• Rafa Almeida

Entrevistas | Michael Meneses (Portal Rock Press/Parayba Records)

Atualizado: Out 27


Michael Meneses | foto: Wallace Gomes

Na entrevista que fizemos com a editora do Portal Revoluta, Deise Santos, a apresentamos como “a encarnação do D.I.Y”! Deise Santos foi colaboradora da clássica revista Rock Press, um dos veículos mais importantes, não só para o meio independente, mas para o Rock em meados dos anos noventa (influência, inclusive, para este fanzine). Na Rock Press, Deise Santos trabalhou ao lado do fotógrafo Michael Meneses, nosso entrevistado de hoje aqui no Feira Moderna Zine.

Se o lema Punk é perfeitamente aplicável à editora do Portal Revoluta, o mesmo podemos dizer de nosso entrevistado com relação ao Rock! Michael Meneses é figura importantíssima no meio independente. Este fotógrafo e jornalista trata do que, pra muitos, é mera diversão com o profissionalismo que muitas vezes cobramos de nosso cenário, em todos os níveis.

Seja no comando de sua Parayba Records, cuidando do Portal Rock Press com maestria ou como um dos colecionadores de materiais underground mais dedicados e cuidadosos que se tem notícias, Michael Meneses é o tipo de figura que merece ser lembrada e celebrada por manter de pé as bandeiras da música e da cultura. Mesmo em tempos de sombras e autoritarismo, a caravana de Michael Meneses não para. E, como sempre insistimos neste espaço, registrar e preservar nossa memória, nossa história e a produção cultural que resiste no underground é necessário. Sendo assim, nomes como o de Michael Meneses são imprescindíveis. E, a partir daqui, saberemos mais sobre essa importante figura do Rock nacional!



FMZ: Você é completamente envolvido com Rock e cultura. E vamos falar de tudo isso. Mas antes, quero voltar no tempo e começar nosso papo com você contanto com o Rock passou a fazer parte de sua vida.

Michael Meneses: Nasci em Irajá, no subúrbio carioca, e de certa maneira a música sempre esteve presente em minha vida, isso bem antes de viver pelo Rock. A começar pelo nome, que foi inspirado no Michael Jackson, nasci em 1974, ano em que o Jackson 5 veio ao Brasil. Por outro lado, quase fui batizado de Richards, certa vez, Robson Vera, meu antigo diretor na Rock Press, falou que, de uma forma ou de outra, eu teria o nome de um Stone (risos).

Quando criança, nos anos 1970, ouvia Benito di Paula, Caetano Veloso com meus pais, e também o clássico Disco-Baby, tudo em fita K7. Em 12/10/1980 fui morar em Sergipe, e lá tive contato com MPB, Zé Ramalho, Amelinha, Gal Gosta, Gilberto Gil. Em dezembro de 1980, com 6 anos e cheio de medo, acompanhei na TV as notícias da morte de John Lennon, em 1983 as imagens do show do Kiss no Maracanã, além dos raros programas de videoclipes, como o Clip-Clip na Rede Globo e sempre fui apaixonado por rádio. Tudo que tinha ROCK no nome despertava minha atenção e aos poucos, fui conhecendo na TV, Blitz, Barão Vermelho, Paralamas... em 1985, veio o Rock in Rio e com ele me tornei fã do Queen. Comecei a andar de skate, e em 1986, graças a alguns amigos da rua, fui conhecendo o Rock a fundo, não era um “Caçador de Noite, mas heavy metal era a minha bíblia” (Dorsal, Dorsal, Dorsal... risos).

Passei a colecionar discos, revistas, ir a shows, conhecer Hard Rock, Rock Progressivo, o Punk/HC. Por volta de 1989, com uns amigos, comecei a fazer o Other Side Zine, e trocar cartas com bandas e zineiros do Brasil. Entrei no underground e nunca mais sai. Recentemente, em um papo com amigos sergipanos, chegamos à conclusão que fomos os 50 primeiros heavys do estado de Sergipe. Éramos “Subversores da Ordem”, como canta a banda sergipana Karne Krua.



FMZ: E em que momento decidiu que o Rock seria, também, uma atividade profissional?

Michael Meneses: Ainda nos anos 1980, eu pintava camisas de Rock, trabalhava em um silkscreen e fazia fanzine, tinha entre 14 e 16 anos, sonhava fazer do Rock a minha vida, e de fato, aconteceu. Vim ao Rock in Rio II, e voltei a morar no Rio de Janeiro. Segui com o zine, e já clicava shows, porém, a fim de melhorar a qualidade das imagens no zine.

Em 1993, iniciei os estudos em fotografia, foi aí que, aos poucos, comecei a ganhar algum dinheiro no Rock. Depois em 2001, veio o Selo Cultural Parayba Records, cuja venda de discos sempre me pagou contas e motivou meus sonhos.

Em 2001, trabalhava em uma empresa que não tinha a ver com Rock/cultura/fotografia, fiscalizava carros nas ruas do Rio, foi o emprego com o melhor salário que tive, porém, o mais arriscado, pois, ninguém aceitava ter a placa do seu carro anotada por estacionar de forma errada, nem sei como não tomei um tiro, já que anotava carro de todo tipo de gente, trabalhador, pastor, traficante, militar, político.

Um dia, o prefeito Cesar Maia, tomou posse para o seu segundo mandato, e logo nos primeiros dias, cancelou o contrato com a empresa que eu trabalhava. A empresa demitiu uns 300 funcionários, e fui um deles. Pode soar descaso com os outros demitidos, mas, sou grato ao Cesar Maia pela minha demissão, pensei: “Foda-se, nunca mais irei trabalhar em algo que não gosto apenas por ser bem pago”.

Desde então, sigo vendendo discos, entrei para a Rock Press, fotografo e leciono fotografia, escrevo, cursei jornalismo, pós-graduação em artes-visuais e cinema, produzi shows, fiz exposições, e nunca mais trabalhei em algo não ligado aos meus sonhos.

O Rock me fez leitor de quase todas as revistas de música que circularam e circulam no Brasil desde os anos 1980” (Michael Meneses - Rock Press/Parayba Records)


fotos: Michael Meneses

FMZ: Impossível pensar em Rock Press sem Michael Meneses, e o contrário também! Conte como se deu esse seu encontro com a (revista, depois portal) Rock Press!

Michael Meneses: Desde criança sempre fui rato de banca de jornal, compro jornais e revistas até hoje e acho fundamental consumir mídia impressa. Minha memória mais antiga de uma banca de revista é dos anos 1970, andando com minha mãe, vi a clássica revista Gibi, pendurada em uma banca de revistas antigas em Madureira/RJ e nunca mais esqueci aquele personagem dos anos 1950.

O Rock me fez leitor de quase todas as revistas de música que circularam e circulam no Brasil desde os anos 1980, e mais tarde conheci publicações da década de 1970. Lia tudo, Metal, Roll, Rock Brigade, Heavy, Bizz, Dynamite, Gigantes, Valhalla, General, Internacional Magazine, Roadie Crew, Rolling Stone, Billboard, e a SomTrês, cujos pôsteres gigantes foram uma grande influência em minha vida de fotógrafo.

Curiosamente, a única revista que tive pouco contato foi a Rock Press que circulou em meados dos anos 1980, mas que durou poucas edições e era encartada no jornal O Fluminense. Também lia HQs da Marvel, DC, MAD e revistas como Trip, Incrível, Globo Ciência, National Geografic, Iris Foto, Fotografe Melhor. E foi aí que em uma das minhas idas ao jornaleiro de Marechal Hermes (RJ), em março de 1996, vi a Rock Press Nº1, exposta, e foi amor de primeira. A revista, ainda em formato tabloide tinha tudo o que gostava em uma publicação de Rock, e um pouco mais, tinha HQ, cinema, política, variedades e um olhar ao underground que a diferenciava das outras, além de apresentar ao Brasil bandas ainda pouco conhecidas. Outro diferencial, era a equipe, e justiça seja feita, a Rock Press teve alguns dos melhores nomes do jornalismo cultural, não apenas musical, de uma geração e que seguem produzindo conteúdo com diferencial, só para citar alguns nomes, Marcos Bragatto (Rock Em Geral), Carlos Eduardo Lima (Célula Pop), Carlos Lopes (Tupinambah), Deise Santos (Portal Revoluta), Bruno Eduardo (Rock on Board), Flavio Flock (Zurra Prints) e tantos outros.

A Rock Press deu vida a dezenas de profissionais de mídia que seguem sendo lembrados até hoje. Depois de conhecer e me tornar um leitor fiel, aos poucos fui sonhando um dia fotografar para a Rock Press. Foi então que em 2001 fui fotografar Ratos de Porão e Gangrena Gasosa no Clube Aliados em Campo Grande (RJ). O amigo e roadie, Leandro Rocha, era o repórter da Rock Press, porém, estava sem fotógrafo, pensei; “essa é a minha chance!”. Estávamos a uns 10 metros e o RDP passava o som, e pensei: “Vou falar com o Leandro”, fui em sua direção e ao mesmo tempo, ele veio na minha direção, e antes que falasse algo, ele me perguntou: “Michael, você pode disponibilizar umas fotos para a Rock Press?” Ou seja, ele me respondeu o que ainda iria perguntar (risos)!

Dias depois, levei as fotos na redação e lá mesmo fui convidado para fotografar um show. Era abril de 2001, estreei na edição 34, e a partir dali segui produzindo textos e fotos para a Rock Press até 2017, passei pelo impresso (até 2006) e segui com o virtual. Foi então que por volta de 2015, uma coisa começou a martelar minha cabeça dizendo: “Segura a onda, você será promovido na Rock Press”. Essa premonição do bem seguiu até abril de 2017, quando em uma manhã indo vender discos em SP e passando pela altura do município de Resende/RJ, recebi via messenger o convite da minha então editora Cláudia Reitberger, me perguntando se não queria comprar a marca, dar uma nova vida para a Rock Press, dar chance para gente nova, como a Rock Press me deu e a tantos outros. Ela falou que me escolheu pelo fato de que eu sempre lutei pela Rock Press e por saber que não iria sujar a bonita história da Rock Press, além do fato que outros merecedores já seguiam com seus próprios trabalhos. Não tinha como recusar e sempre foi muito amor envolvido. Na compra, não foi acordado usar as matérias antigas do site ou da revista, e sim criar uma nova Rock Press.

Desde então, sigo na luta e, na medida do possível, venho dando chance a novos colaboradores, jornalistas, fotógrafos, design, e sou grato a todos os que seguem acreditando na fase atual da Rock Press, logico, que gostaria muito de ter gente do Brasil e de outros países, cobrindo as cenas locais, mas não é tão fácil quanto quem está de fora imagina. Contudo, posso dizer, que, com humildade e a certeza que venho adquirindo nos últimos anos, que a Rock Press é para mim um grande amor! Posso não está fazendo tudo que gostaria com a Rock Press, mas nunca me canso de tentar e nem irei desistir.



FMZ: Nesses anos como fotógrafo, cobrindo festivais, shows de artistas nacionais e gringos, imagino que você tenha muita história pra contar. Mas queria que você elegesse um momento marcante ao longo de sua carreira!

Michael Meneses: Sempre fui apaixonado por imagens, estudei fotografia no SESC-Madureira/RJ (1993), SENAC-Riachuelo/RJ (1996) e cursos livres Faculdade Simonsen em Realengo/RJ (1994/96), já as faculdades de Jornalismo e Cinema e a pós em artes visuais, cursei na Universidade Estácio de Sá, onde trabalho no Núcleo de Fotografia. A partir de 1992, fotografei todo tipo de evento musical que você possa imaginar, do underground em bar pé-sujo ao Rock in Rio, de apresentações evangélicas a shows de Black Metal, show em todos os horários. Na rua, na chuva, na fazenda, e, se brincar, até em uma casinha de sapê, parafraseando o grande Hyldon, que, aliás, já fotografei e a Rock Press o entrevistou.

Minhas fotos circularam em revistas e sites de todo planeta, clicks de bandas de diversas partes do Brasil e do mundo. E, histórias desses clicks é o que mais tem. Se fomos falar de algo Pop, tem a história mais famosa, e que meus alunos adoram ouvir, que é sobre uma foto da Beyoncé circulando de madrugada pelo gramado do Rock in Rio 2013, em um daqueles momentos de estar com uma câmera na mão e no lugar certo. A foto causou o maior fuzuê naquele Rock in Rio e foi publicada na coluna do Anselmo Gois, no jornal O Globo, por sugestão da Roberta Medina. Para quem já fotografou Metallica, Iron Maiden, Black Sabbath, Dio, Scorpions, Motorhead, e os nacionais, Sepultura, Ratos de Porão, Cólera, Dorsal Atlântica, The Baggios, Elza Soares, Uzômi, a foto da Beyoncé nunca será a foto que mais gosto.

Tiveram as fotos que fiz do show do Dead Kennedys, no Rio em 2001, e que o Jello Biafra pediu para usar no processo contra a banda, mas que não sei que fim levou. Adoro fotografar o Heron da banda carioca Uzômi e o João Gordo do RDP pelas performances deles no palco. Outra foto que gosto muito e que já esteve em várias exposições é uma foto que fiz do show do The Mist, na Lona Cultural de Campo Grande/RJ, em 1993. Usei uma Olympus Trip e um filme de 12 poses, para fotografar a banda e a Blockhead que abriu a noite, usei a técnica dos antigos jogadores de futebol em pensar em como fazer um gol, pensei: “Quero fazer uma foto de um dos músicos com o cabelo para o alto”, e foi o que fiz!

Depois da Olympus Trip, tive uma Pentax K1000, hoje, usar filmes de 12, 24 e 36 poses, pode soar estranho aos jovens que estão acostumados com centenas de fotos e vídeos em um show usando o próprio celular, o que particularmente acho horrível, pois muitos acabam olhando a tela do celular e esquecem do espetáculo no palco. Mas, como estava dizendo, foi com câmera analógica e filmes fotográficos, que desde 1992 comecei a registrar a cena Rock carioca, e só em 2005 passei a usar equipamento digital, e não nego, sou apaixonado pela fotografia analógica, aliás, trabalho em um laboratório de fotografia P&B.

“A Parayba Records acredita que tudo que é cultura tem que se unir, trocar figurinha, e assim como acho digno, unir bandas de Metal, Punk, Prog, HC, Blues em um mesmo palco, por que não unir outros segmentos artísticos?” (Michael Meneses - Rock Press/Parayba Records)



FMZ: Seja na Rock Press ou na Parayba Records, você viveu a, digamos, virada, de um mundo sem internet para um mundo virtual. O que de mais significativo mudou no Rock e no underground com a chegada da internet e, depois, com o surgimento de redes sociais e plataformas de streaming, na sua opinião?

Michael Meneses: Infelizmente a internet deu vida aos preguiçosos e não apenas no Rock, mas em todas as manifestações culturais. O mundo virtual veio para ajudar e ajudou muito, facilitou a propagação da arte, divulgação de eventos, mas por facilitar, acabou deixando todos acomodados, fomos parando com um monte de coisas que motivavam a arte, do underground ao mainstream.

Antes, espalhávamos filipetas e cartazes em lojas de discos, murais de escolas e os shows pareciam ter mais público, hoje, com as redes sociais parecem mais vazios. Ouvir um disco ou assistir um filme no streaming é muito bom, o trabalho de um artista tem um alcance muito maior, isso é ótimo, porém, nem todo mundo que dá um like em um trabalho, está realmente conectado com aquela arte! Sem falar que vejo muita coisa virtual como algo passageiro, diferente de um livro, revista, vinil, CD, K7 que são eternos.

No início dos anos 1990, vi amigos substituindo LPs por CDs, enquanto segui comprando LPs e comecei a comprar CDs, uma mídia não substituiu a outra, e sigo comprando ambos. Com o tempo, alguns desses amigos se arrependem de não ter UM único CD e até me compram discos. Outra coisa, sabemos que muita gente deixa de ir a um show para ficar na internet, e depois comentam: “Porra, o show foi foda, vi no YouTube, se soubesse teria ido”. Acho que arte tem que ser consumida mesmo, vivida de perto, sentida na pele, claro que podemos assistir a um filme na Netflix e nós emocionar ou conhecer uma banda foda no Spotify, mas sinto falta de ver os detalhes da capa do disco, do cheiro de um livro novo, a emoção de um filme na telona do cinema, a energia do show.

Sei que esse papo soa saudosista, mas, assim penso e tenho como esperança o fato que se dizia ainda nos anos 1980 que o disco de vinil iria acabar e hoje as vendas de vinil seguem aumentando em todo o mundo, acredito que cedo ou tarde, vai acontecer o mesmo com CDs, um exemplo é o fato de ver garotos de 14, 15 anos nos stands da Parayba Records comprando discos dos Mutantes, Secos & Molhados, e por não terem renda, são os pais que pagam o que não faz deles necessariamente “filhinhos de papai”, pois, nunca fui rico, e alguns dos meus discos foram meus pais que me deram, isso é normal, nessas horas sempre falo aos pais que eles não estão gastando com o filho, e sim investindo em seu intelectual, afinal, gastar, gastamos com cerveja, cigarro e outras drogas. E, tenho perguntado aos amigos: “1 – Qual banda underground você conhece que paga as contas com streaming?”, “2 – Cadê o MySpace?”.



FMZ: O discurso de que o Rock não tem espaço e sobre as dificuldades enfrentadas por músicos e outros profissionais no meio independente é bastante recorrente. Como você vê o Rock, principalmente no underground, em nosso país com relação a espaços para shows, divulgação... Acha que em algum momento conseguiremos ter uma cena auto sustentável onde, de fato, seja possível se trabalhar com o meio independente com boas condições e se viver disso?

Michael Meneses: Toda e qualquer forma de manifestação cultural, seja música, cinema, fotografia, literatura, só vai para frente se tiver um público consumidor, logo se a cena quer ver o Rock, em especial o underground forte é preciso que o pessoal que diz apoiar a cena de fato apoie, comprando discos, livros, indo aos shows. Toda banda precisa pagar por um estúdio, a produção de merchan, produtores precisam pagar pelos equipamentos de palco, aluguel da casa. Já repararam quantas lojas de discos (de Rock ou não) fecharam nos últimos anos, quantos produtores independentes pararam de produzir eventos, quantas casas pararam com eventos undergrounds, e hoje, no máximo fazem shows de banda covers?

A lista de lamentações da cena Rock/cultural é longa, e além da falta de consumo, pois, sem dinheiro não se produz nada, temos a preguiça do povo, a falta de segurança nas cidades, e outro grande vilão na minha realidade, o principal, é a falta de transporte público. Não tenho carro, moro na zona oeste carioca, distante cerca de 1 hora do Centro, e por vezes, fico sem opção de ter como voltar para casa. Isso é divertido quando se tem 16 anos, mas quando passa dos 40 anos, tendo que acordar cedo no outro dia é bem diferente.

Contudo, já vi o Rock ter altos e baixos em outros momentos, tudo é um ciclo, e mesmo nesse momento de isolamento social, acredito que coisas boas estão por acontecer. Outra coisa precisa ser pensada na cena do Rio de Janeiro que é o fato que, até antes da pandemia, era comum ver a cena reclamando que nada estava acontecendo na cena Rock, quando na verdade, tinha MUITO show rolando. Não me lembro de um único final de semana em muito tempo que não tivesse algum show de rock na capital, na Baixada Fluminense, Niterói, São Gonçalo, ou seja, falta diálogo entre os produtores, sei que em alguns casos, a logística das datas não permite favorecer a todos, com mais diálogo, talvez, fosse evitado certas concorrências que fazem com que alguns eventos ocorressem em uma mesma data e até no mesmo bairro, e assim dividindo o público, por mais diferentes que fossem os estilos das bandas, e isso somado às dificuldades da cena acabam sendo prejudicial para todos.

Aproveito para deixar outro ponto de reflexão, todo artista gosta de vender sua arte, mas quantos desses artistas compram a arte de outras bandas, poetas...?

Desde muito pequeno sempre gostei de colecionar revistas, discos, moedas, selos. Depois, o que era um hobby passou a ser uma pesquisa, afinal coleciono a história do rock em zines, filipetas, discos, fitas demos e fotos.(Michael Meneses - Rock Press/Parayba Records)



FMZ: Aqui no FMZ sempre ressaltamos a importância de preservar a memória do que é produzido no underground. Fanzines, discos, CDs, projetos, enfim. Você se dedica a esse tipo de trabalho e tem um belo acervo sob seus cuidados. Queria saber o que pensa em fazer com esses materiais. Há planos de disponibilizar isso para o público?

Michael Meneses: Desde muito pequeno sempre gostei de colecionar revistas, discos, moedas, selos. Depois, o que era um hobby passou a ser uma pesquisa, afinal coleciono a história do rock em zines, filipetas, discos, fitas demos e fotos. Eventualmente, sou cobrado com o fato que tenho que disponibilizar tudo isso na internet. Confesso, acho justo que isso seja feito, mas no momento não tenho como digitalizar centenas de fanzines, fotos, filipetas, cartazes, fitas de VHS, e umas 500 fitas demos. E nem posso digitalizar as edições impressas da Rock Press.

Minha ideia para disponibilizar esse material de outras formas, alguns batem palmas, outros torcem o nariz. Em relação à Revista Rock Press, eu venho recebendo doações de revistas e montando coleções, e irei doar essas coleções para bibliotecas públicas pelo Brasil. Os interessados que visitem essas bibliotecas e façam bom uso, mas adianto que, em breve, o acervo será digitalizado também, mas não por mim. Já tenho 3 coleções quase completas, que serão doadas para bibliotecas do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. E a cada coleção completa uma capital ou cidade receberá uma coleção.

As fitas demos, irei digitalizar e mandar copias para o site Demo-Tape-Brasil que faz um belo trabalho de compartilhamento de fitas-demo, mas já que terei esse material digitalizado, também penso em algo, como uma rádio que toque só demo, os fanzines repetidos estou doando para a Zineoteca de Macaé/RJ, uma das poucas do Brasil em atividade, e ano passado (2019) doei centenas de zines para o acervo deles incluindo edições do Feira Moderna Zine, e vale destacar que a Zineoteca está fazendo um belo trabalho de preservação e pesquisa de zines do Brasil e do Mundo.

Sempre que sou procurado disponibilizo fotos, vídeos, e material para livros, filmes, documentários, revistas e outros projetos, faço isso com maior carinho, fiz isso com os docs da Dorsal Atlântica, Gangrena Gasosa, assim como farei nos próximos dias para os filmes sobre o Garage e o Caverna que estão em fase de produção. Acho que essa forma de disponibilizar o meu acervo, mas responsável e consciente.

Também recebo muita doação de material underground. Recentemente, fiquei lisonjeado ao receber parte do acervo do Guga, baterista da Dorsal Atlântica. Recebo essas doações de gente que confia na minha responsabilidade com essa história narrada em zines, livros, discos e demos. Teve também gente que preferiu jogar tudo no lixo a esperar alguns dias para que eu pudesse ir buscar.

E falando em lixo, tem outra coisa triste em liberar esse material na internet, muitas vezes, vejo que muita gente baixa um som, um livro, um filme só para baixar, não se conecta com a arte que lhe foi disponibilizada. Acho isso um descaso com o artista e também não sou muito adepto do download ilegal, esse papo de botar para foder com gravadora não me enche os olhos.

Outra parte chata que já me deu dor de cabeça foi uma foto de uma banda que compartilhei. Fotografei a convite da própria banda. Tempos depois a banda mudou de formação, e um dos músicos, educadamente, pediu que eu deletasse das redes sociais todas as fotos que ele aparecesse com a banda dado o stress entre eles, foi tudo tranquilo, mas poderia ser pior, e aí bateu o alerta, imagina se compartilho um trabalho em prol de divulgar a arte feita nos anos 1980/90, e o músico de outrora não concorda com o que produziu naquele momento, isso pode me dar dor de cabeça, é preciso ter cuidado.

Contudo, outra forma que tenho de disponibilizar esse material é o projeto de um livro sobre a história do Rock no subúrbio carioca, em especial a zona oeste do Rio, e todo esse material que possuo me vale de registro. Já comecei e parei essa pesquisa várias vezes, mas como sou um sonhador que não desiste, em breve teremos um livro narrando a história do Rock no subúrbio, de Renato & Seus Blues Caps, até bandas novas que estão surgindo agora na quarentena. Quem sabe, em 2021, não falamos sobre esse e outros livros que tenho em mente?



FMZ: Sobre a Parayba Recods! Primeiro, como a ideia de ter um selo surgiu? E quanto aos projetos em andamento e o que vem pela frente, o que podemos esperar?

Michael Meneses: O ano de 2001, assim como todo início de década foi cheio de situações que se tornaram eternas ou escreveram ensinamentos em minha vida. Naquele ano, entrei para a Rock Press, início da faculdade, relacionamento que deu origem a um casamento que não deu certo, curadoria de shows no Espaço Cultural 911... E foi justamente nos shows do 911 em Bento Ribeiro/RJ que comecei a vender discos. Montava os stands com um misto de CDs independentes e mainstream, fitas-demos, revistas Rock Press. O nome veio do meu apelido, pois, como morei em Sergipe, ao voltar ao Rio com sotaque sergipano, ganhei o apelido de Paraíba e as pessoas falavam: “Vou comprar um CD no Paraíba”, “Comprei esse disco no Paraíba”, “Paraíba tem para vender”. Transformei um apelido que em alguns momentos era um preconceito, em meu marketing e passei a chamar meu stand de ParaYba Records, já pensando em ter uma Loja/Selo a exemplo de gente como o Panço (Tamborete), Calanca (Baratos Afins), Redson (Cólera), Silvio Campos (Karne Krua) e outros dos meus heróis independentes. Ainda sobre a marca, o “Y” no nome foi pensando no mercado europeu, asiático e internacional em geral (risos), que, aliás, aconteceu, afinal os discos da Parayba Records estão em todos os continentes.

Voltando à venda de discos, segui vendendo CDs em shows e lojas do Rio, Grande-Rio, Baixada Fluminense, São Paulo, Sergipe, fiz coleções inteiras dos amigos, vendia discos de todos os estilos de Rock e paguei muita conta dos tempos de casado, boletos da faculdade e luz vendendo CD. Em 2007, fiz o Parayba Rock Fest 1 e 2.

Uma das bandas era o Repúdio que na época gravava o álbum “Prá Que Entender?”. O baterista Dagotta me perguntou sobre a Parayba Records, falei que em breve queria ter uma loja de discos e selo e ele plantou a semente: “Quer lançar a gente, estamos gravando o nosso CD?” E foi assim que a Parayba Records lançou o CD da Repúdio que já estava com contato com a Karasu Killer Rec. do Japão, o que abriu portas para ter a banda japonesa Darge como segundo disco do Parayba Records, e depois veio Karne Krua, C.P.D., Protesto Suburbano e outros, entre os quais a banda Incendiall. Esse foi um trabalho que me deu orgulho, seus músicos são cria de Marechal Hermes, bairro onde, parte da minha família mora desde os anos 1960, e eu, salvo raros momentos, morei de 1991 até 2015.

Marechal Hermes está na história do Rock nacional como palco do 1º show unindo Heavy e Punk no Brasil, em 1984. Os músicos do Incendiall, ainda eram crianças quando me viam na década de 1990 com discos, revistas, cartazes de shows debaixo do braço, o tempo passou e eles cresceram, aprenderam a tocar, formaram bandas, organizaram shows, até que entraram em estúdio com o Incendiall. O CD da Repúdio estava perto de chegar, assim como os outros lançamentos, quando o Thiaguinho (vocal da Incendiall) via MSN me fez o convite para lançá-los. Achei bacana, porém, na época meu pai estava com um câncer, e veio a falecer depois, inclusive recebi os discos da Repúdio ao sair da missa de 7º dia do meu pai. Contei a situação da doença ao Thiaguinho e que não saberia como seria minha vida nos próximos meses, e ele respondeu: “Porra Parayba, a gente cresceu vendo você agitando o Rock em Marechal Hermes, de certo modo você sempre foi uma inspiração para a gente, você vai lançar esse disco nem que seja com 1 REAL”. Fiquei lisonjeado com o reconhecimento e falei que iríamos pensar em alguma parceria. Não nos falamos mais, meses passaram desde que meu pai faleceu. Os primeiros lançamentos do Selo já circulavam pelas lojas e stands do Brasil, quando Thiaguinho aparece na minha casa com os discos da Incendiall, tomei um susto, pois não retornamos ao papo sobre a minha contrapartida. E ele ainda falou algo sobre a minha importância na questão “Faça Você Mesmo” na região!

Não sou hipócrita, e tenho um orgulho da PORRA das minhas vitórias e das conquistas dos amigos, amo de verdade, já me peguei chorando por ter feito coisas que muita gente teria feito com certo descaso, mesmo que tenha feito com amor!

Em 2010, fui procurado pela Polysom Discos para representar a fábrica em feiras de vinil e shows. Também é importante dizer que a Parayba Records não se limita apenas a apoiar e vender discos, a ideia é motivar a cultura como um todo, seja mostra de fotos, filmes, palestras, sarau poético, shows, e até peças de teatro infantil já teve nosso apoio.

A Parayba Records acredita que tudo que é cultura tem que se unir, trocar figurinha, e assim como acho digno, unir bandas de Metal, Punk, Prog, HC, Blues em um mesmo palco, por que não unir outros segmentos artísticos? Temos que evitar picuinhas na arte, pois enquanto segregamos, as ideias fascistas ganham força. Em 2020, estava me programando para lançar três discos, além de iniciativas recorrentes, shows, teatro, expo, porém, tive que abortar tudo. Tão logo seja possível a realização de eventos, voltarei a pensar nos futuros lançamentos. Tenho ideias para colocar em prática!


FMZ: Já caminhando para o final, vamos falar um pouco do cenário independente neste momento de pandemia. Como você avalia os impactos de tudo isso que vem acontecido no nosso meio para músicos, profissionais da área técnica, casas de shows...?

Michael Meneses: Particularmente, 2020 foi o ano em que menos fotografei, vendi e comprei discos, assisti shows, fui ao cinema, teatro, exposições. A arte fez bom uso da internet, com lives, discos, filmes, jogos. E agora sim, posso dizer que o mundo virtual venceu. Entrei em quarentena em março, achava que o mundo iria acabar em uns 20 dias, poucos seriam imunes ao Coronavírus, papo de filme de ficção, tipo “Dança da Morte”, aquele longa de umas 6 horas inspirado no livro do Stephen King.

Aquilo me deixava deprê, já estava há uns dias sem comer direito e conversava via zap com Robert Moura, correspondente da Rock Press em Belo Horizonte/MG sobre o momento, e ele me chamou atenção, lembrando do texto que o Augusto Licks (ex-Engenheiros do Hawaii) escreveu e disponibilizou para a Rock Press sobre o Covid-19, no qual ele fala sobre a importância da alimentação durante a pandemia. Pensei: “Vou acabar no hospital por falta de alimentação e me expor ao vírus”. A ficha caiu, voltei a comer, desliguei a TV, que só falava de novos casos e vítimas, fui filtrando as notícias na internet, nada daquele papo de “gripezinha”, “a culpa é da China”.

Nem filme de confinamentos, mortes, doenças ou terror eu assistia. Entrei em Lockdown, saindo de casa uma vez ao mês para ir ao mercado, estocava tudo e me isolava em meio aos meus discos, livros, DVDs, VHS, assistindo as lives dos amigos o que me inspirou a fazer as lives da Rock Press que foram um sucesso e, por sua vez, inspirou lives de outros amigos e até uma web-rádio, a Rota 220, aliás, as lives da Rock Press vão voltar no YouTube, aguardem!

Sei que, coisas ruins aconteceram desde que o vírus foi descoberto em 2019, depressão, abuso de álcool e drogas e violência doméstica, mas, também acho importante pensar que muita gente se descobriu, durante o isolamento social, e trabalhos legais já estão surgindo, pois já vemos discos, livros que foram trabalhados na quarentena. E, deixo a dica, fiquem atentos aos financiamentos coletivos que estão surgindo, ajude um artista a lançar sua arte por meio de um crowdfunding, que, aliás, é uma das melhores coisas que a internet fez pela cultura!

FMZ: Muito obrigado pelo papo! Grande honra para este fanzine trocar uma ideia contigo, meu caro! E para terminar, a pergunta que não quer calar: o que esperar do mundo pós pandemia?

Michael Meneses: Se até antes tive medo e imaginei um mundo apocalíptico, hoje, me sinto mais tranquilo e esperançoso, vejo o futuro com bons olhos e acho que depois da vacina o maior desafio da humanidade é não seguir elegendo fascistas, e isso, vale para o mundo e não apenas ao Brasil.

Culturalmente falando, depois da vacina no “futuro-novo-normal”, pois, acho que já estamos no “novo-normal”, muita coisa legal vai acontecer, teremos, bandas novas, livros, zines, filmes, exposições, trabalhos culturais em geral, afinal, muito está sendo produzindo neste momento. Até lá, sigo fazendo minha parte, buscando isolamento, e não nego, que independente do porte, sou contra a realização de shows, futebol, festas, eventos religiosos, praias e aglomerações em geral. Não vejo minha irmã faz muito tempo, e só estive com minha mãe que não a via desde março, em setembro, e isso só ocorreu por motivo de força maior. Se queremos controlar esse vírus e evitar sua propagação, temos que ficar em casa, deixar as ruas para quem precisa estar nas ruas que são profissionais da saúde, limpeza e segurança.

Agora mudando de assunto, quero dizer que a honra foi minha, bater esse papo com vocês do Feria Moderna, um zine, que acompanhei a evolução e que sempre gostei, isso já se vão quase 20 anos. Sei da luta de vocês e também nunca vou esquecer, o dia em que nos conhecemos no camarim do 1º show do Força Macabra no Rio em 2001 e alguns anos depois ver vocês de frente na produção do 2º show da banda no Rio. Feira Moderna Zine é história e eu apoio! No mais, agradeço a todos que leram e divulgaram essa matéria nas redes sociais, afinal o underground se faz assim, todos juntos e misturados em prol de algo maior e positivo para todos e saibam que na medida do possível, podem contar comigo, com o Selo Cultural Parayba Records e com o Portal Rock Press, e se você quer produzir conteúdo para a Rock Press, as portas estão abertas e segue todos os contatos estão aí em baixo e é tudo NOISE!

Conheça o trabalho de Michael Meneses:

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Contato para envio de material físico (bandas, zines, livros, filmes e demais produções):

Portal Rock Press/Parayba Records

Caixa Postal: 30443 Rio de Janeiro/RJ - Brasil CEP: 21351 – 970

A/C: Michael Meneses

Envie news e sugestões de pautas da sua banda, selo, fanzine, HQ, gravadora, editora, livro, distro, arte, produtora de show e evento, cinema, cultura alternativa e underground em geral: michaelmeneses@portalrockpress.com.br

Links para os trabalhos citados na entrevista:

Marcos Bragatto | Rock Em Geral

Carlos Eduardo Lima | Celula Pop

Carlos Lopes | Tupinambah

Deise Santos | Portal Revoluta

Bruno Eduardo | Rock on Board

Flavio Flock | Zurra Prints

E mais:

Entrevista com Deise Santos no Feira Moderna Zine.

Entrevista com Hyldon no Portal Rock Press.

Conheça a web rádio Rota 220.

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