• Rafa Almeida

Entrevista | Deise Santos (Portal Revoluta)

Atualizado: Ago 30



Nossa entrevistada é figura conhecida e de uma contribuição inestimável para o cenário underground do Rio de Janeiro e do Brasil! Passou pela clássica Revista Rock Press, onde trabalhou e fez belíssimas entrevistas e reviews. Produziu shows importantes pro cenário carioca. Nunca deixou de lado sua atuação no jornalismo independente e fez parte da equipe do FMZ (grande honra, inclusive!). Deise Santos (foto) é a encarnação do D.I.Y e tirou um tempinho em sua quarentena pra falar com o FMZ! Aí vai:

FMZ: Vamos começar falando do Portal Revoluta, que já está no ar há mais de uma década! Queria saber das mudanças que rolaram até aqui e como resistir fazendo jornalismo independente há tanto tempo!

Deise: É resistência. O Portal Revoluta começou antes de ser Revoluta (risos). Estou envolvida no underground há longas décadas e acabei me envolvendo com o mundo dos zines. Fiz alguns com amigos e colaborei na revista Rock Press, na época em que era revista impressa. Nesse período conheci o Feira Moderna Zine, você e Rodolfo, e por um tempo colaborei no FMZ também.

Depois, na época em que trabalhava com assessoria de imprensa, ganhei o nome Revoluta para a produtora, dado por uma amiga, a Renata De La Rocque, que disse que esse nome me representava bem (Revolta e Luta), então criei um informativo impresso (era uma folha A4, impressa frente e verso), para divulgar as bandas para as quais eu prestava serviço e acabei ampliando para outras bandas e produções culturais, com isso acabei criando o informativo por e-mail, onde mandava pequenas notas de eventos, lançamentos e algumas entrevistas.

Desse ponto, acabei criando o blogspot, que acabou virando o Portal Revoluta, quando registrei o domínio www.revoluta.com.

FMZ: Você tem feito lives durante a quarentena no Revoluta e conversado com bastante gente. Qual a importância dessa troca de ideias e de levar isso ao público em tempos de isolamento social?

Deise: A ideia da live surgiu para ajudar alguns amigos que trabalham com música e cultura, de alguma forma e estão parados nesse momento pandêmico, para divulgar os trabalhos paralelos e dar um “up” na divulgação de seus trabalhos ou campanhas colaborativas, tanto que a primeira semana foi com o Felipe Chehuan (Confronto/ Norte Cartel), para falar do serviço de delivery do Gato Negro Pub e da Barbearia Bulldogs (que nesse período está atendendo com hora marcada), o Pedro Azevedo (Audio Rebel), pra falar da campanha colaborativa para manter a casa e também sobre as vendas de cordas, discos e bebidas, com entrega em domicílio, além dos caras da banda Mollotov Attack, pois dois deles trabalham com artes plásticas: Wagner com esculturas feitas com peças de automóveis, Didi com telas, grafites e backdrop (bandeira/ pano de fundo de palco) para bandas e o Bollacha que tem um bar Green Skull, no ABC.

Só que os papos foram ficando tão legais e o efeito de terapia foi tão grande, que decidi continuar. As lives me forçaram a criar uma rotina: convidar as pessoas, criar as artes, divulgar, fazer pauta. Tudo isso me deixou mais ativa e produtiva, ocupou minha cabeça. Sem contar que na hora da live, o foco fica nela e esqueço um pouco de todo caos que estamos vivendo em relação ao COVID-19 e a crise política.

Sem contar que o impacto nas pessoas tem sido positivo, muita gente manda mensagem falando que os papos são bacanas, agradecendo por conhecer alguma banda ou atividade através da live. Isso aproxima as pessoas e nos faz ficar com a mente ativa.

FMZ: E como acha que nosso meio underground irá sobreviver nisso que tem sido chamado de "novo normal"?

Deise: Sinceramente não sei como será o impacto do novo normal nos fazeres culturais e não falo só do underground. Até porque o underground já vive uma sobrevida, com atitudes e iniciativas de pequenos grupos, para que as coisas aconteçam, sejam espaços, selos, zines...

Acho que continuarão acontecendo as iniciativas de pequenos coletivos, para que a cena se mantenha viva, mas a questão de convivência social, frequentar ambientes, isso será repensado, por que por mais que descubram uma vacina, a aglomeração de pessoas em locais fechados, entre outros hábitos que tínhamos antes da pandemia, serão revistos.

FMZ: Por ter experiência na produção de shows, você conhece bem a cena por trás dos holofotes, ou fora dos palcos. E sei que tem amigos que trabalham nessa área. Como a galera da técnica (roadies, técnicos de som e luz...) está encarando a chegada de um mundo onde não poderá haver aglomerações, sendo que depende justamente disso para trabalhar?

Deise: Os amigos com quem já conversei estão vendo tudo isso com muita apreensão e angústia. Como tem sido dito, o setor cultural foi o primeiro a parar e será o último a voltar. E nem sabemos como ele voltará. Então esse pessoal da graxa, técnicos, roadies, tem procurado se reinventar, seja dando aulas online sobre técnicas de som, como entregadores de comida ou alguma outra atividade.

Mas ter uma vida profissional construída e consolidada, ser derrubada por um inimigo invisível é muito difícil.

FMZ: O isolamento não impediu que bandas lançassem novos trabalhos nos últimos tempos. Como está a produção independente no Brasil? Muita gente fazendo som de qualidade por aí? O que ouviu de mais legal nos últimos tempos?

Deise: Muita gente estava com material na agulha para ser lançado e a pandemia jogou um balde de água fria. O pessoal da banda Protesto Suburbano (Macaé/RJ) acabou de soltar material novo, com a nova formação, a banda Crexpo (SP), que chegou a fazer alguns poucos shows no final de 2019, estava com o álbum pronto pra sair, com uma agenda de shows fechada e teve que cancelar tudo, a solução é jogar mensalmente uma música nas redes, para ir divulgando a banda.

Sempre chega muita coisa pra mim, muita novidade de bandas que estão produzindo durante a pandemia e temos um cenário propício para produção de letras sobre o atual momento político, as crises sociais e o levante antirracismo e antifascismo. Inspiração para produzir é o que não falta.

FMZ: Ainda sobre a cena underground. Apesar de muita gente se posicionando de forma racional e minimamente coerente, ainda há quem se oponha ou tente se manter isento, ou algo do tipo. Imaginava esse tipo de polarização em nosso meio?

Deise: A polarização existe, infelizmente. No meio ainda existem pessoas que vão aos shows e escutam as bandas pelo som e que não se preocupam com a mensagem, assim como tem integrantes de bandas que não entendem o próprio objetivo de uma banda de Hardcore/Punk e destila seu preconceito nas redes. Existem machistas, racistas, xenófobos e tantos outros preconceituosos, relativizadores de causas e lutas, que acham que é mimimi ou exagero quando alguém levanta a voz em defesa de alguma minoria ou pelo direito mínimo de um cidadão ou cidadã. Esses equivocados não entenderam minimamente o que muitas bandas quiseram dizer em suas letras (e muitas delas em português!!!!), nem estou entrando no mérito das bandas norte-americanas ou europeias.

Mas em contrapartida, tem muita gente se posicionando do lado certo da história, pela democracia, pelos direitos civis, como você mesmo disse, de forma racional e minimamente coerente. Existem coletivos como o Hardcore Contra o Fascismo, que tem pessoas dialogando em vários estados brasileiros, tem as bandas antifascistas, que estão usando suas redes para mostrar seu posicionamento. Isso tudo me dá um pouco de esperança de que essa polarização fará com que a cena se torne um lugar mais seguro e saudável.

Não estou aqui defendendo o separatismo, mas com fascistas e preconceituosos, não há diálogo. É questão de humanidade.

Sobre a polarização, vimos que nos últimos tempos, as pessoas deixaram suas máscaras caírem e escancararam os seus armários recheados de preconceitos e conservadorismo, por se verem representados por alguém que está no mais alto cargo da República. Isso foi ruim? Não! Ao menos agora sabemos quem é quem.

É doloroso? Sim. Por vermos que muitos que estavam por perto, tinham em algum recanto da sua alma, aquele pensamento conservador.

FMZ: E como a editora do Portal Revoluta está fazendo pra encarar todo esse tempo de isolamento?

Deise: Vivendo um dia de cada vez. Parece clichê, mas é isso. Sou uma pessoa extremamente ansiosa.

E no início foi muito mais difícil, impactante. Tive crises de choro, minhas crises de insônia se potencializaram e fiz faxina em tudo quanto é canto da casa, do computador, celular e o que mais vi pela frente (risos).

Creio que para todo mundo tenha sido assim, apesar de que a continuidade do isolamento, sem prazo para terminar, também cause angústia.

As lives, como disse, têm me ajudado muito, ocupando minha cabeça. Sem contar que cada convidado me alimenta com doses de otimismo e fazeres positivos.

Além disso, procuro estar próximo aos meus amigos, pelo Whatsapp, em chamadas de vídeo e também tenho feito detox regulares de redes sociais, principalmente do “Cara Livro”, estou há duas semanas sem acessar meu perfil pessoal, só atualizando as coisas do Portal Revoluta (se algum amigo fez aniversário entre os dias 09 e 20, me desculpe... rsrsrsrs).

Aproveitei esse tempo para retomar as publicações no Portal Revoluta, inclusive convocando colaboradores (quem quiser colaborar no site, só mandar um e-mail para colaborador@revoluta.com). Agradeço ao Balthazar e Marcelo Fernandes que já embarcaram e estão colaborando com entrevistas e resenhas.

Fora isso, vivo um dia de cada vez: se dá vontade de ler algo, leio. Se dá vontade de cozinhar algo diferente, cozinho. Vejo séries, filmes, faço artesanato. Tudo nessa condicional: se der vontade, faço. Mas também se não der vontade, não tenho me cobrado muito e tenho vivido o presente.

FMZ: A última pergunta tem sido igual pra todos os entrevistados: o que esperar do mundo pós-coronavírus?

Deise: Um novo normal, do qual já estamos tendo algumas mostras em atitudes diárias: não coçar o olho com a mão suja (rsrsrssrs), ser mais objetiva em locais como supermercados e lojas, usar máscara quando estiver com sintomas de resfriado.

Mas fora essas coisas meio práticas e diretas, sinceramente, não sei o que pensar do mundo pós-coronavírus. Vi uma foto de um antes e depois de um teatro em Berlim e fiquei bem impactada. No antes, tinham fileiras de poltronas uma do lado da outra (disposição normal de qualquer teatro), no depois, tinham duas ou três poltronas juntas, um espaço ao lado referente a duas poltronas e mais uma ou duas poltronas juntas. E isso se repetia nas outras fileiras. Ver um teatro com capacidade reduzida, com muito menos poltronas disponíveis, fala muito sobre a segregação dos espaços. Se antes o teatro, em alguns países, já era considerado um entretenimento para elites, imagine agora!?!?! Isso me fez pensar em como serão os outros espaços: escolas, cinemas, restaurantes, universidades, auditórios...

Outra questão que tenho levantado são as fronteiras. Será que ainda estaremos num mundo globalizado quando sairmos disso tudo? Atitudes como do governo norte-americano que já fala em restringir entrada de turistas vindos de alguns países, já nos mostra que não. Acredito que os países terão normas e barreiras sanitárias muito mais rígidas, ao menos por um período, restringindo o trânsito das pessoas...

E o convívio social? Como nos cumprimentaremos?

Enfim, eu espero que no fim disso tudo, eu posso encontrar os meus amigos com saúde, firmes e prontos para lutar por um mundo mais empático, democrático e humano.

Rafa, obrigada demais por esse espaço. Admiro muito você e seu comprometimento para manter a cena underground viva. Vida longa a você e ao FMZ.

Conheça o Portal Revoluta.

Acompanhe as lives no Instagram.

foto: Michelle Castilho


#feiramodernazine #entrevistas #deisesantos #portalrevoluta

Encontre os livros mais vendidos em oferta na Amazon:

br_associates_2_300x100._CB465180671_.jp

Encontre livros em oferta na Amazon:

br_associates300x100._CB465180664_ (1).j

Ajude o FMZ a continuar difundindo arte, cultura e resistência!

Siga o FMZ e compartilhe nosso conteúdo em suas redes sociais:

  • Facebook ícone social
  • Instagram
  • Twitter
  • Tumblr ícone social
  • Pinterest
  • YouTube
  • Spotify ícone social
  • RSS ícone social

Parceiros:

Portal Revoluta.jpg

Contribuições financeiras:

(saiba mais)

Fanzine de Niterói/RJ. Desde 2002.

© 2020 por Feira Moderna Zine.

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now