• Rafa Almeida

Entrevistas | Buffalo Lecter


Buffalo Lecter | foto: Mylena Freitas

Em meados do anos sessenta, em meio a diversos movimentos musicais que pipocavam mundo afora, o Rock Psicodélico talvez tenha sido a manifestação mais significativa. Em todos os cantos do mundo, jovens em porões e garagens, literalmente, experimentavam, criavam, viajavam na música, literatura e no que mais estivesse à disposição. No Brasil, a Tropicália foi a resposta a esse momento artístico incrível!

Em 1969, em terras britânicas, o Black Sabbath lançava seu disco de estreia e além de estabelecer um marco (quase que) inicial no Heavy Metal, deixava sementes plantadas para o surgimento de diversos subgêneros do estilo, a partir dali. O mesmo aconteceria no decorrer da obra da banda de Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward.

Décadas depois, tanto o som do Black Sabbath quanto a psicodelia serviriam de base para o surgimento do Stoner Rock, ou Desert Rock. O estilo incorporava elementos de vertentes pesadas do Heavy Metal como o Doom, sons dos anos setenta e experimentações.

Agora, imagina tudo isso nas mãos e ouvidos de músicos brasileiros? Se a Tropicália se encarregou de incorporar elementos brasileiros a toda a loucura artística dos anos sessenta, as gerações que sucederam o movimento liderado pela trinca Gil, Caetano e Mutantes, se encarregou de fazer o mesmo com os novos sons que surgiam mundo afora!

Melhor ainda! Imagine todo esse caldeirão de influências e referências à disposição de músicos brasileiros, em uma cidade rica cultural e musicalmente como Recife? Um dos trunfos mais poderosos da música brasileira, sem dúvida, é nossa capacidade de tocar qualquer coisa, de um jeito que só nós conseguimos!

Sendo assim, é importante ficarmos atentos a toda e qualquer manifestação musical que passe por perto de nossos ouvidos! Sempre há algo a ser descoberto e com o que nos surpreendermos, né?! Sobre nossos entrevistados? Eles são um trio de Rock instrumental. E fazem uso das vertentes musicais citadas até aqui, bem como de mais um punhado de coisas que, talvez, nem eles façam ideia de como são incorporadas a seu som! E para desvendar um pouco do som e das influências da banda pernambucana Buffalo Lecter, o FMZ trocou uma ideia com o baixista Marcelo Duva! Se liga no papo:

FMZ: Queria voltar um pouco no tempo e saber como se deu o encontro de vocês e como a Buffalo Lecter surgiu!

Marcelo Duva: A Buffalo surgiu enquanto proposta em outubro de 2017, momento em que teve início os primeiros encontros para discutirmos a criação de um projeto musical. Já éramos três desde então. Jadie Tavares (bateria), Laio Orellana (guitarra) e eu, Marcelo Duva (contrabaixo).

A primeira sugestão veio do nosso guitarrista, no sentido de (re)montar a Insana Prometida, uma banda que ele fez parte e que tinha acabado de acabar. Porém, essa ideia foi abandonada desde logo.

Percebemos já nas primeiras conversas que havia o desejo de se lançar na criação de um novo projeto, queríamos na verdade começar do zero mesmo, nos reinventarmos, nos descobrirmos. Assim surgiu a Buffalo Lecter, concebida desde o início enquanto trio de Rock instrumental.

Com a definição da proposta, iniciamos os trabalhos em 2018, ano crucial para a definição da sonoridade da banda. Entramos em estúdio e efetivamente passamos a tocar juntos. Experimentamos muito nesse período, pesquisamos bastante também, até que os contornos da nossa sonoridade se consolidaram com a construção do nosso repertório de apresentações ao vivo e, já em novembro daquele ano, fizemos nosso primeiro show.

A partir daí, já em 2019, passamos a circular e diversos foram os palcos, processo que culminou em julho de 2019 com o lançamento do nosso primeiro registro fonográfico, um EP com quatro composições autorais, que sintetizam bem essa primeira fase da banda.

FMZ: Sobre o processo de composição de vocês: Ouvindo o EP, minha impressão é que muita coisa ali surge num esquema de jam session, confere?

Marcelo Duva: Essa sua percepção está correta sim. Parte significativa das nossas músicas surgiram e surgem, em alguma medida, desse esquema jam session. Inclusive ao vivo também, levamos muita coisa pro palco que é a base de improvisação, essa coisa jam de ser. Embora, jam não seja a única metodologia que lançamos mão para compor.

Muita coisa também chega no estúdio a partir de alguma sugestão trazida por um integrante. Um tema, um motivo, até mesmo algo que alguém levou pra casa e elaborou a partir de determinado arranjo trabalhado em estúdio. Na real, não tem rigidez nesse processo, a coisa vai caminhando a partir das contingências da vida (rsrs). Um destaque quando o assunto é processo de criação no nosso caso é a coletividade, nossa música é resultado direto da interação entre os três integrantes, sempre deliberamos em conjunto.

FMZ: E o retorno quanto ao EP lançado em julho, como tem sido?

Marcelo Duva: O retorno tem sido satisfatório, atendeu às expectativas que criamos quando trabalhávamos o lançamento.

Dentro das possibilidades de alcance de um projeto novo, autoral e independente, acreditamos que o EP cumpriu sua missão: marcar nossa presença na cena local, aqui em Recife e arredores. Distante do lançamento há aproximadamente um ano, podemos afirmar isso sem medo de errar.

Com ele conseguimos promover diversos shows de divulgação, difusão em diversos veículos, físicos e virtuais, participação em festivais, uma boa repercussão em veículos de mídia especializada, em especial pela internet, enfim, saldo positivo e muita felicidade com o resultado.

FMZ: Black Sabbath é uma influência e tanto pra Buffalo Lecter, isso dá pra sacar logo de cara. Mas queria saber que outras bandas, ou outros sons que inspiram vocês. E mais: como essas influências são incorporadas à sonoridade da banda. Vocês pensam nesse tipo de coisas, na forma como o que vocês ouvem aparece nas composições?

Marcelo Duva: Pergunta das mais difíceis, porque ouvimos muita música e cada um vem de uma escola diferente. As influências, em razão disso, são as mais diversas, até porque nos influenciamos mutuamente também, sempre estamos compartilhando o que estamos ouvindo, as novidades que descobrimos, os clássicos que revisitamos.

Além de que compomos com muita liberdade, nenhuma ideia é abandonada a priori. Não há preconceitos, apegos ou predileções. Estamos sempre buscando pluralizar nossas referências e aprender com o passado e com o presente, sempre olhando em frente, na busca por novos horizontes.

Acreditamos que a movimentação dos arranjos revelam bem esse espírito, dá uma ideia da diversificada referência musical da banda, revelando a pluralidade de nossas influências.

Vale a pena destacar, no ponto, que recebemos comentários dos mais variados em relação ao nosso som, tanto pelo público como pela crítica especializada. Nos associam a Post Rock, Stoner, Psicodelia, Progressivo, Heavy Metal... Um outro aspecto que revela muito da nossa musicalidade.

O fato é que a gente compõe com muita liberdade, sem amarras de qualquer espécie, todos participam igualmente do processo criativo, e não estamos preocupados em atender nenhuma demanda em específico, de modo que toda essa independência promove o caráter multifacetário da nossa música, revelador das diversas influências que compõe cada integrante em sua individualidade e o resultado que a interação entre os três proporciona.

Voltando às influências da banda, retomando a pergunta, estamos atentos a produção de rock instrumental e coisas do gênero que são produzidas no Brasil e em nossa região. Todas essas bandas e artistas nos influenciam de alguma maneira, com destaque para a Macaco Bong.

De influências internacionais, poderíamos destacar Russian Circles, Tortoise, Hedvig Mollestad Trio... Black Sabbath como você bem notou, Jimmy Hendrix... Essa lista deveria ser enorme pra fazer justiça (kkkkk)!

FMZ: Exceto em eventos ou ambientes específicos para música instrumental, ser uma banda nesse formato ainda causa surpresa em parte da galera?

Marcelo Duva: Em alguma medida sim, há uma expectativa por parte do público, do palco enxergamos algumas expressões de quem escuta e pensa: "não canta não, é?" (kkkkk).

Já rolou ocasiões, várias na verdade, em que éramos a única banda instrumental na line up... Eu já cheguei até a avisar antes de começar o show que "não canta não, heim" (kkkkkkk).

E encaramos isso com muita naturalidade, na real. Sabemos que muitas pessoas preferem o formato canção quando o assunto é música. Mas, também tem muita gente que gosta de música instrumental. O retorno do nosso trabalho e a base de fãs de bandas do gênero que estão na estrada há mais tempo revelam isso.

Nos motiva bastante a capacidade da música instrumental, da música em seus elementos mais essenciais, de sugerir estados mentais, de induzir sentimentos, emoções, evocar paisagens, memórias... E no fim de tudo o público acaba interagindo bastante com o som, até quem não está acostumado com música instrumental se rende, nos reportam que gostaram da experiência, isso é muito gratificante.

“Julgamos importante se posicionar politicamente, principalmente no país em que vivemos, pleno em contradições e desigualdades, com um histórico de violações e de desrespeito aos direitos mais básicos, principalmente em contextos como o atual, de obscurantismo e retrocessos.” (Marcelo Duva)

FMZ: E com relação ao cenário? Seja no Nordeste ou em outras regiões do país, podemos dizer que há uma cena instrumental, que as bandas mantêm contato, trocam figurinhas e por aí vai?

Marcelo Duva: Não acredito na existência de uma "cena", pelo menos não em Recife ou nas capitais mais próximas. Contudo, isso não é impedimento pra interação entre as bandas. Por aqui rola uma articulação da galera do instrumental e da galera da música de uma forma geral, união que busca implementar uma agenda positiva pra atender nossas demandas.

A gente se junta pra fortalecer na divulgação, desde pequenas atitudes diárias até projetos mais amplos, na difusão, na troca de informação e também na articulação de eventos, na integração com outras linguagens... enfim, união é tudo e acontece sim, a música é uma arte que ressalta nosso espírito gregário.

E através da internet é possível conhecer projetos e interagir com seus integrantes independentemente da localização geográfica. Iniciativas como a FMZ ajudam a promover esse tipo de contato, por exemplo. Listas, indicações, playlists... E assim a gente vai descobrindo artistas e bandas que estão trabalhando com Rock instrumental de várias partes do país e do mundo e sempre buscamos contato, travar uma conversa e assim vão surgindo mais possibilidades de trabalho.

Quem faz música autoral e independente sabe das dificuldades, e sabemos todas e todos que juntos somos mais fortes, independentemente da existência de uma cena stricto sensu.

FMZ: Qual a importância de uma banda se posicionar politicamente? E mais: no caso de uma banda instrumental, ou seja, sem a mensagem passada diretamente através de letras, esse tipo de coisa se torna mais complicada?

Marcelo Duva: Julgamos importante se posicionar politicamente, principalmente no país em que vivemos, pleno em contradições e desigualdades, com um histórico de violações e de desrespeito aos direitos mais básicos, principalmente em contextos como o atual, de obscurantismo e retrocessos.

A ausência de texto associado a música pode limitar, mas não nos é um empecilho. Para a música instrumental existem outras possibilidades.

Processar, em linguagem estética, uma atitude frente aos valores e as práticas adotadas acriticamente pela nossa sociedade, associando à música com outras linguagens, como o cinema, as artes plásticas, até mesmo a literatura, é uma opção que pode dar essa tônica na música instrumental.

Além disso, em nossa comunicação, seja por meio das redes sociais ou com o microfone na mão pelos palcos da vida, nas entrevistas... Não perdemos a oportunidade de nos posicionamos, se há espaço, de exibirmos nossas bandeiras e de pôr em pauta os assuntos que estão na ordem do dia.

FMZ: Como tem sido esse período de isolamento pra Buffalo Lecter? Mesmo à distância, vocês têm conseguido compor, manter algum tipo de atividade relacionada à banda ou algo do tipo?

Marcelo Duva: Esse período foi bem difícil na verdade, nossa equipe sempre trabalhou a base de interação física, sempre nos encontramos pra tratar de tudo, das burocracias... das composições... E apresentações ao vivo sempre foi o nosso forte. Então, diante da pandemia, suspendemos nossas atividades presenciais e nos dedicamos exclusivamente à internet.

Participamos de festivais online, de jams virtuais e aproveitamos para elaborar as projeções de futuro, delineando os próximos passos da banda no pós pandemia em reuniões virtuais.

Recentemente, com a retomada de algumas atividades na nossa cidade, parte de um plano de reabertura, voltamos a nos encontrar em estúdio, tomando todas as medidas sanitárias recomendadas, e estamos no momento trabalhando na revisão do nosso repertório de show, pretendemos melhorar algumas coisas e implementar novidades.

Também estamos trabalhando nas composições do nosso próximo EP, que vamos finalizar até o final deste ano, tudo visando o cenário pós-pandemia.

FMZ: Caminhando para o final, a pergunta de praxe aqui no FMZ: o que esperar do mundo pós-coronavírus?

Marcelo Duva: Pro pós-apocalipse viral a gente espera retornar ao ritmo anterior que havíamos emplacado e trabalhar no avanço do alcance da nossa música, explorando locais e públicos que ainda não atingimos. Essa é a expectativa, mas ainda temos dúvidas de como vai ser a realidade depois que isso tudo passar.

A arte, a cultura, o mercado do entretenimento, sentiram de forma especial o impacto do isolamento social. Reconhecemos que essas medidas são essenciais no enfrentamento ao coronavírus, mas sabemos das consequências para a cadeia produtiva da música, em especial a música fora do mainstream.

Então, existem muitas dúvidas de como vamos recompor esse cenário, de como superar essa crise. Na real, estamos na expectativa do quem vem por aí, neste mundo pós-coronavírus, na esperança de que juntos (músicos, artistas, técnica, casas de show, público...) possamos superar as dificuldades na hora da retomada.

FMZ: Valeu pelo papo! Fico no aguardo de conferir um show de vocês, num futuro próximo, quando pudermos nos aglomerar novamente! rs

Marcelo Duva: Com certeza, tmj! Valeu demais pelo papo, muito obrigado pela atenção de vocês e pela disposição em reverberar a música autoral e independente. Parabéns pelo excelente trabalho desenvolvido pelo Feira Moderna Zine, Abração.

Conheça a Buffalo Lecter: Instagram | Facebook | Youtube

Ouça o EP Buffalo Lecter no Spotify.

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