• Rafa Almeida

Artigos | Valber Dan: Uma História que Niterói Precisa Contar!


Esta história é sobre a música e o poder que ela tem na vida de cada um de nós.
Valber Dan | por: Flávio Defrei (reprodução/facebook))

Esta história é sobre a música e o poder que ela tem na vida de cada um de nós. Às vezes não percebemos, mas ela está sempre ali, salvando nossos dias difíceis e nos conectando a nós mesmos! E nos cutuca nas mais diversas situações, pra falar com a gente sobre absolutamente tudo! O que vem a seguir prova que vida e arte não se separam. Pra além de nossos mundinhos, lembramos também que, por mais que haja políticas públicas direcionadas ao meio artístico, o Estado e suas burocracias jamais serão capazes de dar conta de tanta gente talentosa e especial por nossas ruas, palcos e praças. Confuso, né? Vamos lá...


Preciso voltar um pouco no tempo! Pra época e lugar muito bem definidos (ou quase). Há uns dez (ou quinze) anos atrás, este que vos escreve já era frequentador assíduo da Praça da Cantareira, no bairro de São Domingos, em Niterói. Localizada em frente ao Campus Gragoatá-UFF, essa praça sempre abrigou um caldeirão cultural incrível. E não só cultural! Político também (como se fosse possível separar...)! E todos esses ingredientes fizeram da Cantareira um dos ambientes mais plurais da cidade, sob todos os aspectos.


E foi ali, que o jovem guitarrista aqui, pela primeira vez, entendeu que certas conexões na música vão muito além de acordes, técnicas, estudos e equipamentos. Foi na Cantareira que, com a “inocência” de quem deu os primeiros passos na música devidamente “protegido” por guitarra, baixo, bateria e distorções, me vi despido, nu, eu e a música diante de uma Cantareira cheia! Por sorte, a praça - àquela altura da madrugada - já não dava muita bola pro roqueiro aqui se virando no violão.


Explico! Atraído por opções diferentes das cervejas habitualmente vendidas na praça, por muito tempo eu bebi sempre com o mesmo ambulante! Não era difícil notar que era músico: Além do isopor e do gelo; microfone, amplificador e violão estavam sempre ali... Sóbrio o bastante pra saber o que estava fazendo (e não esquecer desse dia, até hoje), acompanhei uma (boa) cantora (que nunca mais vi) numa versão meio desajeitada de “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, do Lô Borges. Me saí bem! Mas minha concepção de música, público, execução e conexão entre todos esses elementos mudou sensivelmente, a partir dali.





Pra sorte de todos vocês, a história aqui não é sobre este que vos escreve. Então, vamos lá: O vendedor das cervejas diferentes era o personagem do presente artigo. Com uma simpatia enorme e ótimo papo, nem precisaria do diferencial das cervejas para segurar qualquer cliente em seu isopor! Como se não bastasse, ainda roubava para si as atenções e interrompia qualquer papo ao redor de seu local de trabalho quando pegava o violão e soltava a voz!


Seu nome, Valber Dan. Sua história (não fazia ideia...)? Talvez, parecida com a de tantos e tantos garotos Brasil afora. Em instituições que abrigam crianças órfãs, separado de seus irmãos, Valber teve contato com a música e dela jamais se separou (ela nunca abandona, a gente que às vezes se afasta)! Trabalhou como metalúrgico. Perdeu o emprego e não se aposentou. E encontrou no isopor de cervejas na Praça da Cantareira, ao lado de sua esposa, seu sustento. A vida se encarregou de reunir o cantor e compositor de seus irmãos. E hoje, aos 66 anos, pai e avô, o vendedor de cervejas já pode ser reconhecido pelo que é: um talentosíssimo artista!


Como foi dito aqui, Valber Dan e a música nunca se separaram. Mas como toda carreira artística, só talento e inspiração não bastam. E foi ali mesmo, em nossa querida Cantareira, que Valber Dan teve o tal “empurrãozinho”. E foram os próprios clientes do isopor de cervejas do músico que se mobilizaram para dar à música de Valber Dan a visibilidade que ela merece! Shows, gravações, vídeos, enfim! Valber podia se orgulhar de ter uma carreira independente! Assim como muitos e muitos colegas mais jovens, que paravam ali pela praça para tomar suas cervejas!



Esta história é sobre a música e o poder que ela tem na vida de cada um de nós.
Valber Dan | reprodução/facebook


E é com imensa felicidade que hoje, ao abrir minhas redes sociais, encontro a voz e o violão de Valber Dan! Acompanhado de outros músicos incríveis e parceiros de composição, canções como “Mar” e “Eu, Você” (que rendeu clipe, gravado na Cantareira!) ganharam produção caprichada pelas mãos de Bruno Brecht (Estúdio Tomba)! Canções que remetem às influências da Bossa Nova de Tom Jobim, do Samba e suas vertentes e do Samba Rock de Bebeto. As mesmas que surgiam nos papos que mencionei, na mesma Cantareira!


Mais que a alegria de ver uma carreira como a de Valber Dan seguir seu curso, histórias como essa nos lembram também do tanto de arte, inspiração e talento que o mundo nos oferece todo o tempo, em todos os lugares. E de como, algumas vezes, não lhes damos a devida atenção. Apesar de termos muito com o que nos preocupar num momento como o atual, não dá pra esquecer que cultura deve ser sempre tratada como item essencial para nosso bem estar. E cabe a nós cobrarmos isso do Estado também. Por sorte, temos tábuas de salvação, como a música de Valber Dan, pra nos salvar do tédio de dias sombrios.


Assista ao clipe de “Eu, Você” de Valber Dan:


Conheça Valber Dan:

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