• Rafa Almeida

Entrevistas | Escalpo

Atualizado: 1 de Dez de 2020


A entrevista de hoje, aqui no FMZ, é com uma banda que surgiu em plena quarentena!
Escalpo | foto: divulgação

Se é que um dia será possível acharmos algo de positivo em tudo isso que temos passado nos últimos (oito!) meses, definitivamente, será a quantidade de coletâneas, colaborações, álbuns e tudo o mais lançado no underground nesse período! Apesar de ter batido forte na classe artística, a pandemia forçou muita gente a se reinventar, produzir e criar. E é claro que, no meio de tanta criação, surgem bandas!


A entrevista de hoje, aqui no FMZ, é com uma banda que surgiu em plena quarentena! Se aproveitando das facilidades proporcionadas pela tecnologia, quatro velhos conhecidos se reuniram virtualmente para fazer um som. E o resultado foi, além de um novo nome no underground, um EP recém lançado que merece ser ouvido por fãs de Punk, Metal e Hardcore!


A Escalpo, e seu primeiro lançamento, o EP Retrocedendo, chegam em boa hora e em sintonia com o atual momento pelo qual nosso país passa. A agressividade e a contundência do discurso caem como uma luva na trilha sonora de quem insiste em resistir do lado certo das trincheiras!


Mas a Escalpo não surge do nada! Seguindo o rastro deixado por esses quatro caras, chegamos em nomes dos quais já ouvimos falar por aí. The Mullet Monster Mafia, SIck Sick Sinners, Frenetic Trio, 99Noizagain, Dezakato e Além da Lenda. Cada um desses nomes tem uma pontinha de responsabilidade na Escalpo (e tem links de toda essa galera pra vocês conhecerem, ao final da entrevista)!


E mais, na trilha da Escalpo chegamos nos bastidores do underground nacional e encontramos gente disposta a resistir, tanto no palco quanto na produção cultural que se mantém distante do mainstream! Sendo assim, estamos falando de quem conhece o meio underground, de todos os ângulos possíveis.


A seguir, um papo com o batera Neri Orleone, que contou um pouco sobre o conceito, surgimento e expectativas da Escalpo para um futuro próximo, já num mundo pós-pandemia. Mas enquanto tudo isso não termina, confira a entrevista e conheça o som da Escalpo, que vale a pena!


Feira Moderna Zine: Pra começar, como rolou a ideia de se reunirem, em plena quarentena, pra formar a Escalpo!


Neri Orleone: Antes de tudo valeu demais pela oportunidade em estar falando um pouco sobre a banda e nossa proposta, muito obrigado. Sobre o começo da banda, o Escalpo surgiu da necessidade em se posicionar neste momento bizarro que estamos vivendo. Eu já tinha a ideia de montar uma banda nova voltada à sonoridade mais crua e intensa, e este momento de pandemia acabou contribuindo em muito para organizar os pensamentos, conversar com os amigos e pôr a proposta para funcionar. Acho que fizemos valer a máxima do ócio criativo.



Feira Moderna Zine: Sobre antes da Escalpo: queria saber sobre as antigas bandas e como foi juntar as influências musicais de vocês numa nova banda!


Neri Orleone: Cara, a gente circula na cena a mais de 20 anos, no meu caso quase 30, então já integramos várias formações de diversos estilos como o Punk Rock, Hardcore, Death Metal e muitos outros...


Ultimamente estávamos mais envolvidos com a cena Psychobilly/Surf Punk, atuando diretamente em bandas que excursionam regularmente pelo exterior e tem um nome sólido no cenário internacional, realizando tours seguidas pela Europa, USA, México, países da América do Sul e obviamente circulando intensamente dentro do Brasil, antes da pandemia.


Por sermos muito ativos na cena, seja organizando festivais, gravando e lançando discos e/ou organizando tours no Brasil e exterior estamos sempre nos encontrando; a afinidade sonora descoberta nas conversas que sempre temos foi o que nos uniu no Escalpo. Vou deixar uma listagem com o nome dos projetos atuais de cada um!


Neri Orleone: The Mullet Monster Mafia (Surf Punk) / SIck Sick Sinners (Psychobilly Maldito) / Frenetic Trio (Death'a Billy) / 99Noizagain (Speedrock)


Allisson Big Bull: Big Bull and His Selfish Band (Dark'a Billy Monoband) / 99Noizagain (Speedrock)


Netão Lombada: The Mullet Monster Mafia (Surf Punk) / Dezakato (Punk Rock/HC)


Rejão DeNyah: Além da Lenda (Reggae)


Esta listagem abrange nossas bandas atuais. Dando uma olhada é possível ver que em alguns casos temos mais de uma banda em comum, pois somos amigos de longa data e a afinidade musical é algo que nos mantém sempre unidos.



Feira Moderna Zine: E como se deu o processo de composição e produção do EP durante a pandemia?


Neri Orleone: Em razão do isolamento social tivemos de nos adaptar e descobrir uma maneira de trabalhar juntos se fazendo valer da tecnologia para esqueletar algumas ideias e definir alguns parâmetros, visto que moramos longe um dos outros; eu estou no litoral sul de São Paulo, em Cananéia, o Allisson em Uberlândia, no triângulo mineiro, e o Neto e o Rejão no interior de SP, na cidade de Rio Claro.


Por este motivo foi importante termos nossa proposta muito clara e bem definida antes de iniciar o processo de composição. Com as letras escritas nos juntamos e formatamos as músicas que compõe o EP Retrocedendo, tudo feito de forma muito rápida. Escrevemos as músicas em setembro, gravamos em outubro e lançamos em novembro.



“Não gosto de julgar ou cravar opiniões como dono da verdade, mas a ignorância se sobrepôs ao bom senso, a falta de discernimento e educação em muitos casos ilude e confunde a classe média que é a fiel da balança e indiretamente responsável pelo momento terrível que estamos vivendo, enaltecendo os ricos e esmagando a nós todos que estamos na linha de baixo.” (Neri Orleone - Escalpo)



Feira Moderna Zine: O EP Retrocedendo foi lançado há pouco tempo, mas já deu pra ter uma ideia da repercussão dele? Os shows ao vivo, para divulgar um novo trabalho, ainda fazem muita falta, mesmo com as facilidades da tecnologia?


Neri Orleone: Sim, o EP foi lançado dia 20 de novembro, à cerca de uma semana, então ainda estamos em fase de divulgação do material. O Escalpo é um nome novo na cena apesar de ser formado por "tiozinhos", então além de promover as músicas, também precisamos solidificar o nome da banda no cenário, e estamos trabalhando nisso agora.


Até o momento, as reações às músicas vêm sendo incríveis, muito amigos nos deram suas opiniões e já tivemos a oportunidade de receber alguns reviews extremamente positivos tanto do Brasil quando do exterior. Nós estamos ansiosos para pegar a pista e tocar estas músicas ao vivo, mas com tudo que estamos vivendo, estamos otimizando nosso tempo intensificando a divulgação e planejando as tours que faremos em 2021.



Feira Moderna Zine: A banda se posiciona politicamente de forma clara. Mas no meio underground, de uns anos pra cá, vimos crescer os “isentões” ou discursos assumidamente conservadores e é difícil não pensar que é algo que não faz o menor sentido no universo do Punk, do Metal ou no Rock de uma forma geral. Como vocês encaram esse tipo de pensamento no nosso meio?


Neri Orleone: É um paradoxo bizarro, visto que a escolha por integrar uma cena, ou viver no underground, está diretamente ligada a se opor ao pré-estabelecido. Não gosto de julgar ou cravar opiniões como dono da verdade, mas a ignorância se sobrepôs ao bom senso, a falta de discernimento e educação em muitos casos ilude e confunde a classe média que é a fiel da balança e indiretamente responsável pelo momento terrível que estamos vivendo, enaltecendo os ricos e esmagando a nós todos que estamos na linha de baixo.


Não podemos aceitar o racismo social e humano como algo natural, acredito que a música assim como todos nós que estamos envolvidos na cena, temos que nos posicionar contra as injustiças e não podemos tolerar discursos de isenção ou pregação de ódio aos nossos semelhantes. O conservadorismo é um câncer que mata e destrói lentamente, minando as estruturas e envenenando as pessoas; além disso a isenção de alguns influi diretamente na vida de todos. Nós temos clareza sobre o momento que estamos vivendo e optamos estar ao lado da solidariedade, da luta pela igualdade de condições para todos.



Feira Moderna Zine: E como está (ou estava, até a pandemia) o cenário de Punk e Metal, na região de vocês? Tinham espaços de shows, bandas novas aparecendo, enfim?

Neri Orleone: Como disse acima, vivemos em cidades diferentes e circulamos muito tocando com nossas outras bandas. O interior paulista, que é nosso ponto de origem, possui uma cena forte e sólida com excelentes bandas e muitos lugares para se tocar é uma região extremamente fértil para a produção cultural e muito ativa com relação ao cenário independente.


Eu tenho uma produtora e um pequeno selo, a Orleone Records/Booking e estamos em contato direto com a cena brasileira de forma geral, sempre organizando shows e colocando as bandas na pista, das bandas novas acho que posso citar o Satab de Piracicaba, Battra de Araras e o Bong Brigade de Campinas, que são bandas que estão ativas e de qualidade inquestionável.





Feira Moderna Zine: Para a Escalpo, a quarentena acabou sendo proveitosa. Ainda assim, a pandemia causou estragos no meio musical e no underground, principalmente. Casas de shows fecharam, técnicos e produtores ficaram impossibilitados de trabalhar, enfim. Queria saber como acham que estará o meio underground que encontraremos depois que tudo isso passar!


Neri Orleone: Nós estamos no meio desse time todo que foi diretamente afetado, porque trabalhamos com cultura e somos os últimos da fila em nosso país, desde a tour do Toasters que fiz em Março, estamos parados com a produtora, dando nossos pulos para sobreviver e manter as coisas funcionando com o cobertor curto que cobre a cabeça e descobre os pés.


Sobre o cenário pós pandemia acredito que teremos um período de readaptação, mas em razão da grande produção ocorrida neste período, teremos uma verdadeira avalanche de novidades e de grandes nomes surgindo na cena, trazendo sangue novo. Talvez leve algum tempo até que tudo volte ao "normal", com shows em casas pequenas e com festivais ao redor do mundo, mas a cena voltará a pulsar forte e sólida, porque apesar das dificuldades vividas este ano, este momento também serviu para reflexão e reorganização de muitos detalhes. Não tenho dúvidas de que o cenário como um todo voltará mais forte.



Feira Moderna Zine: Chegando ao fim, agradeço pelo papo e desejo boa sorte à nova banda. E deixo a pergunta com a qual temos encerrado nossas entrevistas: O que esperar do mundo pós-coronavirus?


Neri Orleone: Rafael, muito obrigado pelo espaço cedido. Para nós é extremamente importante poder falar sobre a banda e nossa proposta, crescemos lendo e fazendo fanzines de xerox na década de '80 e '90, e os fanzines são parte FUNDAMENTAL da nossa cena de forma geral, muito obrigado e parabéns por se manter ativo com o Feira Moderna Zine.


Sobre o que esperar do mundo pós pandemia? Nós esperamos festa, meu irmão. Festa, bagunça e muita música. Estamos ansiosos por reencontrar nossos amigos na pista e voltar a viver a vida que escolhemos para nós. Também quero agradecer a quem leu a entrevista até o final e dizer para se manterem seguros que em breve estaremos todos juntos arrebentando na bagunça!!! Valeu demái ciganada!!!


Ouça o EP Retrocedendo no Spotify.


Assista ao lyric vídeo de “Onda de Estupidez”:


Conheça a Escalpo:

Instagram | Spotify | Bandcamp


Conheça as outras bandas dos integrantes da Escalpo (Spotify):

The Mullet Monster Mafia | SIck Sick Sinners | Frenetic Trio | 99Noizagain | Big Bull and His Selfish Band | Dezakato


Leia também:

EP Retrocedendo em nosso Nos Fones.


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