• Rafa Almeida

Entrevista | Velho Oliveira

Atualizado: Set 13



Parece clichê mas, de fato, a história de Velho Oliveira (foto) se confunde com um bom pedaço do meio underground de Niterói e cidades vizinhas. Entre a Zona Norte da Cidade e a vizinha São Gonçalo, Velho deu os primeiros passos. As primeiras bandas, o primeiro contato com o voz e violão, o aprimoramento e o mergulho na carreira solo!

Se apresentar com banda, no formato voz e violão, com repertório autoral, fazendo covers em festas, shows intimistas e no meio da rua! Versatilidade requer dedicação, tempo, estrada. E nosso entrevistado fez a lição de casa! E muito bem feita!

Com uma visão madura e bastante consciente da própria obra e carreira, Velho conta um pouco de sua história e toca em temas que já queríamos ter abordado aqui no FMZ, como a relação dos artistas underground com as plataformas de streaming.

Aí vai, então, um papo que o FMZ já queria bater há um tempo! Legítimo representante da música independente de nossa Niterói. E caso você nunca tenha cruzado com ele e sua viola por aí, chegou a hora de conhecer Velho Oliveira:

FMZ: Pra começar queria falar sobre o Velho Oliveira de antes do trabalho solo! Bandas por onde passou, enfim... E como se deu a carreira solo, claro!

Velho Oliveira: Comecei a me interessar por música, principalmente pelo Rock, tanto pelo nacional quanto pelo internacional, em meados dos anos noventa. Em 1999 montei com os meus primos e mais dois amigos lá do morro, em Tribobó, São Gonçalo, uma banda chamada The Crazys, que tinha no repertório os “rocks” das bandas conhecidas dos anos 80 e 90 na grande maioria, e já tocávamos músicas autorais, nessa época. Arrumamos um lugar para tocar todas as sextas, o bar da Dona Vera, neste mesmo lugar onde crescemos. O nome do evento, que organizávamos nesse bar, era Sexta Rock, em uma das edições do evento vieram duas bandas de Niterói/RJ tocar com a gente, era bem bacana esse tempo. A The Crazys chegou a tocar em algumas festas de rua nos bairros vizinhos, como Novo México, Nova Grécia e também nas cidades de Maricá/RJ e Niterói. Essa banda durou até 2003.

Em 2002, ainda tocando com a The Crazys, Roulien me chamou para “fazer o baixo” na Algo Errado, uma banda de Punk/Rock/Hardcore de Niterói. Quando a The Crazys acabou, fiquei só na Algo Errado e tocávamos muito! Com Algo Errado conheci muita gente aqui no Leste Fluminense, fizemos muitos shows em Maricá, com Fabio Heavy, no início dos anos 2000. E já nos últimos anos da banda fizemos algumas apresentações nos eventos do João Rock, chegamos a ir à rádio que ele tinha em Itaipuaçu para fazer um som ao vivo, isso só em Maricá!

Em Niterói, tocávamos muito no Convés, no Gragoatá, como convidados e também fazíamos eventos, na época que o aluguel do espaço era 50 “conto”. Tocamos bastante em eventos que rolavam no Largo da Batalha, tinha eventos em clubes, posto de gasolina e bares, a Algo Errado também fez shows em vários bairros dessa cidade, da Zona Sul à Zona Norte, passando por periferia e morros, foram muitos lugares e situações...rsrs. Tínhamos uma forte veia punk, seja lá o que isso possa significar...rsrs

Já em São Gonçalo, tocamos em vários eventos da época na Praça Chico Mendes, Clube Recreativo Trindade, Bar do Blues, Groove do São, entre vários lugares da cidade, tocamos muito em São Gonçalo. Em 2009 a banda Algo Errado acabou, com a saída do vocalista, no meio da gravação do nosso disco, continuamos como L’atitude 69, mas durou pouco. É muita história..rsrs

Além de “fazer o baixo” nestas bandas, eu também gostava de tocar violão paralelamente e sempre tinha alguns sucessos de rádio “na manga” ou algum clássico para apresentar nas rodas, além das autorais, claro. Comecei tocando “no amor” em festas e reuniões de amigos, participando de shows deles também. Hoje vejo que essa fase foi muito importante para eu desenvolver o cantar e tocar violão! E me ligar em repertório, pensar numa apresentação, essas coisas.

Dessas festas surgiu a oportunidade de tocar no bar Alquimia, do meu amigo Ed, que ficava na Praça Chico Mendes em São Gonçalo. Com cachê, respeito ao artista, ao repertório e com todas as condições para rolar o som. A partir desse bar, comecei a tocar em vários outros da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, principalmente no Leste Fluminense (São Gonçal, Maricá, Niteró, Itaboraí, entre outras), fiquei nessa “onda” de fazer versões de artistas consagrados da MPB/Rock em bar por um bom tempo.

Em 2016, lancei o EP "Seu conjunto vai fazer sucesso". Dois anos depois, foi a vez do disco "O Cantador de Calçada" e o meu trabalho mais recente é o Compacto Simples DigitalTriboboys”, lançado em 2020. Todos produzidos de forma independente, na cara e na coragem, mas também com colaboração de vários parceiros, ninguém faz nada sozinho. E desde então, tenho dado mais atenção ao meu trabalho autoral, mesmo com muito pouco retorno financeiro. O grande pagamento é a satisfação de ver seu trabalho na rua, nas redes sociais, plataformas de músicas, a galera curtindo e dando o feedback.

FMZ: Você lançou "Cantador de Calçada", um CD, em plena era de streaming e outras formas de espalhar música na internet. Porque o lançamento no formato físico? Deu o retorno esperado?

Velho Oliveira: Sou de uma geração de antes das plataformas digitais né, meu amigo? Escutei música de diversas formas: LP, Fita K7, CD, MP3 e ainda escuto nesses formatos, principalmente o MP3! Sou velho ..rs. Agora temos as plataformas musicais, o chamado streaming. Tenho utilizado o Spotify e o Youtube na forma gratuita, pois acho um absurdo pagar para escutar música para essas empresas, sabendo da relação financeira injusta que elas têm com os artistas, que tem que bancar com todas as despesas de gravação, produção, divulgação, entre outras coisas. E ainda tem a questão dos atravessadores, que são as plataformas de distribuição digital de música, (ONErpm, CD Baby), enfim... Mas isso é assunto para outra oportunidade...rsrs.

Voltando à questão do formato. De certa forma, eu queria ter o meu trabalho lançado do jeito dos artistas que me influenciaram, mas é claro que estamos em 2020, e por isso temos que estar atentos aos tempos que estamos vivendo. Então, fiz 500 cópias do disco "Cantador de Calçada", baseada na vendagem que o EP teve em 2016, confeccionei 100 cópias, vendi 94 muito rápido, tomei 3 “voltas” e dei 3 de cortesias. Nem eu tenho mais uma cópia dele, eu fiz artesanalmente um por um e vendi a R$ 10,00 na época. Já tem gente disposta a pagar R$ 50,00 (rsrs). Já o CD, as cópias foram feitas por uma gráfica de São Paulo e já consegui entre vendas, cortesias e brindes distribuir por ai, mas da metade das cópias. Eu vejo o formato físico como sementes, nas quais umas germinam e outras não, mas temos que jogar para o universo e vê no que vai dar. Outra coisa que eu constatei com o disco físico é que tem gente que não tem nem mais onde tocar CD. Mas alguns ainda escutam, principalmente no carro.

De certa forma tanto o EP, quanto o CD se pagaram. Todos os custos que tive com gravação, confecção das mídias, da arte capa, ensaio fotográfico, gráfica consegui arcar com vendagem dos trabalhos, lucro mesmo (rsrs). Mas sempre é uma aposta, tem que “botar a cara” e ir para o corpo a corpo, fazer lançamentos, trabalhar o disco com as “armas” que você tem e tocar em todos os lugares possíveis. Com EP, ainda paguei parte do som do lançamento com a venda dele no dia.

FMZ: Ainda no mesmo tema. Você se vira bem com essas novas formas de consumir e divulgar música na internet (eu ainda tô aprendendo, acho... rs)?

Velho Oliveira: A forma de consumir música, como eu disse anteriormente, consumo somente a versão gratuita, talvez algum dia eu mude pro pacote premium ou inventem outra forma de se consumir música. Com a divulgação estou aprendendo fazendo, canais de informação como o seu fanzine, redes sociais, as pessoas que curtem o trabalho compartilhando as minhas publicações, nas apresentações ao vivo sempre falo sobre o que é lançamento naquele momento, enfim, “vendo o meu peixe”!

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Acredito que essa estratégia seja muito comum entre artistas com poucos recursos para investir na carreira, é uma forma de manter a sua arte viva. Mas confesso que a criação de conteúdo para que o seu trabalho tenha mais visibilidade é uma tarefa muito árdua, pois são muitas questões para resolver, muitas vezes sozinhos ou com ajuda de algum amigo, e com uma estrutura muito limitada. Sei que com uma equipe de profissionais da área e recurso financeiro para investir, minha arte chegaria a muito mais pessoas.

FMZ: Você tem feito lives muito legais durante a quarenta, com convidados e até tocando sons de outros artistas independentes. O que tem achado desse tipo de apresentação?

Velho Oliveira: No momento em que estamos vivendo, acredito que seja o único formato para se fazer apresentações seguras e que não coloque a vida de ninguém em risco. Tem sido uma experiência nova para todos, tanto para artistas consagrados, como para os independentes. Muitos acreditam que isso é positivo, mas não vejo dessa forma, pois mesmo que estejam todos se adaptando a esse novo tipo de apresentação (que nem é tão novo assim) a concorrência ainda é muito desleal no sentido da estrutura de som, cenário, patrocínio, enfim, até na conexão da internet, dependo de onde você está fazendo a sua “live”...rsrs

Como a concorrência é muito grande e não só com os outros colegas artistas da música. Nós ainda disputamos espaço com a Netflix, futebol e no meu caso com os programas dominicais da TV aberta (rsrs), já que faço as minhas “lives” todos os domingos desde que começou o distanciamento social. Diante disso, tenho que buscar inovar na medida do possível para tentar atrair a atenção da galera para os meus shows. Sobre as “lives” com as músicas de outros artistas independentes é uma forma de divulgar o trabalho deles e manter o movimento vivo nesses novos tempos. E fico feliz que você curte as minhas apresentações pela internet.

FMZ: Além do trabalho autoral, nos shows você também toca covers, muita coisa de Raul, enfim. Como é equilibrar o trabalho autoral com covers no repertório?

Velho Oliveira: Infelizmente aqui, na região metropolitana do Rio de Janeiro, onde desenvolvemos nossa música é muito raro você receber cachê para fazer um show todo autoral, já recebi, mas acho que só foi uma vez, ainda com a banda Algo Errado, em 2008 num evento de prefeitura.

Como eu comecei tocar em bares que eu tinha liberdade no repertório, sempre toco minhas músicas, mesmo em shows que eu fui chamado para tocar versões (prefiro chamar de versões a cover, pois cover, na minha concepção é quando o artista ou músico imita e se veste como o ídolo), eu faço versões devido a várias questões..rsrs, mas isso também fica para outra conversa.

Com experiência adquirida nos “bares da vida” criei uma regra sobre essa questão de autoral e versões, sempre que vou me apresentar, 10% do repertório têm ser das minhas canções. E com um tempo a gente vai criando estratégias, quando estou tocando num bar ou em qualquer outro lugar, que fui contrato para tocar músicas de artistas consagrados, ao iniciar uma música autoral, eu nunca falo que ela é minha antes de terminá-la e também emendo em canções conhecidas, percebi que dessa forma o público assimila um pouco melhor. Raul para mim é um mestre, uma referência musical, como Belchior, Zé Ramalho e bandas como Dead Fish, Legião Urbana, Engenheiros do Hawaii entre muitos outros.

FMZ: Você também investia em apresentações na rua. Como era mostrar trabalho autoral pras pessoas assim, passando de um lado pro outro, apressadas? Dava pra sentir o retorno quanto às músicas próprias?!

Velho Oliveira: É... A maioria das pessoas que passa te ignora, mas de certa forma uma grande parte também podia me ouvir, eu levava uma caixa de 500 watts para o centro de Niterói. Na rua eu fazia um repertório variado, mesclando versões consagradas e minhas músicas, e tive um retorno razoável, pois levava o meu banner de divulgação do disco, vendi alguns CDs, as pessoas filmavam e colocava nas suas redes sociais, o “chapéu” algumas vezes caia uma grana melhor do que eu ganhava em alguns bares, enfim foi uma experiência muito bacana, que pretendo continuar quando puder aglomerar novamente.

Tem o outro lado também, era bem cansativo, pois eu levava tudo de ônibus, às vezes eu fazia com alguns amigos, fiz algumas com o meu amigo Ton Boniolo no cajon e também cheguei a tocar uma vez com o amigo Roulien Lira, que me ajudavam no transporte. Mas dividir o “chapéu” para dois muitas vezes não compensava.

Eu sempre quis ter essa experiência de tocar na rua, quando eu via os artistas de rua, ficava pensando como seria me apresentar no meio da multidão e também via como uma forma de divulgar o meu disco “O Cantador de Calçada”, pois o nome já é bastante sugestivo (rsrs). Essa experiência também serviu para eu amadurecer como artista e também como pessoa, pois eu interagia com trabalhadores, pessoas em situação de rua, estudantes, outros artistas de rua, hippies, enfim, todo tipo de gente, e nos intervalos trocava ideia com muitos deles. É na rua onde tudo acontece...rsrsrs

Antes começar a me apresentar na Praça Arariboia em Niterói (Estação Das Barcas) onde eu fazia com mais frequência, eu já vinha fazendo apresentações em espaços públicos, como nas rodas de Rap na Praça Chico Mendes em São Gonçalo, toquei na Praça do Bowl em Nova Iguaçu/RJ. Além da Estação Das Barcas, eu também cheguei a tocar na Praça XV e Praça do Museu do Amanhã, ambas na cidade do Rio de Janeiro. Tocando na Praça Arariboia, cheguei até a ganhar alguns apelidos como “O cantor das barcas” e “Bob Dylan da Praça Arariboia”... rsrsrs

FMZ: E como você imagina o futuro dos artistas independentes no tal do "novo normal", ou seja, num mundo sem aglomerações?

Velho Oliveira: Pelo que eu já estou percebendo os artistas independentes vão focar nas plataformas que podem gerar algum retorno financeiro com a sua música como Spotify e Youtube.

Acredito que as “lives” vão perdurar por mais algum tempo e as apresentações com público só vão ser liberadas depois da vacina, mas isso no mundo ideal. Já no mundo real, eu imagino que não vai haver fiscalização tão rígida e vão rolar muitos shows clandestinos, pois muitos bares da periferia da região metropolitana já estão funcionando quase que normalmente, os músicos precisam trabalhar e alguns conhecidos já estão até fazendo com público reduzido. Eu não vou me arriscar tanto assim, vou continuar com os shows pela internet até que todos estejam imunizados.

FMZ: A pergunta que tem encerrado as entrevistas aqui no FMZ ultimamente: o que esperar do mundo pós-coronavírus?

Velho Oliveira: Acredito que não vai mudar muita coisa, pois essa pandemia mostrou o quanto uma grande parte da população está despreparada para um esforço coletivo como nação, principalmente nossos governantes, pois vimos aqui no estado do Rio de Janeiro secretário de saúde sendo preso por desviar verbas para combater o vírus, governador prestes a sofrer um impeachment pelo mesmo motivo. Por parte de muita gente a falta de empatia, muita ignorância em todos os sentidos. Também acredito que muitos sairão pessoas melhores. Um amigo me disse que: “essa pandemia vai servir para separar o joio do trigo”.

Conheça Velho Oliveira: Spotify / Youtube / Facebook

foto: divulgação


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