• Rafa Almeida

Entrevista | Séquito

Atualizado: Ago 30


Há algum tempo atrás, em algum ponto entre o final dos anos 1990 e o comecinho dos anos 2000, o município de São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, desfrutava de um cenário de bandas autorais bastante rico. Havia espaços e projetos nos quais as bandas podiam se apresentar, rádios comunitárias que tocavam essas bandas e um público interessado na produção local.

E mesmo que alguns aspectos, inerentes à qualquer região periférica, não contribuíssem para transformar o que rolava naquele momento em uma cena consolidada, muita coisa aconteceu ali. Bandas, músicas, demos e toda uma produção artística que não pode ser ignorada.

Olhando para a prateleira de CDs aqui, avisto alguns dos nomes que fizeram parte do cenário descrito aí em cima. Entre eles, a demo do Boddah. Mais um dos nomes que figuravam em flyers e palcos, muitas das vezes, improvisados pela cidade. Se não me falha a memória, vi show desses caras no projeto Zueira Cultural, num trailer no bairro Parada 40.

À essa altura, o Boddah já devia ter virado Séquito. E de lá pra cá muita coisa aconteceu. Surgiram e desapareceram bandas e espaços. O underground da cidade mudou, muita coisa mudou.

Hoje, é difícil imaginar o que encontraremos no tal "novo normal". Só dá pra lembrar de onde estávamos antes de tudo isso se dar. Vale pra vida cotidiana, hábitos, cena underground, tudo!

Porém, numa das últimas vezes em que conferi um show em São Gonçalo, lá estava o Séquito! Ainda com toda a energia e intensidade que se espera de uma banda independente quando sobe ao palco!

Veio a quarentena. E veio também "Estética de Queda" (confira a resenha aqui), o mais recente trabalho do Séquito. Ao mesmo tempo que o disco condensa muito do que vi no cenário alternativo de São Gonçalo, também é um álbum que aponta novos horizontes. Provando que algumas coisas não mudam. Ou mudam, mas preservando sua essência...

Se assim como o Séquito, o cenário underground de São Gonçalo (ou de qualquer outro lugar) terá a capacidade de se reinventar no pós pandemia, não dá pra saber.

Por hora, algumas das recordações acima, a "vida" de uma banda em isolamento e conjecturas quanto ao que teremos pela frente estão na ideia que o FMZ trocou com a banda Séquito, e que você confere a seguir:

FMZ: Pra começar, queria que vocês contassem um pouco da história da banda. Mudou muita coisa desde o começo, em 2004?

Séquito: Em 2004, ainda éramos só Bruno e eu (Vinicius) “à procura do baterista perfeito”. Gravamos uma fita cassete caseira com 5 músicas (eu na bateria) e chegamos a entregar para duas pessoas: uma se mudou na semana seguinte e desapareceu, a outra era o David (ex-Unigênito, ex-Frontal), que chegou a fazer um ensaio, mas não pôde ficar. Felizmente, é nosso amigo até hoje. Vander só foi entrar em 2005. Nós três já nos conhecíamos desde o final dos anos 90, por conta de nossas bandas anteriores (Vórtice, Silvertape e Boddah), mas não tínhamos o contato dele. Um dia, minha namorada descobriu que a amiga dela namorava o Rafael, ex-baixista do Boddah, daí conseguiu o número do telefone de Vander. Desde então, a formação nunca mudou. Houve alguns hiatos por questões pessoais ou familiares, mas nada a ver com nosso convívio na banda, que sempre foi muito bom, por conta da amizade mesmo.

FMZ: Falem um pouco sobre o trabalho mais recente, “Estética de Queda”. A sonoridade do álbum é incrível! Ele soa como vocês queriam, ou imaginavam, desde o início do processo de produção?

Séquito: Muito obrigado. Ouvir isso nos deixa imensamente felizes. O álbum soa, em parte, como nós queríamos; em parte, melhor do que nós imaginávamos, no sentido de que as músicas ficaram exatamente com os mesmos arranjos nos quais sempre as tocamos ao vivo, mas com a inserção de alguns elementos bem discretos sugeridos pelo Silas Mendes, do Estúdio Zeus, que produziu o álbum. Ele teve a sensibilidade de não mudar nosso som, mas, ao mesmo tempo, valorizar ainda mais as músicas com detalhes que fizeram muita diferença, basicamente através de vocais extras e teclados bem pontuais, além de nos preparar para a experiência de gravar ao vivo, com metrônomo, com pedais analógicos (pois eu sempre fui acostumado a usar pedaleira multiefeitos) e nos orientar em outras questões técnicas como, praticamente, prestar serviço de coach de voz, por exemplo. É fato que, sem ele, o álbum não teria soado da mesma maneira. E sobre o estúdio, desde que conhecemos o Lisciel Franco e o ForestLAB pelo YouTube, ficamos empolgados com a ideia de ir para esse lugar isolado em Petrópolis, com hospedagem na própria casa dele – o que é quase o mesmo que dormir no estúdio – e de trabalhar com gravador de rolo. Consideramos que o resultado ficou com uma pegada muito satisfatória; bastante natural e verdadeira. No começo, chegamos a ter algum receio por não sabermos se conseguiríamos nos adaptar a esse método, mas no final deu tudo certo. E, pelo menos neste momento, não nos imaginamos gravando de outro jeito.

FMZ: O som da banda aponta pra várias direções. Apesar de podermos classificar como Rock Alternativo, o leque de influências parece extrapolar esse tipo de rótulo. De onde vêm as influências musicais de vocês e como elas são trabalhadas, ou aparecem, nas composições e na sonoridade da banda?

Séquito: Gostamos de nos identificar com esse rótulo exatamente por ele ser tão vago e abrangente, e porque o entendemos como uma singela sinalização de que não é nossa proposta produzir algo com intenções comerciais, pelo menos no que diz respeito aos moldes mais formatados para supostamente fazerem sucesso. Não há nada de errado em se ter esse objetivo, nem em alcançá-lo. Só não achamos que isso deveria funcionar como bússola para nós, tanto porque tal busca poderia comprometer a espontaneidade artística quanto porque preferimos as tonalidades um pouco mais sombrias, estranhas, densas, ainda que acessíveis em algum nível. Ao fim, tudo é comercializável. Mas, se tivesse que acontecer, preferiríamos que fosse uma consequência. E o Alternativo sugere, teoricamente, o não convencional, o não conservador. O Alternativo é (ou deveria ser) presumidamente de Esquerda.

Sobre as influências, são inúmeras, mas não sabemos calcular o quanto elas são aparentes, pois gostamos de acreditar que elas surgem amalgamadas, diluídas numa coisa naturalmente homogênea. Então, pode ser que citemos artistas que não necessariamente estejam identificáveis na nossa sonoridade, mas estão lá – ou, isso pode soar apenas pretensioso; ou, ainda, estejam mais explícitas do que imaginamos. Para mim, pelo menos, as mais evidentes talvez sejam Violeta de Outono, New Model Army, Tool, Porcupine Tree, Nirvana, Alice In Chains, Smashing Pumpkins, Radiohead, Black Sabbath e Sonic Youth. Mas, se for considerar o que extrapola mesmo, eu ouço muito Rock Progressivo dos anos 60 e 70, pós-punk dos anos 70 e 80 e algo de Shoegaze e Dream Pop dos anos 90 e 2000. Considerem-se, ainda, as influências que Bruno e Vander trazem, e aí o produto final é o que somos.

FMZ: Tanto quanto o som, as letras das canções também impressionam. Parece serem fruto de um processo muito bem cuidado, minucioso mesmo, confere?

Séquito: Sim, há um cuidado especial com essa parte, por vários motivos. Por uma questão de respeito a nós mesmos sobre o que pensamos, acreditamos, sentimos e queremos dizer. Por respeito às pessoas que nos ouvem, pois estão nos emprestando seus ouvidos e sua atenção, então não seria justo que fossem tratadas com indiferença e recebessem qualquer discurso vazio, alienante, isento de um mínimo de reflexão ou feito de maneira desleixada. Porque tentamos apresentar um trabalho de qualidade, dentro de nossas próprias limitações, é claro, então o fazemos com carinho, com amor. Porque algumas dessas canções possuem significados muito íntimos, que só nós sabemos, então não é raro nos arrepiarmos ou emocionarmos em shows ou nos ensaios, pois sabemos que estamos tocando e cantando aquele determinado episódio de nossas vidas que nos foi profundamente marcante. Porque adoramos subjetividade, e achamos a arte mais instigante e até democrática quando permite ao espectador abstrair suas próprias interpretações a partir do conteúdo que é passado. E porque foi assim que aprendemos inconscientemente desde muito novos que era o jeito de se escrever letra de música, pois as bandas de Rock no Brasil dos anos 80 que nós crescemos ouvindo eram bastante dedicadas (ou inspiradas) nesse aspecto. Mesmo aquelas que tiveram menos expressão na mídia apresentavam letras relevantes, pois todas elas, por sua vez, herdaram um cenário musical nacional que trazia como referência em suas letras gente da categoria de Caetano Veloso, Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Belchior, Gonzaguinha e tantos outros que elevaram muito o nível da discussão. Além da Poesia, que naquela época era mais próxima. Autores como Drummond e Ferreira Gullar eram muito reverenciados por músicos contemporâneos. Então, ainda que a postura do Rock fosse completamente diferente em relação aos estilos de seus antecessores, imaginamos que houvesse no ar alguma influência dessa elite literária. Longe de nós nos compararmos aos letristas dos anos 80 (quem dera), mas a gente tenta apresentar algo bacana à medida do possível.

FMZ: Em tempos de isolamento, como ficaram as atividades da banda? Composições, planos pro futuro, divulgação do novo trabalho... o que têm feito?

O processo de composição continua praticamente o mesmo: as músicas vão sendo feitas conforme surgem as ideias, são pré arranjadas, gravadas em voz e violão e ficam aguardando um dia serem testadas com banda em algum ensaio. A diferença é que não temos sequer previsão de quando será possível ensaiarmos outra vez. Logo, elas irão se acumulando naturalmente. Mas música guardada é o que mais temos, então isso não é uma preocupação, pois sempre foi assim. E, por mais que a secura de tocar grite e a saudade de nos vermos aperte, estamos perfeitamente esclarecidos de que o isolamento é coisa séria e precisa ser respeitado, então nem cogitamos qualquer atividade presencial. No momento, estamos mesmo é curtindo ainda a onda do lançamento do álbum, que era um sonho nosso de muitos anos, e divulgando pelas redes sociais, participando de alguns eventos virtuais, enviando para algumas rádios... Pois, se alguém gostar do nosso som, pode ser que algumas portas se abram para tocarmos em lugares diferentes num futuro em que isso já for considerado seguro. E, mais para frente ainda, gravarmos o sucessor do Estética de Queda, pois gostamos tanto da experiência e do resultado que, volta e meia, já brincamos sobre as músicas que farão parte do repertório do próximo.

FMZ: Conseguem imaginar um cenário independente, ou musical de uma forma geral, no que tem sido chamado de “novo normal”?

Séquito: É possível que encontremos um terreno bastante devastado quando voltarmos às atividades, pois muitos bares, casas de shows e espaços underground que abriam oportunidade para bandas se apresentarem estão atravessando dificuldades de se manterem durante a pandemia, e talvez não consigam segurar essa onda e acabem fechando as portas. Então, temos um palpite de que retornaremos à época em que as bandas organizavam seus próprios eventos. E, quem sabe até, dessa forma consigamos ajudar essas pessoas a se reerguerem. Só temos ainda dificuldade de imaginar como isso vai se desenvolver na prática. Provavelmente, ao ar livre, em lugares amplos como sítios... Isso nos faz pensar, de alguma forma, naquelas festas de gerador que as bandas de Desert Rock faziam na Califórnia. Essa é nossa cisma com a definição de Banda Independente. Nós nos tornamos dependentes demais, de tudo, de todos. Em outros tempos, era muito comum as bandas simplesmente juntarem seus equipamentos e fazerem a coisa acontecer, não importasse onde. E isso não seria um chute ingrato nos bares e afins. Pelo contrário, quanto mais eventos acontecendo, mais a cena se fortalece, novos públicos se formam e as casas voltam a encher. A verdade é que o cenário já estava ruim antes da pandemia. Em várias situações, você praticamente implorava por uma chance de tocar, não recebia nada por isso e ainda tinha que levar o equipamento. Se as bandas se organizarem, dá pra tirar um aprendizado disso e encontrar uma forma de se renovar a cena. Um dia. Não agora.

FMZ: Com a discussão política tão presente no dia a dia e nas redes sociais, vocês sentem a necessidade de virem a público se posicionar através da banda? E mais, o artista tem essa obrigação, na opinião de vocês?

Séquito: Acreditamos que você deve se posicionar porque está insatisfeito, revoltado, inconformado e tudo o mais, e não porque a sociedade está cobrando um posicionamento. Porque, se você o faz por pressão, sem estar sentindo aquilo queimando seu peito por dentro, você vai se posicionar sem saber por quê, então será um manifesto vazio, e isso é perigoso inclusive para o movimento. Você tem que saber por que está lá. Somos declaradamente anti-Bolsonaro e tudo que ele representa – o racismo, a homofobia, a misoginia, a xenofobia, o atraso, a incompetência, o ódio, a estupidez, a corrupção, a ignorância, a perversidade, o projeto de genocídio, o fascismo... enfim. Nós sentimos necessidade de nos posicionarmos politicamente porque, se nós que somos privilegiados somos afetados todos os dias por esse panorama sinistro no qual se tornou nosso país, muito mal podemos imaginar o impacto que isso causa nas classes que são, dia após dia, massacradas economicamente, discriminadas, perseguidas e exterminadas. Ainda assim, não achamos que pessoa alguma deva se sentir obrigada a se posicionar por pressões externas, até porque cada um sabe de sua realidade, e é fácil você se posicionar e cobrar dos outros quando está em um lugar seguro e confortável na pirâmide. Agora, falando especificamente do artista, esse menos ainda consideramos que seja obrigado a se posicionar. A arte não é obrigada a nada, nem deve ser. Ela não precisa nem fazer sentido. E o artista, por sua vez, pode ser uma pessoa completamente reclusa, pois ela não precisa ter a menor importância. O que importa é a obra. É claro que, se uma pessoa pública do tipo que arrasta uma multidão de seguidores, fãs ou admiradores se posiciona, fortalece muito o movimento e é bem vinda à causa. Mas acreditamos que, se estamos lutando por direitos e democracia, devemos também garantir ao indivíduo o direito de assumir a postura política de não se posicionar, ou corremos o risco de sermos autoritários como o sistema que lutamos para derrubar.

FMZ: A pergunta que tem encerrado as entrevistas aqui no FMZ ultimamente: o que esperar do mundo pós-coronavírus?

Séquito: De coração, gostaríamos de ser mais otimistas e de acreditar que a humanidade sairá mais consciente sobre a importância do espírito de coletividade, mas suspeitamos que isso só deve acontecer se chegarmos à carreira dos milhões de mortos. Talvez, nem assim, pois tanto a Escravidão como as Grandes Guerras Mundiais, o Holocausto ou outros eventos chegaram a essa marca e, mesmo com tudo isso, as hordas negacionistas parecem aumentar cada vez mais. Pelo menos, hoje temos mais facilidade de registrar evidências e nos comunicarmos em tempo real. Mas fica difícil criar muita expectativa quando a proporção de gestos egoístas e inconsequentes se apresenta superior à de consciência, solidariedade, zelo e respeito por si e pelo próximo. Na verdade, torcemos para que estejamos enganados e nos surpreendamos positivamente com o mundo, pois a questão, para nós, não é sobre quem vai acertar ou errar as previsões; é sobre o que fazemos com essas informações, números, projeções; como isso nos afeta – se nos afeta – e se somos capazes de aplicar esse conhecimento daqui para o futuro, uma vez que o assunto sobrevivência é de interesse de grande parte dos habitantes deste planeta, não é arriscado dizer.

Ouça “Estética de Queda” no Spotify.

Conheça a banda Séquito: Bandcamp / Facebook

foto: reprodução/facebook


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