abrilhantar o Musikaos era Henrique George Mautner, ou Jorge Mautner! O músico e escritor fazia aparições sempre marcantes, sem contar as participações de artistas plásticos, poetas, ativistas de ONGs e toda sorte de figura que tivesse algo a dizer, apresentar ou seja lá o que for! Isso quando não era a plateia que, vez ou outra, era convocada a subir ao palco e participar do programa!



Pau na máquina!


Ok... Pro fã de Rock, Punk e música alternativa de uma forma geral (este que vos escreve, obviamente, incluso) o prato principal eram os shows. E que shows! E quantos shows! Eu mencionei no artigo sobre o RoncaRonca que Maurício Valladares, com seu programa, era um dos responsáveis por minha mente musicalmente perturdada. Certeza que Gastão Moreira e Musikaos também tem sua parcela de culpa nisso!


Se não, vejamos: Ratos de Porão, UK Subs (Inglaterra), Krisium, Dead Fish, Nitrominds, Sepultura, Jason, Angra, Down by Law (EUA), Pato Fu, Marky Ramone, Garage Fuzz, Olho Seco (até onde sei, são raríssimos os registros da banda paulista na TV), Cassia Eller, Planet Hemp e até o Stoner Rock dos norte-americanos da Nebula (vieram ao Brasil para tocar no, não menos clássico, festival Goiânia Noise, no DF) passaram pelo palco do SESC Pompeia!


Na época, se bem me lembro, o RDP João Gordo já levava bandas underground para tocar ao vivo em seus programas na MTV. Belo serviço prestado, óbvio! Porém, justiça seja feita, nada comparado ao que rolava no Musikaos! Como classificar a edição do programa de 26 de setembro de 2000 (vai fazer 20 anos...rs) que reuniu os californianos da citada Down by Law e as brasileiras Okotô, Nitrominds e Cólera?! E este é apenas um entre tantos encontros memoráveis no palco da atração da TV Cultura!



Da tela pras ruas


Puxando pela memória aqui: a sensação que citei no início, de ver "a cara do underground" na TV, pode ser representada por uma lembrança, justamente dessa edição do programa que mencionei, de setembro de 2000. Eu não fazia ideia que o Down by Law estava no Brasil. Assistindo ao programa, passa a legenda com a agenda da banda no Brasil. Lá estava: Niterói/RJ! E lá fui eu conferir ao vivo o que assisti na tela!


Aliás, anos depois, no palco do Circo Voador, assistiria à dobradinha Down by Law e Cólera mais uma vez! Tem outros exemplos de bandas que assisti no programa de Gastão Moreira e que, posteriormente, fui ver ao vivo. Em tempo: a baiana Pitty, com sua antiga banda, Inkoma, também passou pelo Musikaos! Mas essa eu não cheguei a ver ao vivo. Só sua vocalista, anos depois, já em carreira solo.



De volta aos arquivos


Muitas das edições do Musikaos estavam por aqui, em algum lugar. Devidamente registradas em fitas VHS. Exatamente como este que vos escreve fazia, quase que de forma paranoica, com programas da MTV e da própria TV Cultura, também. Como o saudoso Bem Brasil! A necessidade de espaço físico e a manutenção de minha saúde mental fizeram com que me desfizesse de boa parte de meu acervo. Tanto coisas em VHS, como citei, quanto materiais que chegariam para o Feira Moderna Zine, tempos depois. Por sorte, uma boa parte disso foi passada pra pessoas que se dispõem a cuidar e preservar esse tipo de material (coisa que não consguia mais fazer).


Por sorte também, mesmo tendo acabado com a festa das traças aqui de casa, a internet garantiu que muita coisa que tinha amontoada ou encaixotada fosse "upada"! E há registros do Musikaos no YouTube! Tanto no canal do próprio Gastão Moreira, o sensacional Kazagastão, quanto em outros canais. Vale a pena pesquisar e "correr o risco" de dar de cara com momentos absolutamente memoráveis do underground nacional e internacional, acontecendo no palco do SESC Pompeia!



Batendo na mesma tecla


Por fim, reitero a necessidade de se preservar e tornar acessível ao público o máximo de registros do que o underground produziu (e continua produzindo) ao longo dos anos. Para as gerações que já vieram ao mundo munidos de smartphone, laptop e afins pode não parecer importante. Mas nós que, vez ou outra, descobrimos que aquela caixa no fundo do armário com fitas e fanzines já pertence às traças, sabemos da necessidade de se guardar, conservar ou digitalizar ( e de preferência disponibilizar) o máximo possível! Vale pro nosso mundinho underground e pra toda cultura produzida através dos tempos. A história e as próximas gerações hão de ser gratas.



Assista a um trecho do (citado) Musikaos de 26/09/00:




Confira a baiana Pitty e sua banda Inkoma no Musikaos:




Lendária banda inglesa UK Subs no palco do Musikaos! Assista:



E conheça o Kazagastão, canal de Gastão Moreira no YouTube, aqui.



Artigos citados no início do texto:


Rock e luta antifascista?! | aqui


Enquanto isso, do lado de cá da poça... (sobre cena independente em Niterói e São Gonçalo/RJ) | aqui


O universo dos fanzines deste lado da Baía de Guanabara! | aqui


Sobre diversas formas de (re)existir (Programa RoncaRonca) | aqui



#feiramodernazine #musikaos #gastaomoreira #tvcultura

leia também:

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