• Rafa Almeida

Entrevista | Xharles

Atualizado: Ago 30



Já que o FMZ está usando as entrevistas como desculpa pra bater papo com os amigos durante a quarenta, fomos atrás de mais um velho conhecido deste fanzine pra saber como andam as coisas em tempos de isolamento social!

O compositor gonçalense Xharles (foto) já circula no underground de nossa Região faz tempo. Desde os tempos de banda Incrível Mart, passando pela carreira solo, colaborações com vários projetos aqui do FMZ e, retomando a carreira solo, um single com produção de Jimmy London!

Xharles pertence à parcela dos trabalhadores que não pôde se dar ao luxo de ficar em casa. E entre cuidados no dia a dia e o isolamento social, o ritmo de criação não parece ter diminuído! Tem tudo isso e muito mais no papo com Xharles. Confere aí!

FMZ: Começando pelo trabalho mais recente. Fale um pouco do processo de produção do novo single, como foi gravar com o Jimmy, enfim!

Xharles: Sobre o novo single, tudo começou meio que por acaso quando eu convidei o Fernando Oliveira, músico de Niterói, e membro da banda Rats pra participar da gravação e fazer os arranjos. Por que eu queria uma sonoridade mais Folk Rock e sabia que ele manda bem nessa pegada. E então, nas conversas com ele sobre a produção, surgiu o nome do Jimmy, que foi quem produziu os álbuns do Rats e, inclusive, está tocando com os caras atualmente.

Então, marcamos os três um dia na casa do Fernando, em Niterói. Pra trabalharmos no arranjo antes de entrar no estúdio pra começar a gravar. Mas todo processo foi bem rápido. Depois dessa reunião, algumas semanas depois, já tínhamos marcado o estúdio pra gravar! E foi uma experiência incrível pra mim, que até então ainda não tinha tido oportunidade de fazer alguma gravação com uma estrutura mais profissa e tal. Com técnico de som e tudo mais.

Ficamos 12 horas praticamente dentro do estúdio, que fica lá na Barra, com algumas pausas pro café (rsrs), demos uma volta rápida pelo quarteirão e tal, trocamos muitas ideias sobre a gravação e sobre outras coisas relacionadas à musica, gerenciamento de carreira, mercado independente e maisntream e varias coisas do gênero. O Jimmy deu várias dicas sobre maneiras de se trabalhar e desenvolver seu som e divulgar seu nome. E foi super paciente durante todo o processo de gravação, além de super gente boa ele entende muito dessa parte de produção, captação, timbragens de instrumentos e etc.

O Jorge Guerreiro, que foi o técnico de som, também é outro mestre que já trabalhou com muita gente boa. E o Fernando, que fora violão e voz, gravou todos os outros instrumentos da faixa... Todos me passaram muita tranquilidade pra eu fazer a minha parte da melhor maneira possível! E gravar esse single foi, sem duvida, uma das experiências mais fodas que tive nessa minha vivência e caminhada enquanto músico.

FMZ: Seu ritmo de composição sempre foi acelerado. Em tempos de isolamento social a criatividade continua à toda? Como tem sido o ato de compor pra você nesse momento?

Xharles: Meu ritmo de compor não tem muito ritmo na verdade, tem épocas que faço pouca coisa e em outras faço música quase que todo dia. O ato de compor pra mim é sempre meio que algo entre a angústia e o alívio.

Quando começou essa parada de quarentena eu entrei num mês de produção bem frenético, fazendo não só muita coisa nova, mas tentando fazer alguns sons meio que diferentes do que vinha fazendo, ouvindo e tentando criar coisas novas. Algumas dessas ideias ainda embrionárias cheguei a mandar pra alguns amigos no afã de poder compartilhar um pouco desse processo criativo, nesse momento, com mais alguém.

Mas não sei se esse processo mais constante nesse período tem a ver propriamente com esse tempo de quarentena.

Como disse, normalmente já oscilo entre períodos de maior e menor produtividade. Mas senti que independente da produção não ser, necessariamente, resultado dela, o teor tanto de algumas canções e letras quanto de algumas melodias e harmonias mais denso, sombrio ou algo do do tipo. Provavelmente tem alguma ligação com esse período esquisito que estamos passando. Essa tenção, nervos à flor da pele. Toda essa polarização, e esse ódio e intolerância que sabemos que sempre existiu, mas estava oculto ou camuflado. E agora é cuspido e jogado na cara de todos na TV, redes sociais e no dia a dia mesmo.

Isso meio que me fez refletir bastante sobre o quê vem acontecendo e sobre a necessidade de se falar sobre isso na música, e de que maneira fazê-lo.

FMZ: A Incrível Mart ensaia uma volta com a formação original não é de hoje. E você também andou ensaiando com uma galera há um tempo. No que esses projetos deram (ou podem dar um dia)?

Xharles: Em 2019, depois de umas conversas por redes sociais, decidimos marcar uma reunião com o Incrível Mart. E fizemos um ensaio. A princípio, a ideia era só matar a saudade de tocar juntos, trocar uma ideia e tomar umas cervejas. Mas o ensaio fluiu tão bem que decidimos marcar outros nos meses seguintes!

E então até pensei, e chegamos a conversar sobre a possibilidade de fazer algumas apresentações comemorativas, em razão dos 20 anos de formação da banda naquele ano. Mas infelizmente a ideia acabou não indo pra frente e se concretizando. E depois nada mais foi conversado nesse sentido, e aos poucos foi ficando mais complicado marcar ensaio...

Meio que parece que o interesse de alguns foi diminuindo e a coisa foi desandando, até parar tudo de vez novamente.

Então, até em razão disso (de ter curtido a ideia de voltar a fazer um som com banda)

comecei a procurar pessoas que estivessem afim de tocar e fazer trampo autoral. O que nunca é muito fácil de achar, mas depois de muita procura consegui definir uma formação. Até agora estávamos pra começar os ensaios, foi quando começou a quarentena por aqui e, desde então, seguimos conversando pelas redes sociais, esperando o momento pra voltarmos às atividades.

Agora, o que pode dar eu não sei dizer. Só que estou muito pilhado de voltar a fazer um som com banda e que fiz um bocado de música nova em razão disso.

FMZ: Você tem álbum e EP com a Incrível Mart e outros projetos. Na carreira solo ainda não rolou nada do tipo. E a última canção foi lançada como single. Você ainda tem planos de um álbum solo, ou as novas formas de consumir música enterraram de vez esse tipo de lançamento?

Xharles: Eu até tenho vontade de gravar álbuns solo e tal. Mas como você mesmo diz, sobre esses novos tempos, eu não sei até onde isso é viável e até interessante pras pessoas, de modo geral. Gravar um álbum com uma qualidade bacana ainda não é uma coisa barata e simples. A não ser que você manje de produção caseira e tenha o equipamento necessário. O que não é meu caso.

Mas sei de muita gente que consegue gravar e obter um resultado satisfatório em casa. Mas pra gravar em estúdio ainda é um lance um pouco complicado. Ainda mais fazendo tudo por conta própria. E no caso do meu trabalho solo, arcando com todos os custos sozinho, já que com a banda ainda era possível dividir isso entre todos os membros.

Então, o mais provável é que eu eventualmente, quando possível, grave um single aqui e outro ali, em algum estúdio com produção mais caprichada como fiz. E se, quem sabe, rolar algum apoio ou suporte pra ajudar a bancar a gravação de um álbum cheio...

Mas honestamente, nem espero mas por isso hoje em dia. Isso já era uma coisa difícil quando ainda haviam gravadoras interessadas em encontrar novos músicos e investir neles, agora os tempos são outros e dificilmente acontece esse tipo de coisa.

Então nesse tempo, independente disso, vou gravando outros sons de forma caseira, com o celular mesmo, em áudio ou vídeo de forma bem simples e às vezes até tosca, e disponibilizo pra quem quiser ouvir na internet.

FMZ: Há quem diga que as plataformas de streaming são uma fonte inesgotável de novas bandas a se descobrir. Minha idade não permite ter toda essa desenvoltura com novas tecnologias, mas aos poucos vou aprendendo. Como é isso pra você? Não só com relação a coisas novas que tem ouvido, mas como isso influencia sua música?

Xharles: Realmente as novas tecnologias, como as plataformas de streaming, vem influenciando de forma determinante como as pessoas estão consumindo música hoje em dia. Só observar que boa parte das pessoas ouve apenas algumas faixas dos álbuns lançados pelos artistas. E que cada vez mais artistas optam por gravar e lançar apenas singles. E às vezes depois juntando como um álbum, com acréscimos de uma ou outra faixa, ou não.

Eu acho que parece muito mais cômodo pra maioria das pessoas ouvir música dessa maneira pulverizada, nessas plataformas. Isso é evidente, mas eu não costumo usar muito essas ferramentas. Não que tenha algo contra, mas é mais por comodismo mesmo. Até baixei umas por algum tempo, mas não me adaptei muito bem a elas. Na verdade, o que mais uso pra consumir música no momento é o YouTube. E acho que isso talvez influencie na minha produção, porque lá, assim como nas plataformas, a forma mais usual e funcional de divulgação é com singles também, e não álbuns. E é como tenho feito pra divulgar e compartilhar minha música.

FMZ: Você foi parar no jornal como o "compositor gonçalense com mais de trezentas canções" e a pergunta é: como você organiza tanta coisa na cabeça, em gravações, cadernos...? E você pensa em lançar essas canções em algum momento?

Xharles: Eu tô sempre tentando organizar isso, mas no geral é assim mesmo como você diz. Algumas guardo de cabeça. Tem muita coisa espalhada em cadernos. Acho que a maior parte que vai de 1999 até hoje tá assim. Tem coisas que gravei em fitas k7...

No início dos anos dois mil eu gravei várias fitas imaginando que um dia lançaria como CD de alguma banda de Rock que montaria. Algumas das músicas dessas fitas, depois, cheguei a tocar com o Incrível Mart. Outras passei pra outras mídias quando as fitas começaram a degradar. E tem muita coisa que gravei em celulares, de 2010 até hoje.

Algumas dessas que estavam em k7 ou em celulares velhos eu acabei perdendo quando eles estragaram e tal. Mas a maioria eu consegui salvar nas nuvens, em algum caderno ou na memória mesmo!

Muita coisa eu, como disse, já cheguei a tocar com a banda, algumas gravamos, algumas eu fiz gravações caseiras com telefone e já coloquei na internet (no Facebook e YouTube), mas ainda tem muita coisa que eu gostaria de lançar.

Mas não sei se será possível, de forma profissa ou mesmo amadora. Isso é um pouco frustrante, mas o que tento fazer é gravar o máximo de músicas possível e, aos poucos, postar na internet, pra que outras pessoas possam ter como conhecer, ao menos, um pouco do meu som.

FMZ: Você já participou de inúmeros eventos, shows, saraus e por aí vai. Mas suas apresentações ao vivo já vinham ficando quase que raras, de uns tempos pra cá. Isso foi algo natural, pensado, tem a ver com os lugares e oportunidades de se tocar ao vivo, enfim?

Xharles: Foram vários fatores combinados. Teve isso, de eu realmente não querer fazer muita coisa. Eu tive um período muito frenético, onde eu queria tocar em todos os locais e eventos possíveis da região! E isso foi bom por um lado. Porque fiz vários contatos e amigos, e porque eu gosto disso, de tocar ao vivo e tal. Mas por outro lado também é desgastante, pelo aspecto financeiro.

Porque pra tocar sendo independente tem um custo. Você arca com a passagem e, em muitos casos, com o que consome no local do show. E poucos são os que dão algum suporte ou ajuda de custo. Muitas vezes o lugar não tem um som legal.

Quando você faz voz e violão, geralmente te associam a músico que faz cover e etc. E isso acaba limitando um pouco as possibilidades e oportunidades de ter espaços pra tocar som autoral. Eu até consegui tocar no meio das bandas de Rock underground da região, mesmo fazendo voz e violão.

Mas muitas vezes é difícil conseguir romper essa barreira pra conseguir tocar nesse meio estando sozinho, e isso acaba sendo cansativo às vezes.

Então eu fui priorizando, cada vez mais, tocar em eventos de amigos ou nos que eu sei que terei alguma ajuda de custo ou algum suporte, um som bacana, que seja um evento que valorize o trabalho autoral e etc.

E como já são poucos os espaços pra eventos, principalmente pra shows independente e autoral na região, isso acabou me fazendo, de certa maneira desanimar um pouco e deixar as coisas fluírem mais devagar. Mas eventualmente, quando der, ainda penso fazer um som aqui e ali, dentro do possível.

FMZ: Seu trabalho não te permitiu simplesmente se trancar em casa. Qual a sensação de se ter que estar na rua e encarar transporte público num momento como esse?

Xharles: Realmente, por ser de uma das categorias que não parou nesse período, eu tive que continuar trabalhando mais ou menos normalmente. Mas devido ao meu horário de serviço, geralmente já não pegava o transporte público nos horários de pico.

Como eu trabalho à noite, quando tô indo a maioria das pessoas está voltando. Então não pego esse maior fluxo de pessoas no trânsito. Mas é evidente que mesmo assim fiquei com receio e tomando o máximo de cuidado possível quando me desloco pra ir e voltar do trabalho, e quando preciso sair pra qualquer outra coisa necessária, como ir ao mercado.

É espantoso ver como tem gente que parece não ter a menor noção do risco que ao qual se expõem, saindo sem máscara, se aglomerando, não tomando o mínimo cuidado. Várias vezes ouvi pessoas dizendo absurdos, como que isso da doença era invenção da mídia, ou de alguns políticos. Que não era nada de mais, nada que matasse e etc. É difícil ter que ouvir esse tipo de coisa e ficar quieto, sem acabar se sentindo meio mal e constatar como boa parte da população é desinformada, e também desinforma os outros.

É complicado e lamentável ver como tem gente que está lidando com esse momento de maneira totalmente irresponsável.

FMZ: Nós que por muitos anos tentávamos tirar o povo de casa pra ir aos shows, hoje temos de convencer meia dúzia de que não é pra sair! Ao final de tudo isso, São Gonçalo e Niterói terão uma cena alternativa a ser salva?

Xharles: Pois é. Uma triste ironia, isso. Eu realmente não sei se haverá uma cena a ser salva, mano. As coisas meio que já estavam mal das pernas, e aos trancos e barrancos por aqui faz tempo. Mas eu acho que alguma coisa sempre haverá.

No fim das contas, a cena independente só existe porque existem pessoas que tem bandas e querem mostrar o seu som, outros que tem um espaço, um bar ou produzem algo porque gostam de movimentar a cena cultural local, gostam de ver essas pessoas mostrarem seu trabalho e acreditam nisso. Que isso pode, de alguma maneira, fazer a diferença pra alguém, em algum momento.

E eu acredito que sempre haverá essas pessoas querendo mostrar sua arte, sua música. E outras querendo ajudar pra que isso seja possível, mesmo quando o Rock não tá em alta, mesmo quando a economia não tá legal, mesmo quando a política se torna um obstáculo pra Cultura.

Mesmo nesse momento de polarização e divisão eu ainda acho que, quem tem a mesma visão de mundo, e acredita na importância da arte como ferramenta de expressão, transformação, luta e libertação, pessoas que entendam que a Cultura salva vidas, irão continuar se organizando e encontrando meios de fazer a música e a arte de forma geral sobreviver e continuar girando a roda.

Principalmente em se tratando da arte independente. Quem tá nesse meio sabe que nada nunca foi fácil. Sempre foi guerra mesmo, tanto pra quem produz quanto pra quem toca, e muitas vezes uma luta inglória, como na letra daquela música da banda carioca Cara de Porco: "quem tá no Rock..."

Mas mesmo assim, quem tá nessa batalha, a maioria das vezes, continua independente de tudo e apesar de qualquer coisa. Sempre em frente!

FMZ: Pra encerrar: O que esperar do mundo pós-coronavírus?

Xharles: Então, eu realmente não sei o que esperar, mano. Eu quero sempre acreditar que as coisas vão melhorar, mas não sei. Eu ao menos espero que chegue logo esse dia do pós-coronavirus, que a gente tenha o quanto antes uma cura, uma vacina pra isso. Acho que é o mais importante, que enfim cessem as mortes em razão dessa doença.

Que a gente possa andar na rua, ao menos, sem essa preocupação, sem esse medo. Que possamos voltar a estar com quem amamos, nos reunir e etc. Não sei quanto isso ainda vai demorar.

Mas mesmo com flexibilização, relaxamentos e controles de curva, acho difícil uma vida minimamente tranquila sem a certeza dessa cura. E até ela chegar viveremos dessa maneira. Uns tomando cuidado e muito preocupados, e outros agindo como se tivesse tudo normal. E o pior, muita gente perdendo a vida por isso.

Sempre enfrente!

Conheça Xharles: Spotify / Facebook / YouTube

foto: divulgação


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